Férias
Estou de férias até o dia 06 de fevereiro. Novos posts em fevereiro, incluindo aí o Reviravolta (@re_vira_volta no Twitter).
Até breve!
Estou de férias até o dia 06 de fevereiro. Novos posts em fevereiro, incluindo aí o Reviravolta (@re_vira_volta no Twitter).
Até breve!
A Metareciclagem e a Gambiologia buscam a apropriação de objetos técnicos com fins de reaproveitamento, reciclagem e ressignificacão, desempenhando, ao mesmo tempo, funções sociais, de inclusão, artísticas, com uma estética “cyberpunk”, e política, contra o desperdício e a espiral da obsolescência programada da sociedade industrial moderna. Vou propor aqui pensar os princípios da Gambiologia, ou a ciência das Gambiarras.
Uma gambiarra é resultado de função ressignificadas fazendo com que dispositivos técnicos possam fugir de suas hipertelias e ganhar outras funcionalidades. Busca-se que eles sejam, por assim dizer, abertos ao mundo, negociando com outros objetos e com a natureza ambiente. A prática da gambiologia se situa menos na engenharia (científica, industrial, especialista, homogênea, padronizada, incapaz de dialogar com a natureza a não ser submetendo-a a suas funções e operações), e mais na duração, na lentidão, no imperfeito e aberto trabalho de artífices e artesãos.
A gambiarra propõe reciclar, em vários níveis, instrumentos tecnológicos (mas não só os de ponta). Mas, o princípio é artesanal, antigo. Vou rapidamente sustentar essa hipótese: a gambiarra, na sociedade da informação, alia tecnologias de ponta com processos de trabalho artesanais constituindo-se como uma prática que poderíamos chamar de “cyberpunk pós-moderna”.
A prática do artífice pode ser considerada como uma ação de trabalho manual, persistente, lento e imperfeito (não homogêneo ou em série) sobre os objetos técnicos. Essas características são mesmo reivindicadas e valorizadas como parte fundamental do métier do artesão, e isso desde a era medieval até hoje: ir trabalhando aos poucos, buscando a perfeição em algo que nunca será perfeito, insistindo nas diferenças entre cada elemento de uma mesma espécie, como se assim pudéssemos apreender o espírito de cada objeto, sendo também um auxiliar do desenvolvimento próprio espírito do artífice. A idéia de autor não existe ainda e a oficina, ou o ateliê, é fruto de um trabalho coletivo e cooperativo coordenado pelos mestres-artesãos. Fazer um objeto é fazer a si mesmo. A imperfeição é sinal da “humanidade” da cultura material.
O desenvolvimento da cultura material, tão desprezada, é aqui vista como um forma de entender o homem e a instituição de seu lugar no mundo. R. Sennett em seu “O Artífice” elenca algumas qualidades desse trabalho: o engajamento total em uma atividade prática; a busca da qualidade, que não é a padronização que virá mais tarde com a máquina e a indústria; a impessoalidade, onde a idéia de autor, moderna, ainda não existe; a valorização do trabalho pela repetição, hoje vista como enfadonha, mas que aqui se caracteriza como um exercício da mão e do cérebro na constituição de um conhecimento tácito (como no esporte ou na música). Podemos ver, como afirma o próprio Sennett, no trabalho de desenvolvedores de software, especialmente o Linux, mas também na bricolagem na constituição de blogs, nas redes sociais criadas por idealizadores, ou no trabalho de metareciclagem algo muito próximo da prática dos artífices medievais.
Todos os elementos estão presentes: o engajamento, a busca da qualidade pela diferenciação e a imperfeição (e a valorização estética desta), a impessoalidade que insiste em trabalhos coletivos, e não autorais, e o trabalho exaustivo e repetitivo, tentando chegar a uma perfeição que se mede caso a caso. Obviamente, há diferenças, já que estamos em uma sociedade industrial avançada. As práticas abertas e colaborativas das gambiarras “high-tech” da cibercultura não são práticas que se voltam para um idílico passado remoto. Antes, elas associam altas tecnologias e práticas ancestrais voltadas para o presente, para o questionamento da hiperespecialização, da propriedade e do direito de autor. Aqui, a Gambiologia muito se aproxima dos artífices, mas sem romantismo.
Vemos em projetos como o Metareciclagem uma reconfiguração de práticas (que afetam a grande indústria dos games à robótica) que poderíamos chamar de “cyberpunk pós-moderna”: une arcaico e futuro, improviso e imperfeição, crescimento pessoal e desenvolvimento material, qualidade como um fim e o engajamento coletivo na transformação da sociedade tecnológica, sem negá-la. É futurista, arcaica, mas ancorada no presente.
Acredito que essa possa ser uma forma de leitura da Gambiologia.
Blogs são hoje uma das mais expressivas formas de comunicação da cibercultura. Eles têm inúmeras finalidades: página de atualização pessoal, ferramenta corporativa, instrumento de difusão de informação jornalística, suporte pedagógico, ambiente colaborativo e coletivo, os exemplos são inúmeros e não há limites para a utilização dos blogs.
Agora mesmo, nesse momento, utilizo a ferramenta como suporte e complemento da minha intervenção no Painel “Cibercultura e pesquisa sobre blogs” aqui na Campus Party 2010. Acabo de postar no momento mesmo em que falo já que terei pouquíssimo tempo aqui. É um complemento e não substitui o embate que se dá agora presencial.
Como tenho afirmado, os blogs são exemplos, assim como o software livre, os podcasts, a arte eletrônica, dos três princípios que balizam as práticas sócio-comunicacionais contemporâneas a partir das novas tecnologias e redes digitais:
1. liberação do pólo da emissão,
2. conexão aberta e planetária;
3. reconfiguração social, cultural, política.
Os blogs estão mais próximos da esfera conversacional (link) do que ao fluxo um-todos característico das mídias de massa. Considero que os blogs, em sua maioria, desempenham funções que não se enquadram mais nas mídias de massa. Tenho chamado essas fun?ões de “pós-massivas”. Eles existem e estão em expansão por serem um meio de comunicação em que não há controle da emissão, permitindo que qualquer um, com poucos recursos, possa livremente publicar informação diversas sob variados formatos (texto, fotos, vídeo, áudio…). Os blogs se aproximam aqui do “mundo da vida” das formas mais espontâneas de conversação pública.
A liberação do pólo da emissão encontra a conexão: blogueiros oferecem blogrolls, remetendo a outros blogs, além de áreas de comentários, instituindo respostas abertas (ou moderadas) às informações vinculadas. Emerge assim uma “blogsfera” sob os princípios da livre emissão e da conexão a outros, por afinidade ou interesse. Mais do que as mídias de massa, que são informativas oferecendo informação filtrada em um fluxo um para todos, os blogs são comunicativos (troca livre entre consciências), instituindo “comunicação” – embate com o outro, ação de “entrar na orquestra”.
Quando se pode emitir livremente e se conectar a outros, emerge a potência da reconfiguração social, cultural, política, o terceiro princípio. Não se trata de aniquilar formas massivas, informativas, unidirecionais de comunicação, mas da inserção de um novo elemento (por vezes e a depender da área, bastante perturbador), que altera práticas e cria outras. A lógica da história das mídias não é o “isso ou aquilo”, mas o “e, e, e… Por exemplo, podemos pensar no uso dos blogs como ferramentas pedagógicas, que não substituem as salas de aula, como ferramentas jornalística, que não institui o fim do jornalismo profissional, como complemento a informação televisivas, como espaço comunitário que não inibe o encontro face a face, ou como complemento de uma palestra, como estamos fazendo aqui.
Se até o papa esta clamando aos seus fiéis que “por Deus, tenham um blog“, é porque há aqui o reconhecimento de sua essência conversacional, comunitária, participativa e livre. O blog, como diversas práticas da cibercultura, está no bojo do que se pode chamar de uma nova esfera participativa e conversacional a partir dos três princípios da cibercultura.
Estou na Campus Party desde ontem. É a primeira vez que participo. O ambiente é excessivo em todos os níveis: banda larga de 10gbs, 6000 participantes, conferências, paineis e reuniões espontâneas, muito barulho. O evento é uma grande festa que reforca o carater efervescente e orgiástico da cibercultura: orgia de signos, de máquinas, de códigos, de falas…uma despesa que não chega a ser improdutiva (todos estão fazendo algo interessante em diversas área – games, vídeo, música, blogs, etc) mas que remete muito mais a um momento de união e troca do que a formas solenes de discussão sobre as tecnologias de informacão.
O evento me lembrou um bem menor, mas com o mesmo espírito, que participei na Holanda, em Lelystad, em 1993, se não me engano (e relato no meu livro Cibercultura), sobre hacking: o “Hacking at the End of the Universe“, organizado pelo Hacktic. Era em um camping onde pessoas ficavam em barracas e as discussões, palestras e workshops eram realizados ao ar livre, na tenda principal (como um circo) e na área de conexão, com computadores espalhados em mesas. O ambiente era cooperativo e, por ser menor, mais íntimo. Pessoas lavavam os banheiros, os pratos, compartilhavam comida, etc. O espírito da cooperacão, da colaboracão e da discussão já se dava desde a década de 1990. Hoje a Campus Party, mesmo recheada de empresas, promocões e publicidade, ainda conserva essa vibe.
Tenho visto ouvido alguns painés. Participo hoje de um debate sobre o Trezentos e amanhã de dois, um sobre blogs e outro sobre Gambiologia. (ver post anterior).
Uma farra de dados e de encontros, de improviso e de conexões. O código está circulando por todos os lados. Hoje assisti um painel sobre arte e código aberto e fiquei pensando sobre eles (em breve um post específico, com muitas dúvidas, críticas sobre esse tema).
Vou agora para o evento do Trezentos, no Bar Camp.
Aprontando a mochila para a Campus Party 2010. Ansioso para mergulhar na ambiência do acampamento. Participo de 3 debates: um sobre cibercultura e blogs, outro sobre Gambiologia e outro sobre internet e moradores de rua (nao sei ainda quando e onde será). Devo assisitir também a conferências (principalemente a do Lessig). Mas o bom mesmo será flanar pelo Campus e ver o que a cibercultura brasileira está aprontando. Abaixo minha agenda, até agora…
Dia 26, se chegar a tempo, corro para ver a palestra do Kevin Mitnick, um dos mais famosos hackers, ou melhor, ex-hackers, do mundo. Ele vai falar de social engineering e lock-picking, táticas hackers para conseguir informacão e abrir coisas. Abaixo vídeo do Mitnick convidando para o evento.
Dia 27 fico livre para ver coisas pelo acampamento.
Dia 28 participo de dois debates: blogs e gambiologia!
BLOG Debate: Cibercultura e pesquisas sobre blogs e conversações online
Quando – qui 28 de jan 2 pm – 3:30 pm
CampusBlog – Zona de Criatividade
Descrição – Os novos cenários na comunicação sob o olhar de pesquisadores e acadêmicos.
Moderador: Sérgio Amadeu
Painelistas: Rogério Christofoletti, Henrique Antoun, Sandra Montardo, André Lemos
DSIGN Gambiologia – debate e lançamento
Quando – qui 28 de jan 10 pm – 11:30 pm
Foto-Video-Design – Zona de Criatividade
Descrição – A rede MetaReciclagem lancará na CParty uma publicação colaborativa chamada “Gambiologia”. Nela, e no debate, pretende-se entender, referenciar e de certa forma naturalizar o improviso e a impermanência – a cultura da gambiarra – não como atraso, mas pelo contrário como habilidade essencial pro mundo contemporâneo.
Painelistas – Rodrigo Boufleur, Czarnobai, Lucas Bambozzi, Sergio Amadeu, André Lemos, Marcus Bastos, Fred.
Dia 29, assisto a palestra do Lessig: O futuro dos Commons: cultura livre e compartilhamento. 19:00h.
Lawrence Lessig, um dos fundadores do Creative Commons, professor na faculdade de direito de Stanford e um dos maiores defensores dos licenciamentos livres para a distribuição de bens culturais, à produção de trabalhos derivados (criminalizadas pelas leis atuais), e do fair use. Na sua palestra falará sobre o futuro do compartilhamento nas redes digitais.
Recentemente escrevi um artigo, Nova Esfera Conversacional (ver no link artigos), em que defendo que a conversação, e não a informação centralizada por pólos editores, está no bojo do processo comunicacional das novas mídias eletrônicas. Essa é uma das características das mídias de função pós-massiva e podem ampliar formas de ação política e cidadã. Destacava na ocasião:
“A nova esfera conversacional se caracteriza por instrumentos de comunicação que desempenham funções pós-massivas (liberação do pólo da emissão, conexão mundial, distribuição livre e produção de conteúdo sem ter que pedir concessão ao Estado), de ordem mais comunicacional do que informacional (mais próxima do ‘mundo da vida’ do que do ’sistema’), alicerçada na troca livre de informação, na produção e distribuição de conteúdos diversos, instituindo uma conversação que, mesmo sendo planetária, reforça dimensões locais. As tecnologias da comunicação e da interação digitais, e as redes que lhe dão vida e suporte, provocam e potencializam a conversação e reconduzem a comunicação para uma dinâmica na qual indivíduos e instituições podem agir de forma descentralizada, colaborativa e participativa.”
“Pode-se assim, como hipótese, pensar no ciberespaço como uma nova esfera pública de conversação onde o ‘mundo da vida’ amplia o capital social, recriando formas comunitárias, identitárias (público), ampliando a participação política. A função conversacional das mídias de função pós-massiva pode servir como fator privilegiado de resgate da coisa pública, embora não haja garantias. A participação, a colaboração e a conversação são as bases para uma ação política, mas não garantem a sua efetividade. Como na epígrafe deste artigo, é importante garantir que haja conversação, que as trocas não sejam apenas um ‘interrogatório unilateral’, como parece ter sido o caso com as mídias de função massiva (pensem no jornal televisivo, por exemplo). Como afirma Tarde, a conversação só surge depois de um longo período de ‘aguçamento dos espíritos’. O desafio é fazer com que o ‘aguçamento dos espíritos’, que parece estar em expansão com as mídias de funções pós-massivas, possa criar as bases para uma conversação plena e, consequentemente, produzir um reforço da coisa pública, da opinião e da política.”
Hoje, via twitter (via @bodyspacesoc), tenho acesso a esse belo texto ”THE POWER OF CONVERSATION“, de Gloria Origgi, filósofa e pesquisadora do CNRS, Institut Nicod, de Paris onde ela sustenta que o que move o trabalho acadêmico é a conversação. Assim, dedicar tempo (ela começa questionando o tempo que passa respondendo emails) às mídias sociais online faz parte do nosso trabalho, não sendo portanto, apenas a parte “mecânica, burocrática ou dispersiva”. Concordo plenamente. Sempre penso no uso desse Carnet de Notes ou do Twitter como parte essencial do meu trabalho. Vejamos abaixo alguns trechos do texto de Origgi:
“What is academic work in general, at least in the humanities? One of my mentors once said to me: Being an academic just means being part of a conversation. That’s it. Plato used the dialogue as a form of expression to render in a more vivid way the dialectic process of thinking and constructing knowledge from open verbal confrontation. ”
“Arguing is a basic ingredient of thinking: our way of structuring our thought would have been very different without the powerful tool of verbal exchange. So, let’s acknowledge that the Internet allows us to think and write in a much more natural way than the one imposed by the written culture tradition: the dialogical dimension of our thinking is now enhanced by continuous, liquid exchanges with others.”
” I find that each media produces its wastes: most books are just noise that disappears few months after the first release. I don’t think we should concentrate of the wastes, rather, we should try to make a responsible use of our conversational skills and free ourselves from unreal commitments to accidental formats, such as the book or the academic paper, whose authoritative role depends on the immense role they played in our education.”

Faço parte do International Advisory Committee of the Digital Communities do Prix Ars Electronica, um dos eventos mais importantes do mundo nesse domínio. Devo indicar projetos para o juri. Peço que aqueles que tem informações sobre projetos brasileiros interessantes que me façam saber via email ou comentando aqui mesmo no Carnet. Vou analisar e se for o caso, indico.
Para saber mais sobre essa categoria veja o link aqui.
“The “Digital Communities” category focuses on the wide-ranging social and artistic impact of the Internet as well as on the latest developments in social software, user generated content, mobile communications, mash-ups and location based services. Digital Communities” focuses on innovation in human coexistence, efforts to bridge the geographical as well as gender-based digital divide, overcoming cultural conflicts and fostering cultural diversity and the freedom of artistic expression. Consideration is also given to projects that advance the practice of sharing and the formation of a “Cloud Intelligence”, and that facilitate access to technological-social infrastructure. Digital Communities spotlights the political and artistic potential of digital and networked systems and is thus designed to singled out for recognition a broad spectrum of projects, programs, artworks, initiatives and phenomena in which social and artistic innovation is taking place, as it were, in real time. A Golden Nica, two Awards of Distinction and up to 12 Honorary Mentions will be awarded in the Digital Communities category in 2010.”
Isso não impede que qualquer um possa submeter livremente os seus projetos. Para quem tiver interesse, mais informações sobre submissões aqui.
O deadline é até dia 05 de março de 2010.
Acabo de ler um post do David M. Wood, Augmented Reality or alternate unrealities?, no qual ele cita um artigo do The Guardian de Charlie Brooker sobre a “realidade aumentada”. No artigo o autor defende a ideia de que esses sistemas podem ser usados para mascarar a realidade, para evitar o olhar para o mundo imediato (e na maioria das vezes incômodo) e o “outro”. Esses sistemas podem instituir assim uma “irrealidade aumentada”.
“(…)What’s more, the goggles could be adapted to suit whichever level of poverty you wanted to ignore: by simply twisting a dial, you could replace not just the homeless but anyone who receives benefits, or wears cheap clothes, or has a regional accent, or watches ITV, and so on, right up the scale until it had obliterated all but the most grandiose royals. (…)
And don’t go thinking augmented reality is going to be content with augmenting what you see. It’s a short jump from augmented vision (your beergut’s vanished and you’ve got a nice tan), to augmented audio (constant reactive background music that makes your entire life sound more like a movie), to augmented odour (break wind and it smells like a casserole), and augmented touch (what concrete bench? It feels like a beanbag). Eventually, painful sensations such as extreme temperature and acute physical discomfort could be remixed into something more palatable. (…)”
Mostrei em outro post como a questão da narrativa (a escolha dos autores, os pontos de vista, o que é ou não contado, etc.) está no cerne desses sistemas. O que o artigo do The Guardian e o post de Wood mostram é exatamente isso: a construção de uma narrativa que pode, em um futuro próximo, estabelecer novos regimes de visão sobre o mundo que mostre e institua uma realidade mais palatável, mais confortável. Trata-se aqui de formas narrativas e regimes de visão que constroem o mundo a partir de um sujeito que tudo filtra pela lente da câmera do celular e pelos softwares utilizados pelo sistema. Mais do que aumentar a realidade, o que podemos ver é efetivamente a sua redução.
Acaba de sair o link da Revista Famecos com o meu artigo “Cultura da Mobilidade”. O texto foi apresentado em alguns eventos no ano passado e ganhou, recentemente, uma nova versão em francês que será publicada em 2010 na revista Communications.
Abaixo link com a referência e o resumo.
Cultura da Mobilidade. in Revista Famecos, vol.1, n. 40, 2009. ISSN On-line: 1980-3729.
Resumo:
A mobilidade é inerente ao homem, sendo correlata à necessidade de criar um lugar no mundo, de “construir para habitar” (Heidegger, 1958), de estabelecer um topus que nos proteja da solidão e do vazio do espaço genérico e abstrato. A cultura da mobilidade entrelaça questões tecnológicas, sociais, antropológicas. Para a comunicação, a mobilidade é central já que comunicar é fazer mover signos, mensagens, informações, sendo toda mídia (dispositivos, ambientes e processos) estratégias para transportar mensagens afetando nossa relação com o espaço e o tempo. Na atual fase das tecnologias da mobilidade e de localização (as mídias locativas), não se trata tanto de aniquilar os lugares, mas de criar espacializações. Esta é a tese aqui defendida. A atual cultura da mobilidade é uma cultura locativa.
Ontem em Imbassaí, praia a 65 km no litoral norte de Salvador, vi esse “Point do Cabelo” que é, ao mesmo tempo, barbearia e game house. Quando vi pensei logo nas multifuncionalidades locais e fiquei imaginando uma pessoa cortando o cabelo e jogando ao mesmo tempo. A loja estava fechada no domingo e não pude ver no interior, mas imagino alguns computadores precários convivendo lado a lado com cadeiras e barbeiros “da antiga”. Voltarei um dia para ver funcionando. Mas, para o que me interessa, é curioso ver como os lugares ganham múltiplas funções (e isso é muito comum no Brasil e parace mesmo ser uma lei – “quanto mais precários, mas multifuncionais são os lugares”), novas heterotopias, mantendo alguns enraizamentos que os fazem ser exatamente isso, lugares. É uma barbearia, só que diferente pela nova territorialização informacional que se institui por um “modo de mediação” lúdico.
Deve ser muito mais interessante cortar o cabelo e/ou jogar nessa barbearia do que nas tradicionais ou aquelas mais modernas que te oferecem água e cafezinho em ambiente asséptico e sem graça. Cortarei meu cabelo lá da próxima vez e, a depender do resultado ;-)), recomendarei a todos!
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