Feliz Aniversrio, chefe!

A Florista

Vestiu uma roupa branca para enfrentar o sol. O tempo estava nublado, o mormao era grande. Colocou a roupa de forma automtica, mas depois, j no carro, pensou que o branco combinaria mesmo com o ambiente. Mas isso foi depois e, de forma nenhuma, o branco fora intencional.

O trnsito estava infernal. A cidade, catica e sem organizao, um simulacro que finge ter comando e ordem, mas que puro improviso, estava com os semforos sem sincronia e com alguns apagados por causa das fortes chuvas que caram nos dias anteriores. Tudo muito precrio. Ao sair de casa, foi bruscamente bloqueado por outros carros. Pensou em desistir, mas no podia. Hoje era o dia que ainda no era o dia, mas que tinha que ser o dia. Tinha que ser nesse dia.

O aniversrio seria dois dias depois, e como iria viajar, no poderia passar no dia exato para ver o que no mais pode ser visto.

Contornou os entraves do trnsito, pegou rotas alternativas e foi deslizando entre um carro e outro at chegar ao seu destino. Ao sair do carro, viu que a roupa branca era mesmo uma ddiva: um calor mido invadiu seu corpo como uma labareda. O branco amenizava o calor e lhe dava uma certa leveza. Sentia-se bem, mesmo com a alta temperatura e a luminosidade. Subiu as escadas e entrou no cemitrio.

Ia andando de forma automtica, meio anestesiado. Brilhava por entre as alamedas, refletindo todo o sol e refratando parte do calor.

Pensava na ltima vez que tinha passado por aquelas tumbas, em um momento de extrema tristeza, com Agnes ao seu lado, segurando a sua mo e conversando sobre a beleza das lpides e esculturas.

Lembrou que outra Agnes, a sua av, tambm estava naquele cemitrio, assim como Nair, a tia querida, que tinha sido a sua preferida na infncia. Ambas tinham ali as suas moradas perptuas. Pensou em Agnes, a av, mas, mais particularmente e intensamente, em Nair. No sabia o motivo.

Pensava em como ela tinha sido uma boa tia quando ele era criana, dos momentos que viveram juntos, mesmo estando em cidades diferentes, nas balas e bombons que ela lhe dava, nos passeios que ela fazia com ele em frente ao colgio Central. Ao passar por um mausolu, leu o nome de uma outra Nair. Achou boa aquela coincidncia. No se lembrava mais onde estavam Agnes e Nair. Continuou andando pensando nas duas.

Tentou achar o lugar do tmulo de seu pai pela memria visual. Lembrava vagamente do nmero e da quadra, mas deixou-se levar, na certeza de que conseguira chegar sem se perder. E chegou sem muita dificuldade, depois de errar o alvo entrando em duas ruelas paralelas. Ao chegar ao destino final parou em frente lpide e contemplou a frase: nascer morrer renascer ainda e progredir sem cessar, essa a lei. A mxima de Alain Kardec, pai do espiritismo. Ficou por alguns minutos absorto em lembranas, conversando silenciosamente com ele.

Alguns minutos depois ouve um pequeno barulho que interrompe os seus devaneios. Logo depois rompe o silncio uma voz que diz: quer que eu coloque algumas flores. Olhou de relance para o vulto que passava e disse, sem prestar muita ateno e um pouco chateado com a interrupo, no, obrigado. Mas, segundos depois, tomado por um mpeto incomum, gritou: ei, por favor!. O vulto ausente respondeu sem aparecer. O som vinha de uma outra alameda: sim?. A voz ecoou por entre as tumbas…

E ele disse sim, gostaria de flores. Voc poderia colocar algumas flores aqui. O vulto agora se materializara e ele v uma mulher morena, com roupas simples, um chapu na cabea, e com as mos e os braos sujos de um preto muito forte, parecendo petrleo. Ela se aproximou, carregando em uma das mos um balde com gua e na outra uma muda de flores simples e disse: o Sr. quer que eu coloque todo ms ou s hoje. Ele respondeu que era s para hoje e ela disse: vou ali pegar terra e j volto.

Ficou feliz por ter voltado atrs e pedido as flores. Elas seriam um presente, algo que marcaria a sua ida e o dia to especial que estava ainda por vir. Tinha pensado em comprar flores na entrada do cemitrio, mas desistiu. Procurou algum objeto ou lembranas em casa para levar, mas no achou nada interessante e desistiu tambm. Ficou feliz agora, com a apario surpresa da florista e a possibilidade de enfeitar o tmulo com flores novas.

Parou em frente lapide sob o forte sol. Lutava para se concentrar e, ao mesmo tempo, se livrar dos pequenos mosquitos que o incomodavam. Conversou silenciosamente com o pai ausente. Disse o quanto sentia sua falta, pediu desculpas por ter se afastado em alguns momentos e por ter sido rspido com ele em outros. Foi ali dizer feliz aniversrio e que era enorme a falta que ele fazia. Nesse momento, a florista, como que flutuando, pois no fazia nenhum barulho ao se movimentar, volta, passa por ele e se abaixa para preparar as flores e a terra no tmulo.

Precavida, ela no estava de branco, mas usava um enorme chapu, tipo sombreiro, que a protegia do escaldante sol na cabea. Ela disse: aqui nesse lugar tudo excessivo, o sol, a chuva, tudo. Teria que colocar outro tipo de flor para durar mais tempo. Na prxima vez farei isso. A frase ecoou de forma estranha…

Ele no conseguia ver o rosto da florista, escondido pelo enorme chapu. Ouvia a sua voz, calma, doce e delicada, parecendo saber do estado afetivo dele, bastante precrio naquele instante. Ela falava como que querendo fazer afagos com as palavras. Falava das flores, do seu trabalho e disse para que ele no se espantasse com a sujeira dos seus braos: estava limpando lpides de mrmore preto que precisam de um produto especial, por isso estou com os braos e mos sujos assim. No se assuste, est bem?. E ele disse, achando graa (haveria motivo para se assustar?): no, no me assusto no. Ficaram calados por algum tempo enquanto ela trabalhava.

Aquele silncio durou alguns minutos. Ele ainda no conseguia ver o seu rosto. S ouvia o som das suas mos manipulando a terra, a gua, as flores, a esptula roando a pedra. Ela arrumava cuidadosamente o arranjo de flores com as mos. Ao terminar ela disse: pronto, est feito. E ele disse: quanto te devo?. E ela disse: quanto quiser me dar!.

Agora ele conseguia ver partes do seu rosto, de sua boca fina e da pela morena queimada pelo sol e maltratada pelo trabalho e descuido corporal. No era feia. Era at bonita, pensou, mas sofrida com a vida dura. No poderia dizer a idade ao certo, mas teria por volta dos 40 anos. No conseguia compor um todo, no via o conjunto da face. Achou que isso, ver o todo, no era mais necessrio, que essa parte bastava para compor o quadro.

Ele disse ento que daria uma certa quantia (maior do que se paga normalmente) e pediria para que ela passasse de novo no dia 02 de novembro, dia de finados, para renovar as flores. Ela olhou o tmulo, leu o nome e disse: para Ferreira? Fao sim. Ele achou estranha a frase, como se ela o conhecesse, mas deixou para l essa bobagem. Nesse instante, a florista olhou diretamente pra ele e ele sentiu como se ela tambm o conhecesse. Ficou muito tranquilo, em paz.

Agradeceu. Ele achou que podia confiar nela. Nada estava garantido, pois disse florista que no voltaria ali no dia 2 para conferir o trabalho. Ela poderia simplesmente ficar com o dinheiro e no fazer a reposio das flores. Mas tinha a estranha certeza de que isso no aconteceria. A florista pediu licena e desapareceu.

Ele ficou mais algum tempo contemplando o tmulo, agora todo bonito com as flores coloridas: vermelhas, brancas e amarelas. Ficou feliz e disse: “t bonito agora chefe!”

De volta pelas alamedas, lembrou de fazer uma foto com o telefone celular, agora com a lpide enfeitada com as flores. Havia feito uma foto logo que chegou, antes do aparecimento da florista. Queria uma outra agora, com as flores para comparar. Ao voltar, no achou mais a florista. Ficou com uma sensao entranha. Voltou ao tmulo para fazer a foto, mas tambm para saber se as flores estavam l mesmo, para saber se tudo tinha sido real ou um sonho. As flores estavam l e o cho ainda molhado e sujo de terra. Sim, tudo havia acontecido. Sorriu estranhamente e com um certo alvio. Tirou a foto para provar para si mesmo (e viu depois que, misteriosamente, sem ter explicao, a foto no ficou colorida, mas totalmente azul)! No via mais a florista.

Andou um pouco mais, chegando ao fim do cemitrio, um gramado (provavelmente uma rea para expanso) dando para uma paisagem marrom de tijolos de casas e prdios de uma desoladora favela. Nada da florista. Decidiu voltar.

Ao virar para retomar o caminho da alameda que daria para a sada do cemitrio, viu ao seu lado a florista. Se assustou com a apario. Riu e suspirou para retomar o flego. E, ao olhar para ela nos olhos pela segunda vez, com alegria e uma incomum tranquilidade, perguntou: Voc no vai se esquecer de repor as flores, no mesmo?. E ela disse com uma voz tenra, arrastada, reconfortante e quase suplicante: no, no vou no. E ele olha para ela e pergunta: Qual o seu nome. Ela ri, olha no fundo dos seus olhos e diz: Nair!