Category: locativa media

BlockChalk – Twitter Urbano?

By André, 10/03/2010 8:53 am

Devemos pensar os projetos com mídias locativas a partir dos seus modos de medição. Defendi essa hipótese em recente texto enviado à Compós (texto inédito e ainda em análise). Reproduzo aqui um pequeno trecho para o que me interessa nesse post:

“Modo designa a forma, a maneira como algo se relaciona com o mundo, as formas de interação e comunicação. Pelo modo podemos identificar como determinado conjunto de tecnologias se relaciona com o lugar e como os agentes humanos e não humanos criam processos de significação . Os diferentes modos de mediação nos fornecem possibilidades investigativas sobre os processos de espacialização em jogo. Mediação é o diálogo ou a ação entre os diversos atores onde não há causalidade facilmente identificável. Ela se dá de acordo com os modos, ou seja, ela é uma ação a partir da maneira pela qual se dá o processamento, a troca, o consumo e a produção infocomunicacional local entre os atores. Com as mídias locativas, a espacialização se dá pelos modos de mediação, pelas formas de ação entre agentes (humanos, artefatos, lugares) a fim de oferecer serviços (navegação, localização, etiquetagem, mapeamento, redes sociais, jogo, acesso, etc.). A mediação deve ser vista aqui como entendimento da ação dos agentes interferindo na percepção e uso do espaço e na ressignificação do mesmo. Os modos de mediação implicam em formas materiais específicas e abertas entre os sujeitos (humanos e artefatos). É a relação (social e moral) que daí emerge que produz o espaço. Para o estudo das mídias locativas propomos pensar seis modos de mediação. São eles os modos de escuta (sonoro); de escrita (textual); de visibilidade (mapeamento); lúdico (jogo); de acesso (conexão) e; de sociabilidade (rede social). Um projeto com mídia locativa tem vários modos. Por exemplo, projetos de anotações eletrônicas como Yellow Arrow ou GPS Drawing privilegia o modo de escrita. Sonic City , Buenos Aires Sonora e Montreal Sound convocam o modo de escuta. Neighbornode , Peuplade , Barcelona Accessible colocam em ação o modo de visibilidade. Redes sociais móveis como Imity , Dodgeball e Citysense funcionam sob o modo de sociabilidade. Nos jogos Geocaching ou Uncle Roy All Around You é o modo lúdico que se sobressai. Em áreas de acesso Wi-Fi o modo de acesso é evidente. Em todos os projetos, um ou outro modo de mediação locativo também estará em jogo.(…)”.

Post do The Pop-Up City mostra uma nova aplicação, BlockChalk, que se encaixa no que chamo de modos de mediação locativos de escrita e sociabilidade (ver acima). A ferramenta a ser usada em smatphones permite que as pessoas escrevam sobre lugares que frequentam (dicas, sugestões, queixas, avisos, etc) e essas informações ficam disponíveis para outros (seja para uma pessoa específica, seja para qualquer pessoa que use o sistema e passe pelo local). Usando GPS para a localização, BlockChalk, serve como uma ferramenta de escrita e leitura eletrônicas sobre o seu bairro/cidade (daí as palavras “Block” e “Chalk”) permitindo um maior engajamento social, cultural, cívico com o lugar. Vejam a descrição do BlockChalk no The Pop-Up City:

“BlockChalk is a new locative media tool made by former Delicious people Stephen Hood and Dave Baggeroer. BlockChalk is available for different smartphones and meant, according to its makers, to be “the voice of your neighborhood”. BlockChalk essentially enables us to correspond with strangers that are close-by. The GPS-based app enables users to leave notes, or ‘chalks’, about what’s going on at a certain location. Users can then reply to other users’ chalks.”

O post do The Pop Up City, faz uma interessante comparação com o “Notificator”, robô que oferecia o serviço de mensagens públicas de pessoa para pessoa em Londres (ver foto abaixo). Segundo post do Boing Boing, o Notificator é de 1935 e o blog compara o dispositivo ao Twitter.

E embora esse “LBS (location-based service)” fale de “vizinhança”, certamente ele pode se tornar uma verdadeira plataforma para conversação no espaço urbano, como uma especie de “twitter hiperlocal”. O sistema mostra mensagens por proximidade a partir de coordenadas de localização do GPS e não por divisão administrativa dos bairros. Assim, ele pode se tornar uma plataforma de conversação sobre o espaço público expandido. O autor do post do The Pop-Up City diz que há já interessantes interações em NY e Los Angeles.

“Although BlockChalk pretends to be a neighborhood app, the whole idea essentially has nothing to do with neighborhoods. To the contrary, if BlockChalk is to become a huge communication platform (which as always depends on a ‘critical mass’ of users), it will be used to redefine the neighborhood from a static into a flexible concept. (…) BlockChalk will open doors for location-based communication within certain ‘interest groups’ as well as for very temporary messages and calls such as “Who can help starting my car?”.

Vejam vídeo explicativo:

BlockChalk: The Voice of Your Neighborhood from BlockChalk on Vimeo.

Finnegans Wake

By André, 06/03/2010 9:04 pm

Sempre fui fascinado pelo “Finnegans Wake” de Joyce. Até arrisquei uma brincandeira em agosto de 2008, em um concurso de microcontos para o Twitter, quando escrevi, citando uma passagem sobre a queda (“fall”) no início da obra, em 140 caracteres:

“Sonhava, caiu, (bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawnt
oohoohoordenenthurnuk) e no finn acordou.”

Em 1991, quando estava em Paris, passei os olhos na versão original, mas meu inglês não dava nem pro começo. Depois tentei em francês, mas achei também que meu domínio da língua estava aquém da empreitada. Aí fui à versão brasileira, excelente, de Douglas Schuller, de 2001, e li. Li como quem ouve uma música. A versão explica muitas coisas, o que é bom para quem está lendo um livro ilegível. Assim, fui, de página em página como em uma viagem formal, na estrutura e na sonoridade das palavras. É mesmo incrível como as palavras inventadas por Joyce fazem sentido, mesmo sendo colagens de múltiplas línguas. Bizarras misturas que produzem sentido. É uma experiência mística ler a obra. Bom, não li tudo, claro, como acho que a grande maioria dos leitores de Joyce (passei com certa dificuldade por Ulysses, mas fui até o fim!). Na verdade, acho mesmo que ninguém nunca conseguiu ler o livro na íntegra. E isso é mesmo fascinante, um livro ter se tornado um clássico se jamais ter sido lido por uma grande quantidade de pessoas.

Post do Les Républiques des Livres informa que a obra ganha agora uma nova versão, de luxo. Seria um “novo” Finnegans Wake. Como afirma Pierre Assouline, no seu blog,

“Le néo-Finnegans Wake, qui paraît chez Houyhnhnm Press en édition de luxe (1000 exemplaires entre £250 et £750) avant d’être publié l’an prochain en format de poche par Penguin, se veut aussi emblématique du XXIème siècle que Ulysses le fut du XXème. On verra.”

Sim, veremos!

Aqui uma versão online do Finnegans Wake, com palavras comentadas…uma loucura! Abaixo um vídeo com o próprio Joyce lendo a enigmática obra…Música mesmo!

Filtrage du Net

By André, 05/03/2010 9:39 am

Postei agora no Trezentos


Imagem sob CC

Interessante artigo da revista francesa Telerama sobre as lei de filtragem da internet em vários países sob a égida da IWF (Internet watch foudation) e com o pretexto de combater a pedofilia e garantir o copyright. Na América do Sul, o Chile foi o primeiro a adotar. A Autrália é um dos mais nervosos nesse sentido. Vejam a íntegra do cerco global à internet. Trecho:

“En France, sous couvert de lutte contre le téléchargement illégal et contre la pornographie enfantine, deux lois (Hadopi et Loppsi 2) sont venues coup sur coup entamer le principe d’un Internet neutre et autorégulé. Mais qu’en est-il ailleurs ? Des propositions en cours aux lois votées, nous vous proposons un tour du monde des mesures de filtrage et de contrôle des contenus. Second volet : le filtrage de l’accès à Internet.”

Subtlemob

By André, 27/02/2010 11:14 am

Acabo de conhecer o Subtlemob de Duncan Speakman. “As if it were the last time” é arte urbana, meio flash-mob, meio locative-media art, meio cinema sem câmeras, sem ser nenhuma dessas coisas completamente. É uma intervenção urbana sonora onde pessoas baixam MP3 para ouvirem soudtracks e receberem instruções sobre o que fazer em determinado espaço urbano. Elas deslocam-se e desempenham papéis como se estivesem dentro de um filme.

A intervenção mostra o uso de dispositivos midiáticos através de uma relação específica (emocional, afetiva) com o espaço urbano, criando, mesmo que temporariamente, formas de apropriação desse espaço, de ressignificação e de relação corporal e empática com o lugar. Vemos aqui como os sons podem criam ambiências imaginárias para envolver o usuário no espaço real, ao invés de isolá-los em bolhas nesse mesmo espaço, como usualmente pensa-se dos tocadores de MP3. Veja a esse propósito comentários que fiz em 2008 sobre o uso do iPod e a criação de uma relação específica com o lugar. Ver também os trabalhos de Michael Bull sobre esse tema.

Abaixo depoimento e vídeo sobre a experiência. Prestem atenção nos depoimentos e na sensação das pessoas. Muito interessante.

“When you put on the headphones you’ll find yourself immersed in the cinema of everyday life. As the soundtrack swells people in the crowd around you will begin to re-enact the England of today. Sometimes you’ll just be drifting and watching, but sometimes you’ll be following instructions or creating the scenes yourself. Don’t worry, there will be nothing illegal or embarrassing, sometimes you might be re-enacting moments you’ve seen in films, sometimes you’ll just be playing yourself. This is no requiem, this a celebratory slow dance, a chance to savour the world you live in, and to see it with fresh eyes.”

Luzinterruptus

By André, 26/02/2010 10:32 pm

Escrevia agora sobre o destino dos livros na era do digital e acabo de ver no Twitter (via @lucatoledo) essa instalação com livros invadindo as ruas de NY. Uma espécie de resistência poética do Códex ao ritmo acelerado da metrópole. Mais sobre a instalação Luzinterruptus aqui.

Chatroulette, o filme

By André, 26/02/2010 8:20 am

Postei recentemente um comentário sobre o Chatroulette (ver aqui). Agora, um filme de 6 minutos de Casey Neistat, além de ser bem didático, mostra um pouco o que escrevia no meu comentário (jogo, acaso, apresentação de si, dificuldade em estabelecer contato, ser “nexted” pela imagem, teletransporte para qualquer lugar do mundo, etc.).

Vejam o vídeo abaixo (via Brainstorm 9 e twitter @digital_cultura):

chat roulette from Casey Neistat on Vimeo.

Censura ao Twitter?

By André, 25/02/2010 11:12 am

Replico aqui o meu post no Trezentos sobre a tentativa de coibir o uso do Twitter pelo governador Jacques Wagner.

Circulou uma discussão no Twitter e quero esclarecer que não faço aqui uma defesa pertidária, mas sim pela liberdade de expressão no ciberespaço e pelo reconhecimento da diferença entre as mídias “pós-massivas” e as tradicionais, de massa, concessão do Estado.

Abaixo o post no Trezentos:

“Censura na Bahia ao Twitter do Governador!

A pedido do PMDB, do ministro Geddel Vieira Lima, candidato ao governo baiano nas próximas eleições, a Procuradoria Regional Eleitoral da Bahia (PRE-BA) quer suspender a conta do Twitter do governador Jacques Wagner (http://twitter.com/imprensawagner) alegando que o mesmo está fazendo campanha eleitoral antes da hora. A questão é grave, não apenas contra a democracia na Bahia, mas no Brasil como um todo.

Devemos entender essas ferramentas como instrumentos conversacionais, não massivos e como tais devem permanecer livres. O problema é que ainda se pensa nas ferramentas pós-massivas, como blogs ou twitter, como mídias de massa, instrumentos de comunicação por concessão pública e controlados por grande empresas donas desse mesmo conteúdo (quem vê a Globo não sabe que está havendo uma Olimpíada de inverno. Não há informação já que emissora concorrente cobre o evento. Não há fato, notícia, só jogo do capital).

Devemos ficar atentos. Já há movimentos no twitter (#defendoJaquesWagner), mas o precedente é grave. Não deixar um governo usar o Twitter me parece algo totalmente estapafúrdio!”

Chatroulette

By André, 21/02/2010 11:58 am

No domingo é sempre bom começar ouvindo Mozart!

“La place qui est faite à la connaissance de soi-même devient plus importante : la tâche de s’éprouver, de s’examiner, de se contrôler dans une série d’exercices bien définis place la question de la vérité – de la vérité de ce que l’on est et de ce qu’on est capable de faire – au cœur de la constitution du sujet moral”, Foucault, Histoire de la sexualité, Le Souci de soi (1984).

Ontem estava na praia e conversava com um amiga epidemiologista sobre uma pesquisa que ela está desenvolvendo no Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto na UFBA) para aviliar 15 mil pessoas no período de 20 a 30 anos. Ela me dizia que os voluntários têm que ficar 4 horas fazendo exames, regularmente, e que em lugares como o Rio as pessoas não conseguiam ficar esse tempo e tinham que parar para “tomar um café e fumar um cigarro”. Eu disse que entendia, já que, mesmo sendo voluntários, não é muito relaxante ter “o capô do corpo aberto” como falou um dos voluntários. Ser avaliado por médicos com exames é sempre algo que preocupa e incomoda. Assim, entendia que as pessoas quisessem um “break”. Ela me disse então que esse era um comportamento tipicamente masculino (medo de exames, breaks, etc) já que as mulheres aceitavam mais serem escaneadas pela ratio médica. Concordei mas não podia deixar de pensar em Foucault, no “souci de soi” e em como hoje a medicina toma o corpo como um terreno de explorações visando o “bem” desse sujeito que não é mais dono de si e sim refém desse novo (moderno) discurso médico-científico. Me veio à mente também o Foucault de “as palavras e as coisas” (a epísteme, a mudança dos discursos e sua relação com a “verdade” ao longo do tempo, etc).


Photo, @NYT

Bom, retomo essa papo praieiro pois acabo de conhecer, via artigo do NYT, “The Surreal World of Chatroulette“, o sistema de chat aleatório por webcam, Chatroulette e acho que ele tem tudo a ver com esse “souci de soi”, com essa autoexposição de si nas novas formas de sociabilidade e na elaboração de um novo discurso sobre o “sujeito”. Assim como blogs, Facebook, Orkut ou Twitter, o Chatroulette é mais um instrumento de mídia social online que coloca em evidência o jogo contemporâneo do mostrar e esconder, do privado e público, do anonimato e da exposição. Aqui voltamos a Foucault no questionamento do discurso moderno e sua epísteme que institui esse sujeito que se mostra agora mediado por artefatos comunicacionais, interagindo à distância e fora de todo contexto no qual ele está inserido. Voltamos à questão do “souci de soi”, do cuidado e das formas de apresentação de si contemporâneos.

Como os diversos fenômenos da cibercultura, Chatroullete foi criado por um jovem de 17 anos, russo, Andrey Ternovskiy. Relações mediadas por webcams não são novas. A novidade do Chatroulette é que as relações são agora instituídas no jogo do contato aleatório, instantâneo e inesperado, como em uma roleta russa, mas sem a dimensão trágica dessa. O sistema te leva (como um teletransporte) a encontrar pessoas via webcam, e não precisa de instalação de softwares, já que funciona diretamente via web. O usuário entra no sistema e clica “play” (interessante aqui como o início da ação é logo etiquetado como “jogar”, ou “brincar”). Ao apertar “play”, o usuário é conectado aleatoriamente à uma webcam e a sua própria é acionada. Como afirma a matéria do NYT, “It’s very strange, and not just because you are parachuting into someone else’s life (and they yours), a kind of invited crasher.” Diferente do Facebook, Twitter ou Orkut, não é preciso revelar a identidade ou fazer qualquer registro, embora você apareça “em carne e osso”.

“Brinquei” um pouco no sistema e passei por várias pessoas que rapidamente apertavam em “next” (ou seja, você vai para uma outra webcam). Em um primeiro momento foi difícil falar com alguém. Depois, conversei rapidamente com um oriental que acenou para o Bernardo. Perguntei de onde ele era mas ele passou para o “next”. O erotismo está bem presente. Vi câmeras como pessoas segurando cartazes pedindo para mostrar partes íntimas, algumas insinuando masturbação e um casal se pegando…Mas encontrei pessoas que ficavam me olhando (e eu para elas – muito estranho), sem dizer nada. É uma relação face a face onde o que se apresenta tem um efeito imediato. Como no “face a face” não mediado no qual ao vermos alguém, ou se vai com a cara ou levamos o olhar para outro lugar, desviando-o. Aqui clica-se em “next”. Fui com a cara, fico. Não fui (adolescentes rindo olhando pra câmera, por exemplo), clico logo em “next”. Interagi com uma pessoa que estava ouvindo música bem alta. Do meu lado comecei a balançar a cabeça e ela também. Depois de alguns segundos estávamos “dançando juntos”. Depois me deparei com essa webcam (imagem abaixo) onde não havia ninguém (visível). Era como se estivesse caindo pingos luminosos sobre essa silueta. Efeito na imagem. Bom, coloquei a minha câmera para a janela (um céu azul belíssimo lá fora) e as duas webcams ficaram assim por algum tempo até que eu decidir ir embora. “Next”.

Interessante o clique rápido, interessante a interação desconfiada, interessante o tempo morto, sem nada acontecer, apenas olhares ou câmeras ligadas uma na outra. Interessante a espera para ver o que vai aparecer do outro lado da tela…

Como aponta a matéria do NYT, não será surpresa se o sistema acabar em meses, ou virar apenas mais um lugar para a pornografia e idiotices juvenis. No entanto, achei muito interessante o sistema aleatório de chats pelas webcams, a sensação de teletransporte para outros lugares do mundo através das câmeras de outras pessoas, a sensação de estar entrando em uma zona privada de forma anônima e sem complicações técnicas. Fiquei pensando em futuras apropriações do sistema que irão propor ações criativas e políticas para além do simples chat com estranhos: ações políticas, ativismo cultural, jogos, arte eletrônica… Mais uma vez, no amplo repertório da cibercultura, uma simples ideia pode criar um amplo efeito social. Em era do individualismo em crise, essas relações sociais banais implicam efetivamente em contato social, em construção de uma imagem de si (como a pessoa aparece ou não na webcam, como a câmera do computador é posicionada, etc.), na busca ao outro (e a si mesmo, no fundo), na saída de si nessa tactilidade social mesmo sob o signo do jogo ou da brincadeira. Um fenômeno que se junta a outros para pensar a subjetividade atual.

Como escrevi em um dos primeiros artigos sobre webcam e blogs no Brasil, “A Arte da Vida. Diários Pessoais e Webcams na Internet” (Cultura da Rede. Revista Comunicação e Linguagem, Lisboa, 2002):

“As tecnologias digitais têm impacto na estrutura cognitiva do indivíduo, como todas as tecnologias de comunicação (…) podemos afirmar que os indivíduos constroem suas realidades sociais, onde cada pessoa percebe, interpreta e define informação, objetos ou outros indivíduos a partir de sua própria visão da realidade. (…) O “Other” “é a entidade que o indivíduo constrói que leva em conta as atitudes gerais dos grupos sociais e da sociedade” (Mead, 1934:155). Através deste outro genérico, um indivíduo pode construir expectativas sobre o que os indivíduos irão pensar das várias e diversas situações sociais. É o que caracteriza a prática das webcams e dos ciberdiários. Os fenômenos das webcams e dos diários pessoais podem ser considerados com formas de escrita de si, já que tanto na construção da imagem através de câmeras pessoais, como nos fenômenos de publicização de diários íntimos, o que está em jogo são formas de apresentação do eu no ciberpespaço.(…)”

Affaire à suivre!

Carnaval 2002!

By André, 10/02/2010 8:58 am

Escrevi esse texto em fevereiro de 2002, após o Carnaval (ele foi publicado no jornal Província da Bahia). Acho que continua atual. O carnaval aqui no Brasil, desculpem os antropólogos, não inverte nada, não sublima nada. Ele apenas teatraliza a vida de todo o dia. E isso não é necessariamente bom ou ruim: A vida de todo dia, o carnaval. Falo de Salvador, mas isso vale para todo o Brasil.

Carvanal

André Lemos

Fim de carnaval e a vida começa a retomar a normalidade. A cidade pára. Falam de TAZ, de reversibilidade do quotidiano e todos têm um pouco de razão. Trata-se, evidentemente, de uma zona de autonomia temporária e de uma quebra nos papéis rígidos quotidianos. Mas também há exageros, já que nem tudo muda realmente e uma nova ordem se instala no caos. Na realidade, aqui em Salvador, só confirmamos a norma e a organicidade da sociedade (e isso não é necessariamente nefasto.)

Primeiro, há a ordem sócio-policial que tenta administrar a bagunça: fecha ruas, cria espaços alternativos, organiza a circulação de trios e blocos, monta centros médicos… O sistema estabiliza na crescente entropia da festa.

Segundo, a ordem psicossocial, em sua maioria, não é tão drasticamente invertida. Na realidade acho que não há inversão nenhuma. Quem conhece e mora em Salvador sabe que as pessoas não são tão diferentes assim no seu dia a dia. Aqui o cliche funciona: o carnaval é uma forma de vida (e isso não é necessariamente bom…).

Parece que o carnaval apenas deixa que elas extravasem, sem culpa e sem muita vergonha, o que elas são sempre, em maior ou menor grau. O excesso de espaço (simbólica e fisicamente falando), o excesso de alegria (com simpatia e também super-simpatia que vira melancolia), o excesso de fé e misticismo (que deixa um ar zen e complacente, sem ser a tão propalada preguiça) são exemplos da vida em Salvador antes e depois do carnaval.

Assim é o carnaval em Salvador (e só falo desse lugar), ao mesmo tempo deregramento mas também confirmação do que se é, consagração da norma e do instituído. Salvador é tão bizarra que ela escapa da visão hegemônica do carnaval. E escapa estranhamente, já que não é inversão do dia a dia ou desordem, como muitos afirmam ser o carnaval, mas confirmação do dia a dia como carnavalização. Não é catarse da dor do dia a dia já que parece não haver dor. Não é dor acumulada e espelida como vômito festivo, mas a própria vida em sua celebração plena.

Se não há dor, se não há tristeza… Assim, só cabe celebrar o que se é (e não falo sem saber das mazelas da sociedade soteropolitana, mas de uma forma de ser, de um imaginário social que constrói a vida local e coletiva). Não há inversão nem quebra da ordem se não há do que se desvencilhar. Não há, tampouco, do que se entristecer ou deprimir, já que a alegria é um dever ser aqui. A alegria, essa insuportável alegria que nos joga na ineficiente e, às vezes, dura necessidade da simpatia incondicional.

A existência carnavalizada de Salvador só veste sua própria máscara no carnaval, capitalizada por políticos, marketeiros, líderes comunitários, músicos e outros artistas, professores universitários, vendedores de cerveja e de acarajé que reivindicam e gozam, todos, na tal baianidade (que não é da Bahia mas de Salvador).

Parece que a existência carnavalizada, tipica do quotidiano baiano, só é, por assim dizer, tranformada em uma espécie de carnavalização da existência (e isso não é bom, nem mau). Nesses dias de folia, Salvador é o que é sempre, só que parodizada, exagerada, “purpurinada” e “vitaminada”.

Mas a festa acabou. A carnavalização da existência se foi e a existência carnavalizada apenas recomeça, para o melhor ou o pior.

Férias

By André, 01/02/2010 7:37 pm

Estou de férias até o dia 06 de fevereiro. Novos posts em fevereiro, incluindo aí o Reviravolta (@re_vira_volta no Twitter).

Até breve!

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