Caixa Preta Soteropolitana

Estamos em crise com a cidade da Bahia!

Converso com as pessoas e todas estão espantadas com o atual estado da cidade. Um simulacro de cidade, parecendo ser governada, parecendo ser habitada, mas que no fundo é uma agregação de coisas e pessoas que só se mantêm e sobrevivem do improviso, do individualismo e do esquecimento (“ah, deixa prá lá!”).

Não se vai mais à praia, já que não temos mais barracas (sim, precisavam ser padronizadas, limpas, controladas, mas devem existir e fazem parte da praia no nordeste. Mas até agora, nada ainda foi feito), os pontos turísticos estão entregues ao tempo e ao abandono. O Pelourinho está nesse estado há anos (pedintes, crack, ladrões…). O que as pessoas com quem eu conversei fazem agora é ficar em casa, visitar amigos, ou ir pateticamente, ao shopping. Levo meu filho nas praças públicas, mas elas são, com algumas exceções, um lixo, literalmente. Triste cidade da Bahia.

É unanime: a cidade está abandonada, sem inteligência política ou mesmo cultural. Uma lástima por todos os lados: transito caótico, instituições falidas, violência bandida e cidadã, deselegância e falta de educação básica, caos na saúde, na limpeza, no transporte público…enfim, tudo o que uma metrópole tem de ruim, sem ter o que elas (as metrópoles) têm de bom: civilidade, equipamentos de qualidade, bons programas culturais, inteligensia, bons e agradáveis lugares para se visitar, baratos e para todos. Nada disso encontramos em Salvador.

Tenho trabalhado com a Teoria Ator-Rede e um dos conceitos fundamentais é o de caixa-preta. Caixa-preta é um “conjunto” tão estável e bem resolvido que nos relacionamos com ele e não prestamos muita atenção. Ele desaparece em um fundo quando tudo está bem. Por exemplo, se o seu computador está ok agora, você nem pensa nele e pode continuar e ler o meu post. Mas se começar a travar, a desligar ou incomodar de alguma outra forma a sua leitura, você começa a pensar nele, a buscar saber de onde vem o defeito, quais seriam as causas. Você vai prestar atenção (ele sai do fundo) e tentar, aos poucos, resolver o problema. A caixa-preta se abre e revela os seus segredos: os problemas técnicos, de projeto, de design, de interface, de regulação, de política, de mão de obra etc.

O objetivo da teoria ator-rede é abrir as caixas-pretas do social por meio de controvérsias. Só assim o social pode aparecer, enquanto rastro das diversas associações entre humanos e não-humanos. Ao cientista social cabe fomentar controvérsias e abrir caixas-pretas. Elas não são apenas “coisas”. Um conceito estabilizado, por exemplo, é uma caixa-preta. Um estereótipo é uma caixa-preta.

Quando não conseguimos abrir a caixa preta, ela é tida como a realidade. A realidade é um enunciado difícil de derrubar, vai dizer Bruno Latour. Precisamos abrir caixas-pretas para ampliar a nossa noção de realidade, a nossa vivência nela, ou simplesmente questionar o que pensamos sobre ela. Assim, se digo que o brasileiro é um “homem cordial” ou que Salvador é uma “cidade da alegria”, para muitos isso tem um efeito de realidade. É inquestionável. Mas, para os chatos e implicantes, deve-se sempre abrir essas caixas-pretas e revelar o que está por trás (ideologicamente, politicamente, socialmente, culturalmente, tecnicamente…). Só assim poderemos, por exemplo, conhecer melhor o que se entende por Brasil ou por Bahia.

Devemos fazer isso em Salvador para compreender melhor os seus problemas. Mas o nosso problema aqui (em Salvador, mas seria também no Brasil?) é que não há mais caixas-pretas. Tudo está aberto, escancarado, revelando de forma tão visível, límpida e até mesmo pornográfica, as entranhas complexas (sociais, econômicas, políticas, técnicas, culturais…) dos seus problemas.

A violência no dia a dia abre a caixa-preta dos que vivem achando que aqui todo mundo é de Oxum, de paz e de alegria, ou dos que vivem em seus carrões blindados e/ou em condomínios de luxo fechados, achando que tudo só acontece lá na periferia. A caixa-preta abriu, revelando que todos estão vulneráveis, que a polícia é incompetente e a política pública de segurança ineficaz. A chuva que cai agora em Salvador, como todas as outras, abre o asfalto, entope os esgotos, desliza as casas nas encostas, apaga os semáforos…As caixas-pretas estão todas abertinhas, e só não vê quem não quer: péssimas condições das obras viárias, da habitação e de sua política, do transporte público, dos equipamentos e da infraestrutura de energia elétrica…

A cada chuva os semáforos se apagam e a caixinha abre: problemas técnicos, de licitação dos equipamentos, de infraestrutura urbana, de suporte e manutenção elétrica, de ineficácia dos orgãos responsáveis, de descaso e desorganização…O metrô é a piada pronta de sempre (lento, lento, como tudo na Bahia, dizem!). Os seus intermináveis 6 km (ah!) não ficam prontos, mas não há segredo. Todos já vimos essa caixa-preta aberta: corrupção, incompetência, descaso com a coisa pública e mais corrupção e rios de dinheiro. As estradas, como a BR 324 agora no trecho SSA-Feira de Santana, por exemplo, foram privatizadas e o pedágio cobra com uma eficiência robótica, mas os buracos e as péssimas condições continuam. Precisa abrir a caixa-preta? O Ferry Boat, desde a sua privatização, insiste em fazer os usuários de bobo e as mazelas são todas conhecidas (incompetência, impunidade, descaso político…).

Precisamos abrir as caixas-pretas? Claro que não. Elas estão escancaradas. Todos sabemos o que ocorre: péssimas licitações, falta de seriedade e de respeito, ganância, descontrole e falta de fiscalização do Estado…Aqui tudo é muito óbvio. As caixas-pretas vão se abrindo sozinhas. Nem precisamos nos esforçar muito para ver as coisas. Está tudo aí, visível: a precariedade da infraestrutura da cidade, a inapetência e incompetência dos gestores, o descaso burro e míope das elites, a ignorância e mal educação das pessoas na rua, o descaso com o outro e com a coisa pública no dia a dia (que é um sintoma do “dane-se, vou cuidar do meu”). Ninguém pode dizer que as caixas-pretas estão fechadas. Sabemos de tudo e conseguimos ver tudo a cada pequeno problema (as caixinhas se abrem todas, facilmente, a cada nova chuva, a cada novo jogo em Pituaçu, a cada festa de largo, ou na casa do vizinho, a cada ida ao Pelourinho para mostrar à tia que chegou de São Paulo…).

E isso é o que mais me assusta. Se abrir caixas-pretas é condição fundamental para alterar a realidade, para questionar os enunciados estabilizados, o que estamos esperando então? Se nada acontece por aqui, quando todas as caixas pretas estão abertas e não temos a desculpa de dizer que não estamos vendo, como poderemos ter esperança em alguma mudança? Um salvador ou um herói aparecerá na próxima eleição? Ora, já abrimos essa caixa-preta também!

Não há mais caixa-preta, ninguém acredita em mais nada, a realidade está em aberto, mas ninguém sabe o que fazer. Tudo está sendo questionado, tudo está escancarado, mas ninguém tem a menor ideia em como construir o presente. A barbárie está batendo nas nossas portas.

Que a esperança, sempre pendurada na caixa de Pandora, nos salve!

PS. Como sempre, falo de onde estou, mas tenho certeza que isso se aplica também a quase todas (se não todas) as capitais do Brasil. Olhe ao redor e tente abrir as suas caixas-pretas, se é que elas já não estão também escancaradas em suas cidades!

Cidades Invisíveis, Cidades Rastreadas


Meus rastros coletados pelo iPhone em arquivo “secreto”.

Apresentei o trabalho “Cidades Invisíveis, Cidades Rastreadas” na “Conferência Internacional Cidades Inovadoras”, na mesa sobre “Cidades Digitais”, em Curitiba, no dia 18 de maio. Segue abaixo os slides da apresentação e um pequeno resumo do tema tratado (esse resumo faz parte de um artigo que será publicado na revista Comunicação e Linguagem, em Portugal ainda em 2011).

Essa conferência busca aplicar a teoria “Ator-Rede” (Actor-Network Theory – ANT) à análise do espaço urbano em meio às mídias locativas. O objetivo é oferecer uma perspectiva epistemológica que pense o social como “mobilidade”. A perspectiva da teoria ator-rede privilegia o conhecimento do social por conexões, mobilidades, mediações, traduções, fluxos, descrevendo as ações em movimento antes de enquadrá-las em “frames” teóricos ou estruturas interpretativa. Em meio a profusão de dados e de rastros deixados pelas mais diversas ações no espaço urbano por sensores, redes, tecnologias e serviços baseados em localização e mobilidade, a partir da ANT podemos tentar compreender a cidade como fluxo e não como estrutura. A estrutura a torna visível como espaço genérico, pronto para um planejamento urbano na cidade instituída, no fundo um espaço abstrato, invisível, construído como “mágica”, conformando o ESPAÇO SOCIAL (a sociologia do social). Por outro lado, a ANT nos dirige os olhos para os rastros, nos permite ver as conexões entre diversos agentes humanos e não humanos, nos mostra o que forma efetivamente o LUGAR DA ASSOCIAÇÃO, a cidade real (sociologia das associações) que se faz e refaz nas tramas urbanas. Para a ANT, o social só pode aparecer das associações (lugar) e não explicá-las previamente (espaço).

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A ANT nos permite ver como os lugares se constituem por redes de atores que conectam sempre outros “sites” e temporalidades. Para Latour (2005) há sempre uma relação entre localização e contexto a partir de “articulators” ou “localizers”. Aqui, mais uma vez, o lugar não é independente do contexto, nem um mero refém deste. Há um vai-e-vem entre diversos mediadores que conectam “sites” e temporalidades fazendo do lugar o resultado de um atravessamento de fluxos. Para Latour nenhuma relação associativa em um determinado lugar é: “isotopic” (o que age em um lugar vem de muitos outros lugares), “synchoric” (reúne actantes gerados em diversas temporalidades), “synoptic” (não é possível ter uma visão do todo), “homogeneous” (as relações não têm as mesmas qualidades) ou “isobaric” (relações e pressões diferenciadas em cada lugar onde intermediários transformam-se em mediadores e vice-versa) (LATOUR, 2005, pp. 200, 201). Não se trata de globalizar o lugar nem de localizar o global, mas de pensar em uma “redistribuição” do local e do global.

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Essa nova cartografia tem assim um papel de reconstrução da memória social, de engajamento espacial, de produção de sentido local, de reforço de vínculo identitário, e de produção de uma política da cidade. As novas cartografias, ao revelarem os rastros das associações, oferecem uma visão que não pode ser aprisionada por enquadramentos absolutos próprios dos mapas analógicos e do discurso generalista da dimensão espacial. É interessante ver como a ANT nos permite analisar as tecnologias e os mapas digitais naquilo que eles nos oferecem de melhor: os rastros digitais de actantes humanos e não humanos, fixos ou em movimento, revelando correlações e diferenças.

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As tecnologias de informação e as redes telemáticas têm criado possibilidade de rastrear os dados sociais para diversos fins, inclusive de controle e vigilância. Recente livro, “The Social after Gabriel Tarde: Debates and Assessments”1, mostra a atual valorização do pensamento de Tarde. Alguns autores, inclusive Latour, vão questionar quais rumos teriam tomado o pensamento sociológico se Tarde, ao invés de Durkheim, tivesse sido o protagonista na história dessa ciência. Para alguns, um pensamento sociológico menos sujeito a regras gerais, a estruturas, mais próximo de variações não-hierárquicas seria hoje hegemônico. A máxima “o social é uma coisa” (Durkheim) teria sido substituída por outra: “toda coisa é social” (Tarde). Esse embate Tarde x Durkheim (que não faremos aqui) parece trazer um frescor às ciências sociais e mostra a importância de discutirmos ANT e materialidades no estudos da cibercultura.

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Essas tecnologias fornecem dados finos das associações, das variações, das adaptações e das redes sociais que nenhuma estatística jamais pode oferecer (traços de navegações em tempo real, mapeamentos e articulações com escrita nos lugares, marcas das leituras feitas nesse deslocamento…rastros de uma mobilidade que se inscreve e se lê, revelando associações). É nesse sentido que o “traço” da vida social mostra bem a força da sociologia de Gabriel de Tarde e da ANT. A estatística, assim como um mapa mimético, diz algo sobre o genérico, funciona como um panorama (o espaço), mostra tudo, mas pouco revela. A estatística do social fala do geral sem descer às complexidades das associações, das redes e das relações entre os diversos actantes, humanos e não-humanos. Contrariamente, os rastros digitais, para o melhor ou o pior (vigilância), revelam as caóticas navegações e as fluidas associações pelo vivido (o lugar).

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Things (and People) Are The Tools Of Revolution!

Esse post foi escrito em vários dias, muitos deles, sentado no quarto de um hospital. Publico hoje, com muita tristeza e pesar. Para meu pai, André Ferreira Lemos, in memoriam.

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Muitos artigos têm discutido o papel das mídias sociais e telefones celulares nos atuais acontecimentos no norte de África e Oriente Médio: Tunísia, Egito, Barein, Líbia, Iêmen, Marrocos… Uma verdadeira avalanche revolucionária atinge países dominados por ditaduras ancestrais e/ou por fundamentalismos religiosos. O que estamos assistindo é uma revolução de jovens que pedem a saída de regimes autoritários em nome da liberdade e da melhoria das condições de vida, sem slogan anti-imperialista ou bandeiras religiosas. A formação de um novo Mundo Árabe, sem ditaduras militares apoiadas pelo Ocidente ou teocracias fundamentalistas (embora ainda seja cedo para saber o que vai acontecer) é, junto com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os maiores eventos do ainda debutante século XXI.

As “redes sociais”, principalmente Blogs, Twitter e Facebook, e os celulares, com fotos, vídeos e SMS, têm sido atores fundamentais nesses levantes. Vejam esse interessante mapa mostrando a penetração de telefones celulares, internet e Facebook nos países do Norte de África e Oriente Médio. Há debate sobre se essas novas ferramentas produziram ou não a revolução, o que alguns estão chamando de “Revolução 2.0”. A questão que tem sido colocada, a saber se as redes sociais e celulares são apenas ferramentas, instrumentos, meios ou atores, aponta para uma má compreensão do papel dos objetos na vida social. É comum afirmações de que objetos são “apenas” ferramentas. É essa a sua essência, seu modo de existência.

Para compreender o papel do Twitter, do Facebook, dos celulares e Blogs nos atuais levantes nos países árabes, e para afirmar no final que eles são agentes que produziram as atuais revoluções, vou sustentar aqui (um work in progress como um exercício baseado na metafísica de Bruno Latour e sua Teoria Ator-Rede – Actor-Network Theory – ANT) que:

1. Não há essência ou imanência;
2. Toda agência depende da associação em causa e;
3. Agentes não-humanos não são entidades passivas.

Um martelo, um computador, leis e normas, um telefone celular, um blog, o Twitter ou o Facebook não são ferramentas, meios, intermediários, por um lado, ou agentes, mediadores, tradutores, atores, por outro. A ANT sustenta que não há essência, e que os “objetos” citados podem exercer um ou outro papel a depender das associações criadas. Para evitar pensar os agentes apenas como humanos, a ANT prefere o termo “actante” que, vindo da semiótica greimasiana, remete a tudo aquilo que gera ação. Portanto, não há essência, e actantes humanos e não-humanos assumem determinados papéis a depender das associações que se constituem em determinada ação. Se não há ação, não há nada e eles não são “actantes”. Por exemplo, cartas e bilhetes foram actantes não-humanos importantes em eventos e guerras passadas (na Grécia, na Primeira Guerra Mundial, nas revoluções políticas do século XX, etc.). O mesmo podemos dizer do rádio e da TV. Em alguns momentos são meros intermediários (não modificam outros agentes e não produzem diferenças), em outros, são actantes, agentes produzindo diferenças, ações (pode ser um martelo, um computador, um artigo científico, uma lei…).

No caso em questão, podemos dizer que Blogs, Facebook, Twitter, celulares…, agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos, etc.) e fizeram com que as ditaduras da Tunísia e do Egito caíssem. Eles podem não ter função mediadora no futuro, já que não há essência ou potência velada, só associações que se fazem ou não no tempo. Como diz Latour: “essência é existência e existência é a ação”. No fundo, a discussão sobre se as mídias sociais e telefones celulares fizeram a revolução se perde na polarização entre sujeitos (que têm uma essência – ser o mediador e senhor da agência) e os objetos (que têm uma essência – serem apenas intermediários, “ferramentas”, “instrumentos”, “meios”). No caso das revoluções atuais, vários textos (ver mais abaixo) consideram que as ferramentas digitais foram o que são: apenas ferramentas, meros intermediários, “meios” de comunicação.

É comum pensar que uma revolução que se preze só pode acontecer, e ser assim nomeada, se for feita por “sujeitos” livres, independentes dos objetos (que não podem ter papel ativo na ação). Pessoas são independentes das ferramentas. Objetos são, no máximo, instrumentos, epifenômenos dos eventos. Levantes “legítimos” são feitos por “sujeitos” livres, por subjetividades que compõem essa nova “multidão” emancipadora. O sujeito não se mistura ao objeto e, para ser sujeito, deve mesmo ser o mais “independente possível” dos objetos, deve se livrar das amarras para achar o seu “núcleo” velado no interior. Esse é o ponto crucial do equívoco: a dicotomia que separa sujeito e objeto (como se isso fosse possível!). No entanto, se retiramos os objetos, não encontraremos mais sujeitos!

Vejam alguns exemplos desse debate no artigo de Manuel Castells; em matéria no Le Monde sobre juventude pós-islamistas, e também aqui perguntando se “Les Révolution Arabes sont-elles des ‘révolutions 2.0’?”; no texto de Charles Hirschkind sobre a importância do Facebook e do Twitter no Egito; no artigo de Devin Coldewey afirmando que “pessoas, e não coisas, são as ferramentas da revolução” (o título é bem interessante, daí a brincadeira com o título desse post); na discussão motivada pelo texto “A revolução não será tuitada”, de Malcolm Gladwell; e em diversas contribuições na lista “air-l@listserver.aoir.org” da Association of Internet Researchers.

As mídias sociais fizeram sim a revolução, mas em uma rede de atores. Não foi uma revolução das empresas Facebook ou Twitter. Essas “redes sociais” foram agentes produtores de mediações na alavancagem dos acontecimentos nos países árabes. Nesse sentido, Facebook, Twitter, Blogs, telefones celulares, entre outros actantes não-humanos, fizeram as revoluções ao entrarem em associação com outros “actantes” (pessoas, discursos, dados sociais – desemprego e baixos salários, informações sobre corrupção e violência policial, mídia internacional, panfletos, pedras, etc.). É difícil achar uma agência puramente humana nesses fenômenos de associações, traduções e mediações. É difícil achar ação puramente humana, tout court! Nas revoluções que reconfiguram agora o Mundo Árabe, podemos dizer que atores humanos e não-humanos entram em mediações e traduções que as produziram. Sustentar o contrário é, em primeiro lugar, negar os fatos e, em segundo, se apegar à uma separação essencial entre sujeito e objeto, natureza e cultura que apaga os actantes não-humanos. Como Latour, reivindica-se aqui uma “filosofia orientada ao objeto”, uma “metafísica empírica”. Descreva essa revolução (ou qualquer outra associação) até o seu esgotamento e verás todos os actantes que a produzem!

Para os que compreendem o mundo a partir da grande Bifurcação (segundo termo de Whitehead), uma “legítima”, “essencial” e “imanente” revolução só pode ser feita por sujeitos “puros”, desamarrados de quaisquer relações com “atores não-humanos” (que só viriam a contaminar a sua essência – muitos artigos denunciam essa mácula). Essas revoluções são “Sociais”, com S maiúsculo, como aquilo que é produzido por sujeitos humanos. A ANT se opõe a essa visão do Social. Para muitos analistas, as atuais revoluções estariam latentes, aguardando sua atualização como um devir, uma resolução de poderes, uma imanência da multidão, em potência. Essa “Sociologia do Social”, como afirma Latour, esconde os actantes sob o manto das grandes narrativas (Poder, Império, Multidão, Estrutura) e não nos permite ver a “sociologia das associações” (entre humano e não-humanos) que revelam verdadeiramente o “social”. Como afirma Latour, o social não é a explicação das associações, como aprendemos na escola. Ele é o resultado dessas associações. E podemos facilmente retraçar as associações: vejam os artigos citados, os logs dos SMS, os posts nos blogs, Facebook e Twitter etc., para uma cartografia dessa “controvérsia”.

Ora, uma revolução sem actantes não-humanos não aconteceu no Norte da África, não acontece agora no Oriente Médio e talvez não seja exagero afirmar que nunca tenha acontecido na história da humanidade. Toda luta política, todo levante, toda ação que possa ser chamada de social (criada por associações entre actantes que traduzem e mediam uns aos outros) só acontecem pelas conflituosas, difíceis e tensas relações entre humanos e não-humanos. Cabe analisar em que momento, a partir dos rastros das ações, determinados actantes não-humanos serviram como mediadores, como tradutores, e em que momentos eles se calaram (não produzindo ações). Como vimos acima, a essência não existe e a agência se dá (ou não) na associação. Como pensar que guerras e levantes seriam realizados sem discursos das mais diversas ordens, sem imagens (fotografia, cinema, TV), sem armas, sem propaganda, sem panfletos, sem imprensa, sem telefone, sem rádio… Onde encontraremos um sujeito desprovido de seu hibridismo com o objeto?

Sim, ferramentas podem ser “apenas” intermediários quando não produzem diferenças, quando não traduzem outros agentes, ou seja, quando não produzem ação! Mas não a priori. Nas revoluções que aconteceram no Egito e Tunísia (veremos o que acontecerá nas outras), os rastros deixados confirmam que celulares, mídias e redes sociais (assim como o telefone fixo, satélites, TV, megafones, apitos, armas improvisadas, pedras, etc.), agiram como mediadores e tradutores de outros agentes (humanos e não-humanos) e fizeram sim, as revoluções. E parece que estão fazendo também as que estão em curso na Líbia, Barein, Iêmem…

Vejam como, erroneamente, Dan Patterson da ABC News afirma que “Twitter is a tool, the web is a medium, and journalism is an action” (via @liaseixas). Essa frase é exemplar do que queremos mostrar nesse post. Para Patterson, o jornalismo é ação (não seria ele ação de relatar acontecimentos?) onde agentes humanos (mas e as máquinas, as instituições, as redes de distribuição, etc?) têm o contrôle da agência. Já os não humanos, Twitter e Web são ferramenta e meio, mídia, respectivamente (vejam como a ANT pode nos ajudar nos estudos das mídias, embora seja pouco conhecida na área de comunicação no Brasil!). Mais uma vez, credita-se uma suposta essência. Mas o Twitter usado pelo Jornalismo na Web seria o quê? E a Web? Ferramenta, ação ou mídia?

Aqui está de novo a grande Bifurcação. Aqui começa a confusão. Como dissemos, tudo depende da associação. Ferramentas podem ser intermediários, quando não produzem ação, ou “actantes”, quando, em conjunção com outros, realizam eventos. Pensar como Patterson significa eleger a separação entre atores humanos e não-humanos dando privilégio a um dos pólos, no caso o “Jornalismo” (bom, ele é jornalista!). O jornalismo efetivamente produz ação, ele está certo, mas não É ação. No entanto, como explicar essa ação? Como esse “sujeito” jornalismo a produz? Não seria a ação do “jornalismo” fruto de um conjunto de associações entre actantes humanos e não humanos, sem que haja a priori um que seja o sujeito da “ação”, outro a “ferramenta” e um outro o “meio”? Como agiria o “jornalismo” sem os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular, o fax e … a internet e suas expressoões como o Twitter e a Web? Não caberia investigar caso a caso? Como pode um jornalista pensar e agir sem outros jornais, jornalistas, empresas, indústrias, publicidade, computadores, telefones, satélites etc.? Quem faz a ação é um sujeito não-híbrido livre de relações não instrumentais? Podemos separar de um lado “o jornalismo” e do outro as “ferramentas e meios”?

Para Patterson, o jornalismo é um “sujeito”, uma “estrutura” que cala os actantes não-humano. Ele só vê essências: jornalismo – ação, Twitter – ferramenta, Web – meio. Dito dessa forma, jornalismo é apenas um nome que apaga os demais actantes em uma grande Narrativa. Dizer “jornalismo” é o mesmo que não dizer nada. Não descreve o que ele é nem esclarece sobre sua prática. Apenas qualifica: Ação! É como dizer Poder, Império, Multidão sem se ater às descrições. Retire do “jornalismo” a internet, as empresas jornalísticas, as universidades e professores de jornalismo, os jornaleiros, os distribuidores, os computadores, os celulares, os orgãos reguladores, o papel jornal, a web…e veja se você ainda o vê algum “sujeito” livre de amarras!

Falamos aqui do jornalismo, mas podemos dizer o mesmo da nossa atividade acadêmica: como produzir um texto acadêmico sem a universidade, a sala de aula, os alunos e os grupos de pesquisa, o computador, a internet, o financiamento à pesquisa, as revistas acadêmicas, os livros, os pares avaliadores, etc.? Como diz Bruno Latour, “um Boing não voa. O que voa são companhias aéras”. Podemos dizer o mesmo do jornalista ou de nós pesquisadores. Quem faz pesquisa e produz textos não é o gênio solitário, um sujeito (humano) puro, em sua essência genial, mas uma instituição que associa diversos actantes (humanos e não-humanos) – a Universidade! A genialidade de um pesquisador, ou jornalista, ou artista, ou médico, vem da forma como ele entra em associação com outros actantes humanos e não-humanos. A genialidade e originalidade de uma ação não vêm da independência de outros actantes, mas justamente do contrário: das boas associações estabelecidas.

Da mesmo forma, se as mídias sociais foram apenas “ferramentas”, tente então retirar dos fatos (rastros) produzidos nos eventos revolucionários árabes esses mesmos artefatos (Twitter, Facebook, celulares…) e veja se você ainda consegue ver o fenômeno. Retire as “ferramentas” das matérias escritas, dos programas de TV, das informações na Internet, das discussões no rádio, apague os logs de SMS, os post nos diversos Blogs, as páginas do Facebook, os relatos e informações no Twitter, os vídeos e fotos dos celulares… e veja se você ainda consegue ver as revoluções realizadas no Egito e na Tunísia.

Não preciso insistir, mas é bom lembrar, que isso não quer dizer que os agentes não-humanos agem sozinhos. Acho que essa questão nem mesmo deveria ser colocada, se me fiz compreender nos parágrafos anteriores. Mas é bom repetir:

Não é uma revolução do Twitter, não é uma revolução do Facebook. Não é uma revolução sem Twitter, não é uma revolução sem Facebook. É uma revolução na qual as mídias e redes sociais se constituíram como actantes importantes para a associação que a realizou.

Como vimos, a ação se dá pela associações de diversos mediadores (que não são em essência mediadores, mas que agem em determinado momento como tais) e não a partir de um sujeito ou de um objeto que teriam o monopólio da agência ou uma essência. Deve-se, então, abolir essa falsa separação para que possamos pensar os eventos em sua complexidade, para além da polarização “physis” – “techné”, “sujeito” – “objeto”, “natureza” – “cultura”. Os eventos atuais nos países árabes podem nos ajudar a reconhecer uma “política da composição” para avançar na constituição de uma filosofia dos objetos e de uma sociologia das associações que não coloquem apenas no sujeito humano a primazia da ação. Vejam o que afirma Latour sobre essa política no seu recente Manifesto Composicionista:

“Nature is not a thing, a domain, a realm, an ontological territory. It is (or rather, it was during the short modern parenthesis) a way of organizing the division (what Alfred North Whitehead has called the Bifurcation) between appearances and reality, subjectivity and objectivity, history and immutability. (…) But no doubt that it is a fabulously useful ploy, invented in the seventeenth century, to establish a political epistemology and to decide who will be allowed to talk about what, and which types of beings will remain silent. This was the time of the great political, religious, legal, and epistemological invention of matters of fact, embedded in a res extensa devoid of any meaning, except that of being the ultimate reality, made of fully silent entities that were yet able, through the mysterious intervention of Science (capital S) to “speak by themselves” (but without the mediation of science, small s, and scientists—also small s!).

(…) This is why rationalists never detect the contradiction between what they say about the continuity of causes and consequences and what they witness—namely the discontinuity, invention, supplementarity, creativity (“creativity is the ultimate” as Whitehead said) between associations of mediators. They simply transform this discrepancy (which would make their worldview untenable) into a radical divide between human subjects and nonhuman objects. (…) Compositionists, however, cannot rely on such a solution. The continuity of all agents in space and time is not given to them as it was to naturalists: they have to compose it, slowly and progressively. And, moreover, to compose it from discontinuous pieces. Not only because human destiny (microcosm) and nonhuman destiny (macrocosm) are now entangled for everyone to see (contrary to the strange dream of Bifurcation), but for a much deeper reason on which the capture of the creativity of all agencies depends: consequences overwhelm their causes, and this overflow has to be respected everywhere, in every domain, in every discipline, and for every type of entity. It is no longer possible to build the cage of nature—and indeed it has never been possible to live in this cage. This is, after all, what is meant by the eikos of ecology.”

Para finalizar, acabo de ver a matéria do NYT com o sugestivo título, “Cellphones Become the World’s Eyes and Ears on Protests”, onde podemos ler:

For some of the protesters facing Bahrain’s heavily armed security forces in and around Pearl Square in Manama, the most powerful weapon against shotguns and tear gas has been the tiny camera inside their cellphones.” “(…) A novelty less than a decade ago, the cellphone camera has become a vital tool to document the government response to the unrest that has spread through the Middle East and North Africa. (..) Recognizing the power of such documentation, human rights groups have published guides and provided training on how to use cellphone cameras effectively.”

Para maior aprofundamento:

Latour, B. Reassambling the social. An Introduction to Actor-Network Theory., Oxford, Oxford University Press, 2005.

Latour, B., An attempt at writing a “Compositionist Manifesto”., in http://www.bruno-latour.fr/articles/article/120-COMPO-MANIFESTO.pdf

Latour, B., Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: ed. 34., 1994.

Harman, G., The Prince of Networks. Bruno Latour and Metaphysics. 2009.

Whitehead, A., Process and Reality., NY, Free Press, 1978.