(Des) território Informacional – “Border Bumping”

Tenho desenvolvido o conceito de território informacional há algum tempo e nesse momento mesmo tento finalizar um livro sobre esse tema (espacialização e mídias de geolocalização). Para mais sobre o assunto ver alguns dos meus artigos aqui, aqui e aqui.

O projeto “Border Bumping” (criado por Julian Oliver) me parece bem interessante para comprovar mais uma vez a existência desses territórios informacionais. Rapidamente, por território informacional entendo camadas de controle informacional (eletrônico-digital) em forte relação com o lugar. Este é fruto não de uma fixação, mas de mobilidade de fluxos territorializantes e desterritorializantes. Um lugar é, seja ele qual for, caracterizado por controle de fronteiras, territórios (culturais, subjetivos, pessoais, legais, geográficos e informacionais). Essa última dimensão, a informacional, tem se tornado muito importante com o desenvolvimento das redes telemáticas e reconfigurado práticas (sociais, culturais, econômicas…) nos espaços urbanos das grandes cidade. Veja recente artigo aqui mostrando como “Space Counts: Why Physical Flows Matter in an Increasingly Virtual World”.

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Malabarista

Em um documentário sobre a sua obra, o artista brasileiro Cildo Meireles lê em um livro (não sei qual, nem de quem escreveu o texto) algo mais ou menos assim (anotei rapidamente assistindo o vídeo na TV):

“O malabarista lida com territórios. É aquele que encrontra lugar para três coisas em um espaço para duas. Ele faz do tempo um espaço. Ele tem que introduzir o tempo no seu território”.

O espaco é produzido pela troca de lugar das coisas, sendo uma das dimensões a do tempo, que o cria. Trocar os móveis da sala de lugar e assim “criar espaços”. O espaço é o que se produz da relações entre as coisas e os seus respectivos lugares. Não é aquilo que contém as coisas. O espaço é movimento e não o estático reservatório. O espaço é uma rede, dinâmica, sempre se fazendo, produzido por relações no tempo e no movimento. Diz Heidegger: “Une espace (Raum) est quelque chose qui est ‘menagé’ (…) il est menagé par des lieux…” (Essais et conférences, Gallimard, 1958, p. 186).

A ação do malabarista me parece uma ilustração bem interessante das conexões e relações dos objetos no espaço e pode nos ajudar a pensar as conexões de não-objetos (?) em espaços eletrônicos. Na ação do malabarismo, o espaço é criado pela troca de lugar dos objetos no tempo (vejam o esforço físico realizado pelo corpo do malabarista nessa produção), na movimentação dos objetos passando de um lugar a outro (o repouso nas mãos, o voo das bolinhas, o tempo produzindo no deslocamento, criando o espaço antes de chegar ao outro lugar). Por isso o malabareista é um produtor de territorialidades, por controlar os lugares, o tempo e o movimento na produção desse espaço. Terriório é controle da espacialização. A tensão gerada (para quem assiste) na ação do malabarista vem justamente da possibilidade da quebra da relação espacial cujo controle está nas mãos (e nos espaços entre elas) do malabarista. A quebra da harmonia é a perda de controle e a desterritorialização. Ela se dá pela queda dos objetos. Essa queda também produz espaço, mas um outro espaço, agora não mais não controlado pelo artista. O fracasso do malabraista é a perda do seu controle sobre o território criado. É na troca de lugares, no tempo e no movimento que abrigam o terceiro elemento (a bola), que é produzido, em sua dinâmica, o espaço controlado do malabarista. O espaço, o lugar, o tempo e o movimento são os produtores de sua realidade. O movimento é assim uma quinta dimensão do espaço (x, y, z, tempo e movimento). O espaço é esse emaranhado de ligações invisíveis, de redes que desaparecem nos movimentos dos fios pouco perceptíveis que se fazem e se desfazem nos movimentos das coisas no ar. Ele não é o que contém. Ele é o que é gerado. O espaço se faz e se desfaz a cada movimento, na troca dos objetos de lugares no tempo.

O espaço do ciberespaço é esse espaçamento produzido pelos lugares, coisas, pessoas e objetos conectados ao redor do planeta. Por isso está sempre em construção, sempre em expansão. A internet das coisas (a internet sempre foi das coisas, não é mesmo?) vai produzindo espacialização na relação dos lugares e nas movimentações pelas conexões de tudo e todos. Se a internet pudesse ser representada por um personagem, talvez ela pudesse ser vista como um malabraista de dados, jogando de uma lado para o outro avatares, dados, máquinas, em um espaço de controle que se faz e se desfaz nesse movimento no tempo (real?). É nesse malabarismo que se faz, a cada momento, o “ciberespaço”.