Traços Digitais, Gabriel de Tarde, ANT.

“…there is nothing specific to social order; that there is no social dimension of any sort, no ‘social context’, no distinct domain of reality to which the label ‘social’ or ‘society’ could be attributed…There is no such a thing as a society (…) It is possible to remain faithful to the original institutions of social sciences by redefining sociology not as the ‘science of the social’, but as the tracing of associations”

(Bruno Latour, Reassembling the Social, p. 4-5)

Decidimos ontem começar as reuniões do GPC – Grupo de Pesquisa em Cibercidade nesse semestre pela discussão do livro “Reassembling the Social. An Introduction to Actor-Network-Theory”, de Bruno Latour. Entendemos que a compreensão da teoria ator-rede pode ser útil aos diversos projetos dos pesquisadores que compõem o GPC. A proposta está ainda dentro do meu atual projeto de pesquisa (discussão sobre materialidades da comunicação, teoria ator-rede e mídias locativas) e surge depois da disciplina ministrada no semestre passado no Pos-Com sobre essa temática.

A minha aposta é que a recuperação da sociologia de Gabriel de Tarde pela teoria ator rede pode ser uma ótima forma de analisarmos as diversas articulações em torno da espacialização, da comunicação e das tecnologias digitais com o surgimento e expansão das mídias de locativas (serviços e tecnologias baseados em localização). Só um pensamento das “associações” pode nos ajudar a compreender as formas de sociabilidade, de mapeamento e produção de narrativas sobre o espaço, de produção social de sentido sobre o urbano, de tensões da arte locativa, de controle, monitoramento e vigilância em jogo com essas tecnologias.

Recente livro, “The Social after Gabriel Tarde: Debates and Assessments”, mostra bem a atual valorização do pensamento de Gabriel da Tarde por parte de alguns autores. Eles vão questionar quais rumos teriam tomado o pensamento sociológico se Tarde, ao invés de Durkheim, tivesse sido o protagonista na história dessa “ciência”. Para alguns, um pensamento sociológico menos sujeito a regras gerais, a estruturas, e mais próximo de adaptações e variações não-hieráquicas poderia ter tomado a frente da cena afirmando então, não que o “social é uma coisa” (Durkheim), mas que “toda coisa é social” (Tarde). Esse embate Tarde x Durkheim (que não faremos aqui em profundidade) parece trazer um frescor às ciências sociais e pode iluminar os estudos sobre as novas mídias, a comunicação, o espaço e as relações sociais.

Vamos voltar a esse debate nas reunião do GPC (acompanhem o blog) e nos meus próximos artigos (publicados também aqui nesse Carnet). Por hora, tendo uma relação direta com as mídias de geolocalização, gostaria de destacar, como frisa Latour, como a idéia geral de estatística (Durkheim) estaria sendo posta a prova (revelando a importância da análise das associações em detrimento daquelas genéricas sobre “o social”) com o surgimento de novas formas de rastreamento (digital traceability). O rastreamento digital está em marcha com as práticas e usos das mídias digitais, principalmente as móveis com serviços de localização. Vemos hoje práticas já bastante corriqueiras como dizer onde estar e ver o que se diz sobre os lugares pelo Foursquare, o que se está fazendo no Facebook, o que importa saber no Twitter, os caminhos marcados com os traços de um GPS, a construção de mapeamentos diversos, os rastros (transposte público, estradas, compras, etc.) deixados pelos usuários de sistemas que utilizam etiquetas de radiofrequência… Os exemplo são inúmeros e em expansão. (A esse propósito vejam meu artigo sobre o tema aqui).

Essas tecnologias fornecem dados finos das associações, das variações, das adaptações e das redes sociais que nenhuma estatítica jamais pode oferecer (traços de navegações em tempo real, mapeamentos e articulações com escrita nos lugares, marcas das leituras feitas nesse deslocamento…rastros de uma mobilidade que se inscreve e se lê, revelando as associações). É nesse sentido que o “traço” da vida social mostra bem a força da sociologia de Gabriel de Tarde e da teoria ator-rede. Analogamente ao que mostrei em recente palestra sobre mapas participativos, a estatística, assim como um mapa mimético, diz algo sobre o genérico, funciona como um panorama, mostra tudo, mas pouco revela. A estatítica do social fala do geral sem descer às complexidades das associações, das redes e das relações entre os diversos actantes, humanos e não-humanos. Contrariamente à estatística do social, os rastros digitais, para o melhor ou o pior (vigilância), revelam as caóticas navegações e as fluidas associações pelo vivido.

Vejam abaixo o que diz Latour sobre isso (via UnderstandingSociety):

Latour ends his contribution to the Candea volume with an intriguing section called “Digital traceability … Tarde’s vindication?”. The key idea here is that the twenty-first century permits social scientists to go decisively and transparently beyond the primitive aggregative statistics that underlay Durkheim’s approach to the “social whole.” Tarde, and Latour, look at Durkheim’s social whole as no more than a crude statistical aggregation of data; and, according to Latour, Tarde had envisioned a time when the statistics and quantitative data deriving from social behavior would be transparent and visible. This, Latour suggests, is becoming true. Today we can look at social data at a full range of levels of aggregation, moving back and forth from the micro to the macro with ease. Here is Tarde’s version of the vision:

If Statistics continues to progress as it has done for several years, if the information which it gives us continues to gain in accuracy, in dispatch, in bulk, and in regularity, a time may come when upon the accomplishment of every social event a figure will at once issue forth automatically, so to speak, to take its place on the statistical registers that will be continuously communicated to the public and spread abroad pictorially by the daily press.

And here is Latour’s comment:

It is indeed striking that at this very moment, the fast expanding fields of “data visualization”, “computational social science” or “biological networks” are tracing before our eyes, just the sort of data Tarde would have acclaimed. … Digital navigation through point-to-point datascapes might, a century later, vindicate Tarde’s insights.

Aqui vemos, efetivamente, “the tracing of associations”, como na epígrafe que abre esse post.

Cidade Invisível

No projeto Paris, Ville Invisible, Latour e Herman exploram, em textos e fotos a “Cidade-Luz”, uma cidade vista pelo mundo todo como uma das mais belas, amada e visitada por todos os povos mas, por isso mesmo, impenetrável, panorâmica, abstrata. Uma cidade por assim dizer invisível. Os clichés são inúmeros e, com certeza, Paris é uma das cidades mais fotografadas do planeta. Mesmo assim, o que se esconde é maior do que o que se revela. Explica Latour:

Paris, the City of Light, so open to the gaze of artists and tourists, so often photographed, has been the subject of so many glossy books, that we tend to forget the problems of thousands of engineers, technicians, civil servants, inhabitants and shopkeepers in making it visible. The aim of this sociological opera is to wander through the city, in texts and images, exploring some of the reasons why it cannot be captured at a glance.

Our photographic exploration takes us first to places usually hidden from passers-by, in which the countless techniques making Parisians’ lives possible are elaborated (water services, police force, ring road: various “oligopticons” from which the city is seen in its entirety). This helps us to grasp the importance of ordinary objects, starting with the street furniture constituting part of inhabitants’ daily environment and enabling them to move about in the city without losing their way. It also makes us attentive to practical problems posed by the coexistence of such large numbers of people on such a small surface area. All these unusual visits may eventually enable us to take a new look at a more theoretical question on the nature of the social link and on the very particular ways in which society remains elusive.

We often tend to contrast real and virtual, hard urban reality and electronic utopias. This work tries to show that real cities have a lot in common with Italo Calvino’s “invisible cities”. As congested, saturated and asphyxiated as it may be, in the invisible city of Paris we may learn to breathe more easily, on condition that we alter our social theory.

A invisibilidade e o imaginário serão os temas desse post, motivado por alguns projetos:

1. Imagine andar por cidades atuais tendo o seu deslocamento sendo projetado em mapas desse mesmo espaço, só que no passado. Ser um “flâneur” no túnel do tempo. Não seria interessante ter esse confronto do passado e do presente no momento mesmo da navegação pelo espaço urbano? O embate entre o invisível do passado e o destaque do presente não poderia ser assim revelado nesse caminhar cronotópico? O imaginário do passado e do futuro não se processariam nesse movimento no presente (no dia a dia)? O projeto Walking Throug Time propõe essa experiência no seu iPhone ou Android, começando por Edinburg:

No site podemos ler:

“Walking Through Time is a mobile application that allows smart phone users with built-in GPS to not only find themselves in the present, but find themselves in the past. By making available historical UK maps, users will be able to scroll through time and navigate places using maps that are hundreds of years old.”

E ver o vídeo:

2. O projeto Invisible City, quer fazer justamente o impossível: visualizar o invisível das cidades pelas redes sociais digitais em interpolação com os mapas do espaço urbano. Redes sociais criam topografias no espaço urbano da grande metrópole. Mostrar tecnicamente o invisível? Os designers Christian Marc Schmidt and Liangjie Xia revelam as camadas digitais invisíveis de NY, o que chamo de “território informacional” (info via Pop Up City). A dinâmica das redes sociais digitais revelam aspectos do espaço urbano, o que os autores chamam de “city of the mind”:

“Invisible Cities maps information from one realm -online social networks – to another: an immersive, three dimensional space. In doing so, the piece creates a parallel experience to the physical urban environment. The interplay between the aggregate and the real-time recreates the kind of dynamics present within the physical world, where the city is both a vessel for and a product of human activity. It is ultimately a parallel city of intersections, discovery, and memory, and a medium for experiencing the physical environment anew.”

Vejam o vídeo abaixo:

“Real-time activity is represented as individual nodes that appear whenever a message or image is posted. Aggregate activity is reflected in the underlying terrain: over time, the landscape warps as data is accrued, creating hills and valleys representing areas with high and low densities of data. In the piece, nodes are connected by narrative threads, based on themes emerging from the overlaid information. These pathways create dense meta-networks of meaning, blanketing the terrain and connecting disparate areas of the city.”

Invisible Cities from Christian Marc Schmidt on Vimeo.

3. De forma diferente, mas tentando identificar as camadas digitais e a navegação (ambas invisíveis) pelo espaço urbano, desenvolvemos em 2008 o projeto Survivall, em Edmonton, Canadá: uma experiência de escrita com GPS e de identificação de zonas wi-fi. Buscávamos escrever a palavra Sruvivall, de forma invisível, com um GPS, em 40 km da cidade (o traçado só é visível a posteriori) e mapear as conexões Wi-Fi (também invisíveis) por onde passávamos. Vejam aqui um mapeamento bem detalhado das redes wi-fi da cidade; e um resumo no Space and Culture mostrando o projeto:

“…the videos collected along the way show not only suburbia in winter snow but the blanket of private wifi signals, both closed and open which were detected at the beginning and end of each ‘letter’.”

Abaixo um vídeo do Survivall:

Concluindo:

Falamos de Paris, Edinburg, NY, Edmonton, mas podemos dizer o mesmo de todas as cidades do mundo. O imaginário global de uma cidade nada mais é do que uma forma de torná-la invisível, de transcendê-la em um panorama que mostra tudo, mas que nada revela. O que é Paris, a cidade-Luz, NY, a que nunca dorme, Salvador, a cidade da alegria, Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, a não ser denominações de um panorama que as deixam pairar na invisibilidade genérica?

Pense na sua inserção no espaço urbano e verás que funcionas por “assinaturas” pontuais, por agregação aqui e acolá em sua dimensão concreta e imaginária (vou voltar a isso no final). Mas também, a sua inserção se dá por essa flutuação panorâmica no que ela tem de dimensão invisível, logo genérica e abstrata. Moro em Salvador (cidade “alegre”, “festiva”, “bela”, “histórica”, “negra”), mas na realidade “assino” apenas algumas partes dela, e são essas partes que fazem sentido e parte do meu dia a dia.

Tenho, no entanto, para sobreviver, uma visão global, panorâmica e abstrata que me informa sobre a sua real invisibilidade e que me coloca em uma generalização confortável, já que me permite navegar não mais em um insuportável vazio de sentido (as minhas pequenas assinaturas), mas sim no todo, no cliché que nos une em uma visão generalista, mas compartilhada. O global, artificial e falso, é o que torna as cidades invisíveis. Paris, cidade-luz, bela, turística…NY, que nunca dorme… Edinburg, navegável no passado….Edmonton na neve e na busca da sobrevivência… Em todas, identificamos o inominável, o que não está visível nos espaços urbanos que, no entanto, nos cercam irremediavelmente.

E para ficar no registro do impenetrável e do imaginário, recomendo um passeio pelos lugares inexistentes, pelos lugares imaginários da literatura, catalogados no excelente livro de Manguel e Guadalupi, o “Dicionário de Lugares Imaginários” (Cia das Letras, 2003). Lugares como Atlante, o castelo que parece queimar como uma tocha ao ser visto de longe, ou Jukan, vale coberto de grandes florestas do reino submerso de Pelucidar, ou mesmo Tsalal, ilha além do círculo ártico. Todos esses são lugares visíveis apenas na literatura, construídos pelo imaginário, mas invisíveis de fato, como o são as nossas cidades. Elas são visíveis, no imaginário panorâmico, abstrato e urbanístico, mas na realidade são todas invisíveis a olho nu, sendo apenas experimentadas, navegando-as, no corpo a corpo com o construído.

Mapas 2.0: Petróleo e redes sociais

Nos últimos posts falei sobre mapas colaborativos, lugar, espaço, mídia. Duas informações interessantes vêm reforçar a importância dos mapas colaborativos (e das redes sociais) para a imersão na dimensão local.

Post do excelente UrbanTick mostra uma série de mapas de inserção das redes sociais na dimensão espacial/local em diversos países. O autor faz referência ao workshop no Strelka Institute for Media, Architecture and Design que visa exatamente discutir a relação entre as redes sociais virtuais (?) e a localização real (?). Trata-se de tensionar, e mesmo abolir, essa falsa oposição, mostrando como os processos comunicacionais ganham sentido criando novas paisagens urbanas. No post, há exemplos de mapas usando o Twitter como referência: metrô em Moscow, o humor americano medido pelo twitter (vídeo abaixo), mapas de cidades de acordo com o uso do Twitter, etc.

O que é importante destacar aqui é como o uso das redes sociais (twitter, facebook, orkut, SMS, etc) alteram a paisagem urbana e as formas sociais de relação do o espaço, e como esses novos mapas permitem uma visualidade dinâmica mais próxima da navegação do que da fidelidade mimética à um território genérico e panorâmico (ver posts anteriores sobre esse tema). O processo comunicacional é sempre locativo, e parece que as novas cartografias abertas, participativas e colaborativas, ajudam a reforçar essa tese.

Outra informação interessante vem do blog The Pop Up City, informando sobre o Grassroots Mapping Copmmunity, que está fazendo mapas sobre o real impacto do derramamento de petróleo no Golfo do México, através do Gulf Oil Mapping Project. A motivação vem da falta de informações precisas e fidedignas sobre o estado da catástrofes ou do controle oficial dos mapas (dos mapas gerados pelos detentores da informação, na forma clássica de produção de mapas).

Dessa forma, o objetivo é:

“Seeking to invert the traditional power structure of cartography, the grassroots mappers used helium balloons and kites to loft their own ‘community satellites’ made with inexpensive digital cameras. The resulting images, which are owned by the residents, are geo-referenced and stitched into maps which are 100x higher resolution that those offered by Google, at extremely low cost. In some cases these maps may be used to support residents’ claims to land title. By creating open-source tools to include everyday people in exploring and defining their own geography, we hopes to enable a diverse set of alternative agendas and practices, and to emphasize the fundamentally narrative and subjective aspects of mapping over its use as a medium of control.”

Vejam o vídeo abaixo da ação no projeto Gulf Oil Mapping Project:

Grassroots Mapping: Kickstarter Pitch from TungstenMonkey on Vimeo.

Os mapas colaborativos lançam novos olhares sobre o lugar, permitindo questionar hierarquias e democratizar a produção de informação. Mapas estão passando, assim como as mídias, de estruturas massivas (controladoras da emissão or especialistas para um público genérico) para estruturas pós-massivas (produção, consumo e distribuição de informação não controladas e para públicos de nicho). Podemos dizer que a emergência dos mapas digitias, abertos e colaborativos começa em 2004 com o OpenStreet Map e o Google Earth e ganha força um ano depois, com o Google Mapas e os API. A emergência do que podemos chamar de “Mapas 2.0” (não é a base digital que importa, já que essa existe há muito tempo, mas a possibilidade livre de produzir cartografias e distribuí-la), é correlata à emergência dos novos formatos midiáticos de função pós-massiva, ou o que muitos chamam de “Web 2.0”.

McLuhan: Mapas, ambiente e lugares

Começo a me mexer, mas bem lento, para pensar no texto que vou propor para o evento sobre “Space, place and the Mcluhan legacy” que acontece na Unversity of Alberta, Edmonton, Canadá, em junho de 2011. Vejam essa sequência de posts que escrevi no Canadá sobre McLuhan (aqui, aqui, aqui e aqui).

Rabisco aqui algumas reflexões ainda desconexas que balizarão meu paper para o evento. A ideia é pensar comunicação, lugar  e espaço com as novas mídias, tendo por base as teorias de materialidade, incluindo aí McLuhan, e a teoria ator-rede. Esse quadro teórico-conceitual nos permite pensar o espaço, o lugar, o mapa, o território e a comunicação hoje.

Primeiro devemos rejeitar a ideia de espaço como conteiner. Ele não é, e só existe, ou como espaçamento entre coisas, ou como abstração genérica e matemática. O que importa são os lugares e o espaço só tem sentido a partir da constituição de lugares. Pensando assim, os mapas que revelam lugares não são aqueles miméticos mas os mais navegacionais, não são os representacionais mas os que agregam “actantes”. Hoje, os mapas navegacionais digitais podem revelar coisas sobre a nossa forma de habitar. Em recente conferência sobre mapas interativos sustentava que os mapas devem ser visto como mídias, trazendo tensões entre localização e mobilidade. Com as novas funções pós-massivas dos mapas digitais, oferece-se a oportunidade de produção coletiva e colaborativa de criação de cartografias locais onde as pessoas podem acessar e anotar posições no espaço. O objetivo é identificar as relações sociais, culturais e de poder entre os diversos “actantes” (Latour) para questionar hierarquias e as formas de habitarmos o mundo.

Para Heidegger “os espaços que percorremos diariamente são arrumados pelos lugares”. O construir funda os lugares e articula espaços. Percorrer e navegar é produzir relações entre as coisas construídas. O mapeamento pode aqui revelar dimensões ontológicas, políticas, culturais, sociais e econômica desse “habitar”. A essência do homem é residir, construir (um lugar) para habitar. O lugar é o espaço socialmente produzido, e é ele que “arruma, dá espaço a um espaço” (Heidegger). Os “espaços recebem sua essência dos lugares”. O “outro” espaço, que não é o espaçamento entre os lugares, é um abstractum, matemático. Nesse espaço não encontramos lugares. Os mapas, tradicionalmente, buscavam um mimetismo com o espaço abstrato. Os mapas digitais podem revelar relações, conexões, movimentos entre as coisas no mundo construído (lugares). Mapas representativos (miméticos) não dizem nada sobre os lugares, são “panoramas”, não fazem correlações e fixam apenas generalizações. Mapas digitais colaborativos abrem a perspectiva de cartografias “não-miméticas”, navegacionais, menos representativas de um contexto (espaço). Eles podem nos ajudar a problematizar questões relativas ao habitar entre as coisas construídas (lugares).

Sobre mapas colaborativos, vejam a minha apresentação no evento Laboratório Cultura Viva e o interessante City Centered Festival, realizado em junho em São Francisco. Entre os diversos projetos destaco o Beyond Boundaries que :

Through utilization of digital media, Beyond Boundaries explores the diverse community of the Tenderloin District of San Francisco. By visually mapping the local area with community members from Hospitality House, the Vietnamese Youth Development Center and other local groups, and displaying the images in a prominent public space, the project emphasizes the dynamic interplay between the public space and urban context. The goal is to achieve an understanding of the inner community of the Tenderloin within the larger urban context of San Francisco. While the neighborhood can easily be framed by its negative characteristics, this area is also recognizable for its unique urbanity and complexity. The main objective of Beyond Boundaries is to understand how this community is thriving in positive and enriching ways.

As mídias não podem ser pensadas como “tubos” por onde passam informações. A própria ideia de rede deve ser vista não como um dispositivo por onde passam coisas mas, de outra forma, como aquilo que se forma da relação e do movimento entre coisas/informações. As redes devem ser vistas como dispositivos sociotécnicos que se constituem pelo movimento entre diversos actantes (coisas, pessoas, leis, regras, protocolos, etc.). O lugar, da mesma forma, não é aquilo que fixa e que imobiliza, mas deve ser visto como evento, como ponto dinâmico em um ambiente informacional-comunicacional complexo formado pela relação entre pessoas, objetos, instituições, normais, leis…

Assim, mídia, rede, espaço, lugares não são “conteiners”, “reservatórios”. Eles são “mensagens”, “actantes” criando uma rede de atores, e sendo eles mesmo redes, configurando a materialidade do ambiente (ecologia) comunicacional. Podemos traçar uma história dessa espacialização culminando hoje com as mídias de geolocalização. Assim como McLuhan vai propor a máxima “o meio é a mensagem” e “a mensagem é o meio”, podemos pensar que lugar, rede, espaço, são “ambientes-agentes” da comunicação, “ambientes-actantes” no processo sociocomunicacional de constituição da espacialidade. Veja, nesse sentido, o vídeo Echological Medium, abaixo:

Marshall McLuhan’s Echological Medium from jarrod storms on Vimeo.

Work in progress…

Eleitor 2010

Hoje estivemos com a Paula Góes na Facom, em reunião com o GPC e pedi a ela que mostrasse o projeto Eleitor 2010. O projeto visa ser um espaço do eleitor para denúncias as mais diversas sobre a atuação dos políticos, servindo como um observatório dessas eleições. O projeto é idéia da Paula, com apoio da Global Voices e utilização da plataforma Ushahidi para montagem do site. Nele podemos ver um mapeamento das denúncias. O usuário pode navegar por categorias e sua denúncia pode ser feita de forma anônima. A equipe (voluntários e a Paula) está checando a veracidade das denúncias, dando assim credibilidade às informações. Não se trata de um site sobre discussões e opiniões políticas, mas de denúncias baseadas em fatos que podem ser checados, evitando assim a denúncia vazia ou o aproveitamento partidário e eleitoreiro de alguns espertalhões. O site ainda está em sua fase beta mas já parece bem funcional. Há possibilidades de receber informações via SMS ou por email sobre denúncias em sua localidade de interesse. O usuário pode anexar fotos e vídeos comprovando as suas informações. Há relação também com outras redes sociais como Twitter, Orkut, Facebook.

Em recentes tuites, falava sobre uma matéria do The Guardian,” How the Internet really affect the election”, que mostrava o uso da internet em período de eleições. Destaquei a frase que, na minha opinião, expressa bem o que chamei em recente artigo de “nova esfera conversacional“:

“Mainstream media are largely getting it right, and recognising that this is about conversation and not broadcast”

A proposta do eleitor 2010 é não só de fazer ouvir a voz da denúncia dos eleitores, mas também de servir como um observatório que poderá ajudar o trabalho de apuração da informação de outros veículos jornalísticos. Notícias de pequenas e grandes cidades brasileiras podem se fazer ouvir a partir dessa plataforma e chamar a atenção para as mazelas da nossa cultura política. Há denúncias de candidatos trocando saco de cimento por voto, usando a máquina pública, doando presentes em programas de televisão…Nada de novo na nossa pobre democracia. O projeto vale pela possibilidade de franquear a palavra, promover a conversação pública e servir como um instrumento visibilidade da voz dos eleitores de todos os cantos do país. Ele acaba sendo, também, um site de mapeamento participativo (ver meus últimos posts) onde podemos, com um rápido olhar, ver o quadro de denúncias pelo Brasil e compreender melhor o lugar onde habitamos.

O projeto é feito por voluntários, não há busca de lucro e nenhuma relação com partidos políticos.

Participem, divulguem, visitem o Eleitor 2010.

Mapeamentos colaborativos, 2

Abaixo resumo da minha palestra no Laboratório Cultura Viva (ver Slide no último post). Acima foto do site Mapas Livres, projeto brasileiro na plataforma Open Street Maps.

MAPAS COLABORATIVOS COMO INTERFACE DA CULTURA DIGITAL
André Lemos

Os mapas devem ser visto como mídias, trazendo tensões entre localização e mobilidade. Com as novas funções pós-massivas dos mapas digitais, oferece-se a oportunidade de produção coletiva e colaborativa de criação de cartografias locais onde as pessoas podem acessar e anotar posições no espaço. O objetivo é identificar as relações sociais, culturais e de poder entre os diversos “actantes” (Latour) para questionar hierarquias e as formas de habitarmos o mundo. Para Heidegger “os espaços que percorremos diariamente são arrumados pelos lugares”. O construir funda os lugares e articula espaços. Percorrer e navegar é produzir relações entre as coisas construídas. O mapeamento pode aqui revelar dimensões ontológicas, políticas, culturais, sociais e econômica desse “habitar”. A essência do homem é residir, construir (um lugar) para habitar. O lugar é o espaço socialmente produzido, e é ele que “arruma, dá espaço a um espaço” (Heidegger). Os “espaços recebem sua essência dos lugares”. O “outro” espaço, que não é o espaçamento entre os lugares, é um abstractum, matemático. Nesse espaço não encontramos lugares. Os mapas, tradicionalmente, buscavam um mimetismo com o espaço abstrato. Os mapas digitais podem revelar relações, conexões, movimentos entre as coisas no mundo construído (lugares). Mapas representativos (miméticos) não dizem nada sobre os lugares, são “panoramas”, não fazem correlações e fixam apenas generalizações. Mapas digitais colaborativos abrem a perspectiva de cartografias “não-miméticas”, navegacionais, menos representativas de um contexto (espaço). Eles podem nos ajudar a problematizar questões relativas ao habitar entre as coisas construídas (lugares).

Derivas

Tenho usado o InstaMapper para registrar alguns deslocamentos (ele grava ao vivo e é possível acompanhar de um blog, por exemplo). Eles mudaram agora a política de tratamento de dados e vão deletar os percursos dos usuários depois de um mês de uso. Assim, convidaram-nos a gravar os “tracks”. Fui lá, fiz isso. Mais sobre derivas no Ciberflânerie. Aqui uma memória dos últimos percursos de agosto de 2009 a abril de 2010 (mas há registros de 2008 até esse último):

GPS tracking powered by InstaMapper.com