Memória Soteropolitana

Memórias Soteropolitanas
Foto exemplo do Aplicativo Memórias Soteropolitanas no Farol da Barra em Salvador

A realidade aumentada tem sido um tema de discussão no nosso Lab 404. Escrevi um artigo sobre o tema (no prelo e deve ser publicado ainda esse ano no Centro Nacional de las Artes, da Cidade do México), no qual exploro a relação entre narrativas e sistemas de RA fazendo um crítica. Chamei esses sistemas de “realidade diminuída”. Mas nem todos os sistemas de RA são assim.

Hoje fiquei orgulhoso pela apresentação do projeto de conclusão de curso da minha ex-bolsista PIBIC, Camila Queiroz, “Memória Soteropolitana: resgatando a memória de Salvador através de realidade aumentada”. Nesse projeto, Camila busca resgatar sentidos dos lugares da cidade ao tensionar, pela fotografia, a experiência temporal. Ela fala de turismo no seu memorial, mas trata-se de algo muito maior. O projeto permite a qualquer um próximo a um determinado local, ver fotos desse mesmo lugar no passado. A cidade (essa, mas todas, não é mesmo?) precisa de experiências dessa ordem. Não só turistas, mas seus moradores precisam resgatar a memória e se apropriarem dos recursos dessas novas mídias. Projetos dessa natureza teriam assim funções pedagógica (aprender a ler a cidade), social (interesse pelo o que nos associa), técnica (inclusão digital) e política (importância e valorização do espaço e do tempo urbanos). Memória Soteropolitana propõe resgatar um pouco das dimensões espacial e temporal das cidade, estimulando o interesse pelos espaços públicos, aumentando o “sense of place” (tema caro às pesquisas do Lab 404).

Camila não tinha conhecimentos de programação, não precisou de muitos recursos técnicos ou financeiros. Ela mostrou, com seu trabalho, algo da filosofia do DIY (faça você mesmo), apresentando um produto simples e eficiente com uso das mídias locativas. Fica como exemplo. Para ver como funciona, clique na aba instruções no site do projeto. Para fruir a experiência você precisa de um smarphone, com 3G, GPS e bússola e o browser Layar. O projeto é experimental e foi aprovado hoje em banca de TCC na Facom/UFBA. Espero que ele possa estimular novos empreendimentos similares que fujam do apenas eficiente, objetivo ou comercial.

Desocupa Salvador

A indignação é geral e há muito o que fazer. As caixas pretas estão abertas. Venha dizer, com criatividade, alegria e força um não ao caos urbano da nossa cidade. Movimento Desocupa Salvador, pela recuperação da cidadania e do espaço públio. Manifestação pacífica e artística, dia 14/01, próximo sábado em Ondina.

Caixa Preta Soteropolitana

Estamos em crise com a cidade da Bahia!

Converso com as pessoas e todas estão espantadas com o atual estado da cidade. Um simulacro de cidade, parecendo ser governada, parecendo ser habitada, mas que no fundo é uma agregação de coisas e pessoas que só se mantêm e sobrevivem do improviso, do individualismo e do esquecimento (“ah, deixa prá lá!”).

Não se vai mais à praia, já que não temos mais barracas (sim, precisavam ser padronizadas, limpas, controladas, mas devem existir e fazem parte da praia no nordeste. Mas até agora, nada ainda foi feito), os pontos turísticos estão entregues ao tempo e ao abandono. O Pelourinho está nesse estado há anos (pedintes, crack, ladrões…). O que as pessoas com quem eu conversei fazem agora é ficar em casa, visitar amigos, ou ir pateticamente, ao shopping. Levo meu filho nas praças públicas, mas elas são, com algumas exceções, um lixo, literalmente. Triste cidade da Bahia.

É unanime: a cidade está abandonada, sem inteligência política ou mesmo cultural. Uma lástima por todos os lados: transito caótico, instituições falidas, violência bandida e cidadã, deselegância e falta de educação básica, caos na saúde, na limpeza, no transporte público…enfim, tudo o que uma metrópole tem de ruim, sem ter o que elas (as metrópoles) têm de bom: civilidade, equipamentos de qualidade, bons programas culturais, inteligensia, bons e agradáveis lugares para se visitar, baratos e para todos. Nada disso encontramos em Salvador.

Tenho trabalhado com a Teoria Ator-Rede e um dos conceitos fundamentais é o de caixa-preta. Caixa-preta é um “conjunto” tão estável e bem resolvido que nos relacionamos com ele e não prestamos muita atenção. Ele desaparece em um fundo quando tudo está bem. Por exemplo, se o seu computador está ok agora, você nem pensa nele e pode continuar e ler o meu post. Mas se começar a travar, a desligar ou incomodar de alguma outra forma a sua leitura, você começa a pensar nele, a buscar saber de onde vem o defeito, quais seriam as causas. Você vai prestar atenção (ele sai do fundo) e tentar, aos poucos, resolver o problema. A caixa-preta se abre e revela os seus segredos: os problemas técnicos, de projeto, de design, de interface, de regulação, de política, de mão de obra etc.

O objetivo da teoria ator-rede é abrir as caixas-pretas do social por meio de controvérsias. Só assim o social pode aparecer, enquanto rastro das diversas associações entre humanos e não-humanos. Ao cientista social cabe fomentar controvérsias e abrir caixas-pretas. Elas não são apenas “coisas”. Um conceito estabilizado, por exemplo, é uma caixa-preta. Um estereótipo é uma caixa-preta.

Quando não conseguimos abrir a caixa preta, ela é tida como a realidade. A realidade é um enunciado difícil de derrubar, vai dizer Bruno Latour. Precisamos abrir caixas-pretas para ampliar a nossa noção de realidade, a nossa vivência nela, ou simplesmente questionar o que pensamos sobre ela. Assim, se digo que o brasileiro é um “homem cordial” ou que Salvador é uma “cidade da alegria”, para muitos isso tem um efeito de realidade. É inquestionável. Mas, para os chatos e implicantes, deve-se sempre abrir essas caixas-pretas e revelar o que está por trás (ideologicamente, politicamente, socialmente, culturalmente, tecnicamente…). Só assim poderemos, por exemplo, conhecer melhor o que se entende por Brasil ou por Bahia.

Devemos fazer isso em Salvador para compreender melhor os seus problemas. Mas o nosso problema aqui (em Salvador, mas seria também no Brasil?) é que não há mais caixas-pretas. Tudo está aberto, escancarado, revelando de forma tão visível, límpida e até mesmo pornográfica, as entranhas complexas (sociais, econômicas, políticas, técnicas, culturais…) dos seus problemas.

A violência no dia a dia abre a caixa-preta dos que vivem achando que aqui todo mundo é de Oxum, de paz e de alegria, ou dos que vivem em seus carrões blindados e/ou em condomínios de luxo fechados, achando que tudo só acontece lá na periferia. A caixa-preta abriu, revelando que todos estão vulneráveis, que a polícia é incompetente e a política pública de segurança ineficaz. A chuva que cai agora em Salvador, como todas as outras, abre o asfalto, entope os esgotos, desliza as casas nas encostas, apaga os semáforos…As caixas-pretas estão todas abertinhas, e só não vê quem não quer: péssimas condições das obras viárias, da habitação e de sua política, do transporte público, dos equipamentos e da infraestrutura de energia elétrica…

A cada chuva os semáforos se apagam e a caixinha abre: problemas técnicos, de licitação dos equipamentos, de infraestrutura urbana, de suporte e manutenção elétrica, de ineficácia dos orgãos responsáveis, de descaso e desorganização…O metrô é a piada pronta de sempre (lento, lento, como tudo na Bahia, dizem!). Os seus intermináveis 6 km (ah!) não ficam prontos, mas não há segredo. Todos já vimos essa caixa-preta aberta: corrupção, incompetência, descaso com a coisa pública e mais corrupção e rios de dinheiro. As estradas, como a BR 324 agora no trecho SSA-Feira de Santana, por exemplo, foram privatizadas e o pedágio cobra com uma eficiência robótica, mas os buracos e as péssimas condições continuam. Precisa abrir a caixa-preta? O Ferry Boat, desde a sua privatização, insiste em fazer os usuários de bobo e as mazelas são todas conhecidas (incompetência, impunidade, descaso político…).

Precisamos abrir as caixas-pretas? Claro que não. Elas estão escancaradas. Todos sabemos o que ocorre: péssimas licitações, falta de seriedade e de respeito, ganância, descontrole e falta de fiscalização do Estado…Aqui tudo é muito óbvio. As caixas-pretas vão se abrindo sozinhas. Nem precisamos nos esforçar muito para ver as coisas. Está tudo aí, visível: a precariedade da infraestrutura da cidade, a inapetência e incompetência dos gestores, o descaso burro e míope das elites, a ignorância e mal educação das pessoas na rua, o descaso com o outro e com a coisa pública no dia a dia (que é um sintoma do “dane-se, vou cuidar do meu”). Ninguém pode dizer que as caixas-pretas estão fechadas. Sabemos de tudo e conseguimos ver tudo a cada pequeno problema (as caixinhas se abrem todas, facilmente, a cada nova chuva, a cada novo jogo em Pituaçu, a cada festa de largo, ou na casa do vizinho, a cada ida ao Pelourinho para mostrar à tia que chegou de São Paulo…).

E isso é o que mais me assusta. Se abrir caixas-pretas é condição fundamental para alterar a realidade, para questionar os enunciados estabilizados, o que estamos esperando então? Se nada acontece por aqui, quando todas as caixas pretas estão abertas e não temos a desculpa de dizer que não estamos vendo, como poderemos ter esperança em alguma mudança? Um salvador ou um herói aparecerá na próxima eleição? Ora, já abrimos essa caixa-preta também!

Não há mais caixa-preta, ninguém acredita em mais nada, a realidade está em aberto, mas ninguém sabe o que fazer. Tudo está sendo questionado, tudo está escancarado, mas ninguém tem a menor ideia em como construir o presente. A barbárie está batendo nas nossas portas.

Que a esperança, sempre pendurada na caixa de Pandora, nos salve!

PS. Como sempre, falo de onde estou, mas tenho certeza que isso se aplica também a quase todas (se não todas) as capitais do Brasil. Olhe ao redor e tente abrir as suas caixas-pretas, se é que elas já não estão também escancaradas em suas cidades!