Malabarista

Em um documentrio sobre a sua obra, o artista brasileiro Cildo Meireles l em um livro (no sei qual, nem de quem escreveu o texto) algo mais ou menos assim (anotei rapidamente assistindo o vdeo na TV):

“O malabarista lida com territrios. aquele que encrontra lugar para trs coisas em um espao para duas. Ele faz do tempo um espao. Ele tem que introduzir o tempo no seu territrio”.

O espaco produzido pela troca de lugar das coisas, sendo uma das dimenses a do tempo, que o cria. Trocar os mveis da sala de lugar e assim “criar espaos”. O espao o que se produz da relaes entre as coisas e os seus respectivos lugares. No aquilo que contm as coisas. O espao movimento e no o esttico reservatrio. O espao uma rede, dinmica, sempre se fazendo, produzido por relaes no tempo e no movimento. Diz Heidegger: “Une espace (Raum) est quelque chose qui est ‘menag’ (…) il est menag par des lieux…” (Essais et confrences, Gallimard, 1958, p. 186).

A ao do malabarista me parece uma ilustrao bem interessante das conexes e relaes dos objetos no espao e pode nos ajudar a pensar as conexes de no-objetos (?) em espaos eletrnicos. Na ao do malabarismo, o espao criado pela troca de lugar dos objetos no tempo (vejam o esforo fsico realizado pelo corpo do malabarista nessa produo), na movimentao dos objetos passando de um lugar a outro (o repouso nas mos, o voo das bolinhas, o tempo produzindo no deslocamento, criando o espao antes de chegar ao outro lugar). Por isso o malabareista um produtor de territorialidades, por controlar os lugares, o tempo e o movimento na produo desse espao. Terririo controle da espacializao. A tenso gerada (para quem assiste) na ao do malabarista vem justamente da possibilidade da quebra da relao espacial cujo controle est nas mos (e nos espaos entre elas) do malabarista. A quebra da harmonia a perda de controle e a desterritorializao. Ela se d pela queda dos objetos. Essa queda tambm produz espao, mas um outro espao, agora no mais no controlado pelo artista. O fracasso do malabraista a perda do seu controle sobre o territrio criado. na troca de lugares, no tempo e no movimento que abrigam o terceiro elemento (a bola), que produzido, em sua dinmica, o espao controlado do malabarista. O espao, o lugar, o tempo e o movimento so os produtores de sua realidade. O movimento assim uma quinta dimenso do espao (x, y, z, tempo e movimento). O espao esse emaranhado de ligaes invisveis, de redes que desaparecem nos movimentos dos fios pouco perceptveis que se fazem e se desfazem nos movimentos das coisas no ar. Ele no o que contm. Ele o que gerado. O espao se faz e se desfaz a cada movimento, na troca dos objetos de lugares no tempo.

O espao do ciberespao esse espaamento produzido pelos lugares, coisas, pessoas e objetos conectados ao redor do planeta. Por isso est sempre em construo, sempre em expanso. A internet das coisas (a internet sempre foi das coisas, no mesmo?) vai produzindo espacializao na relao dos lugares e nas movimentaes pelas conexes de tudo e todos. Se a internet pudesse ser representada por um personagem, talvez ela pudesse ser vista como um malabraista de dados, jogando de uma lado para o outro avatares, dados, mquinas, em um espao de controle que se faz e se desfaz nesse movimento no tempo (real?). nesse malabarismo que se faz, a cada momento, o “ciberespao”.

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