A Cidade da Internet das Coisas

Participo na amanhã do evento Virada Digital, em Parati, no Rio de Janeiro. Falo na mesa sobre “cibercidade e ciberperiferia” e vou tratar do tema emergente da “Internet das Coisas e Cidade”. Vou começar discutindo as cidades inteligentes, a partir do site “citydashboard” do UK e o COR, Centro de Operações Rio (o site é inexpressivo), parceria do Município com a IBM em seu projeto “Smarter Cities“. Em breve coloco aqui nesse Carnet a apresentação.

Visitei na mês passado o projeto (obrigado George Soares pela recepção e gentileza) e é impressionante a estrutura do COR e sua articulação entre 30 instituições do município. O centro foi inaugurado em 31 de dezembro de 2010 começando a operar imediatamente com uma telão de 80 metros quadrados com informações as mais diversas. Ambulâncias, carros de limpeza e outros veículos do município são monitorados por GPS. As companhia de energia mostra em tempo real onde há falta de eletricidade. É possível ver todas as escolar municipais públicas com informações atualizadas, além de ter informações sobre obras programadas e emergênciais, situação de casos de dengue, iliuminação pública, linhas do metrô, entre outras informações.


Sede do COR


Visão do Mídia Rio, tela central com camadas de informações no Google Earth

O centro possibilita a visualização da cidade em tempo real, com informações em camadas georeferenciadas colocadas no Google Earth e com mais de 800 câmeras espalhadas pela cidade podendo detectar os mais diversos problemas (problemas de trânsito, incêndios, desabamentos…). Há um radar meteorológico que faz uma excelente cobertura do município permitindo antecipar problemas de deslizamentos ou alagamentos. O COR pode acionar as sirenes de alarme nas comunidades que possuem esse dispositivo em caso de risco de desabamento de encostas, bloquear ruas e avenidas, mudar o temporizador dos semáforos, em suma, intervir em todas as áreas importantes do município com rapidez e de forma integrada, de acordo com a situação.

O COR emite 3 boletins diários com uma radiografia da cidade, dando um panorama da situação do trânsito, metrô, trens, aeroportos, meteorologia etc. Há muitos dados coletados. Mas, tanto os dados como as imagens não são acessíveis ao público. Não há uma política de “open data” e o público não pode acessar remotamente o mapa da cidade com as suas diversas camadas informacionais. O acompanhamento das informação do COR se dá pelo Twitter, forma escolhida para contato direto com o público em geral.Há uma sala de crise com videoconferência de onde o prefeito pode tomar decisões junto com outras autoridades.


Twitter do COR

Esse projeto é único no mundo. Há outros, mas em menor escala. O interessante é ver as diversas instituições (policia, bombeiros, defesa civil, energia, metrô, limpeza, obras etc), reunidas em um só lugar, tomando decisões em conjunto. Essa é uma das diferenças em relação às outras experiências do projeto “Smarter Cities” da IBM. Os projetos de cidades “inteligentes” parece ser a tendência mundial. Eles apontam para uma maior integração da gestão das cidades com o a Internet das Coisas, onde objetos enviam informações em tempo real e georeferenciadas.


Vídeo sobre o COR na Globo News

Recentemente tenho havido discussões sobre os projetos de “smarter cities” da IBM e questões como vigilância e fé na tecnologia emergem e são mesmo muito pertinentes. Há um potêncial muito grande de controle e vigilância dos cidadãos e de delegação ao dispositivo técnico sobre a precisão das informações e as formas de ação que serão tomadas consequentemente. No entanto, pelo que pude observar, o trabalho do COR está centrado não na vigilância individual, mas na busca por um melhor funcionamento da cidade com o intuito de liberar os cidadãos dos entraves no seu dia a dia. As decisão são instruídas pelos objetos técnicos, mas os sujeitos estão em conversa, juntos em um mesmo lugar, observando as demandas e se posicionando. Não se trata de ser a IBM o novo prefeito, ou de ser uma cidade de ficção científica, ou mesmo o Big Brother da prefeitura da cidade. Há um enorme exagero nessas afirmações.

O perigo está, ao meu ver, não tanto na camada de administração das coisas (está aqui também, se direitos não forem respeitados), mas na vigilância locativa, sutil, exercida pelos diversos sistemas de monitoramento e controle de informações como nas redes sociais e nas etiquetas de rádiofrequência. É importante tomar conhecimento do desenvolvimento da internet das coisas no “sistema” e no “mundo da vida”. E fundamental que projetos criativos, colaborativos, comunitários ou artísticos surjam de baixo para cima.

O importante é que a Internet das Coisas seja também a internet das pessoas. O trocadilho é fácil, e quase sem sentido (como pensar uma internet que não seja das coisas e das pessoas ao mesmo tempo, de forma híbrida?), mas o destaque aqui é para projetos em que o sujeito possa se apropriar dos objetos para produzir e criar, de forma autônoma, outras informações fora da eficiência e da objetividade da gestão pública. O importante é que haja do lado do sistema administrativo um uso justo e respeitoso dos direitos de privacidade e anonimato dos cidadãoes e, do outro, que eles possam criar dispositivos e objetos que ampliem a sua compreensão do espaço e produzam sentido na sua relação com a cidade. Podemos dizer que o COR é a internet das coisas do “espaço concebido”, como proposto por Henri Lefebvre, da representação da tecnocracia que gere o espaço abstrato (engenheiros, urbanistas, administradores…). A Internet das Coisas deve ser desenvolvida também nos níveis do espaço percebido e vivido, no “mundo da vida”.

Na minha fala em Parati, vou insistir nessa última dimensão e tentar mostrar que, para além do automatismo da informação entre os objetos para tornar mais eficiente nossa vida no dia a dia (domótica, transportes inteligentes, comunicação eficaz etc), há a necessidade de produção de novos discursos, de novas narrativas sobre o urbano (do ser perder, de serendipity, do ficar invisível aos sistemas de detecção, de ressaltar ruídos e padrões que escapem da utilidade estreita).

As coisas são sempre aliadas importante nos processos de subjetivação. A Internet das Coisas deve ser também. Nesse sentido, há muito o que fazer já que o desenvolvimento maior é na área do comércio de produtos e serviços que pressupõe um sujeito sempre atento, sempre informado, sempre controlador do espaço. Talvez seja necessário que as coisas falem de outro jeito, que a Internet das Coisas passe por um processo amplo de “arduinoização” (ver aqui também), onde os controladores e os protótipos de conexão dos objetos possam ser feitos de forma aberta e colaborativa para despertar novos olhares e sentidos no urbano.

Na minha apresentação em Parati, vou explicar o que é a Internet das Coisas e a sua importancia mundial. Vou mostrar as vantagens e os perigos dessa conexão generalizada de objetos e como a vigilância e o monitoramento por redes sociais e RFID é, ao mesmo tempo, o que mais assusta e o que pode salvar. Mostro dois vídeos antagônicos, um do típico panoptico foucaultiano e outro da sociedade do controle (Deleuze) para expor as diferenças. Em seguida darei alguns exemplos com alguns projetos de RFID em uniformes de estudantes, uma árvore falante, experiência de rastreamento de lixo e de usuários pelo Foursquare, o uso de GPS automotivo colaborativo com o Waze, do Arduino para projetos artísticos e iniciativas independentes com o meu singelo “memória das coisas“. Em seguida apresento alguns projetos de realidade aumentada (contruindo narrativas visuais no espaço urbano) e termino com um kit de sobrevivência nas cidades na era da computação ubíqua e pervasiva.

Bom, tudo isso em 20 minutos!!

Coloco em breve a apresentação no Prezi aqui.


Redes Sociais, Comunicação, Organizações

 

Escrevi o prefácio do Livro “Redes Sociais, Comunicação, Organizações”, publicado em 2011 pela Difusão Editora e organizado por Ivone de Lourdes Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp) e por Marlene Marchiori, diretora Editorial da associação. Acho que pode interessar.

Prefácio

André Lemos (1)

Interpersonal networks and institutional organizations are assemblages of people; social justice movements are assemblages of several networked communities; central governments are assemblages of several organizations; cities are assemblages of people, networks, organizations, as well as of a variety of infrastructural components, from buildings and streets to conduits for matter and energy flow; nation-states are assemblages of cities, the geographical regions organized by cities, and the provinces that several such regions form.

Manuel DeLanda (2006, p. 5-6)

Uma organização é um conjunto mais ou menos estável de atores em rede com o objetivo de realizar uma ação. A estabilidade se dá pela harmonização da rede, pela resolução de conflitos e de controvérsias. Resolver controvérsias é estabilizar e criar caixas-pretas. Um livro acadêmico deve ser resultado da tentativa de abrir caixas-pretas, de questionar estabilidades, de fomentar e expor controvérsias sobre um determinado assunto. É o que se propõe esse livro: discutir as organizações tendo por filtro as redes sociais e a comunicação, em uma época de amplo desenvolvimento de redes sociais eletrônicas e da banalização de complexos artefatos tecnológicos.

Certamente, devemos pensar as organizações por suas dimensões da comunicação e das redes sociais. E isso desde as primeiras organizações humanas. Toda organização é um conjunto, uma rede de atores em processo de comunicação (mediação, tradução), buscando realizar uma ação, constituindo o cerne mesmo do social. Podemos pensar, como sugere a “teoria ator-rede – TAR, que as organizações são associações. Ou, como sugere a ”assemblage theory” – AT, que elas são “montagens” ou conjuntos. As duas teorias tem muito em comum e podem ser úteis para pensar as organizações contemporâneas (2).

Toda associação/organização busca manter-se no curso de uma ação. Ela visa estabilizar fronteiras e equilibrar suas relações com diversos actantes (3), internos e externos, humanos e não-humanos. As organizações procuram atingir equilíbrio e estabilização. Quando isso acontece, o conjunto se homogeneíza e a caixa-preta se forma. Para a TAR, caixa-preta é uma associação/organização que funciona de forma tão coesa que desaparece das preocupações. Ela pode ser um objeto técnico, um conceito ou uma empresa. Uma boa organização/associação é aquela na qual sua ação principal (o seu objetivo maior) se realiza sem que sua estrutura interna apareça muito. Ela é, assim, um intermediário e não um mediador (4). É como escrever ese prefácio sem ter que pensar no meu computador. Se ao escrever o computador funciona bem, ele é um intermediário e minha atenção está toda no texto. O computador é, assim, uma caixa-preta.

Mas tudo pode mudar. E tudo muda. A máquina, essa organização complexa de actantes humanos e não-humanos, pode travar, desligar ou não funcionar mais. O que era fundo vem à tona. Ela não se comporta mais como um intermediário, mas como mediador, produzindo ação, traduzindo outros actantes, perturbando a ação anterior (escrever este texto).

Consequentemente, o computador passa a revelar suas redes complexas, atravessando as dimensões local e global, o passado, o presente e o futuro. Questões emergem. O que está causando o defeito? Uma peça defeituosa fabricada da China? Um bug no software? Uma pane na rede elétrica? Problemas na placa-mãe ? Qual seria o problema e o que é mesmo uma placa-mãe? Erro de projeto do computador, da memória…? Quem vai consertar? Onde ficam as empresas de assistência técnica? Quais são os meus direitos? Etc. As questões são de diversas ordens e se ramificam: questões técnicas, de normatização, de mercado, de política, de usabilidade, de inclusão social… A caixa-preta se abre e as redes de actantes começam a aparecer (5).

Caixas-pretas podem ser computadores, empresas, conceitos, dados científico, estereótipos… Uma organização/associação é um conjunto, uma montagem de elementos heterogêneos (humanos e não-humanos) composto por dinâmicas redes (de atores), por relações (sociais) e por complexos fluxos comunicacionais (mídias) que buscam estabilização. Pensar as organizações/associações é, necessariamente, pensar seus fluxos, suas redes e seus processos comunicacionais. Os cientistas sociais devem tentar abrir caixas-pretas, questionar conceitos e situações estabelecidas, rever fronteiras e analisar os processos territorializantes (reforço) e desterritorializantes (descontrole), para discutir a estabilização das organizações.

É muito difícil, senão impossível, desatrelar rede, social, comunicação e organização. Hoje a questão é ainda mais crítica, já que entramos em uma era da intercomunicação planetária e das redes sociais digitais (6). Pela linguagem da TAR, podemos dizer que rede é o que se forma da comunicação entre actantes em uma organização temporária de eventos. Comunicação é a mediação entre actantes em uma rede organizada no espaço e no tempo pela troca de mensagens e/ou informações. Organização é uma associação, uma rede de atores (humanos e não-humanos) temporariamente estabilizada por fluxos comunicacionais e trocas informacionais. Social é o que surge das associações.

As redes técnicas sempre marcaram o desenvolvimento das organizações. Hoje, as redes telemáticas são a infraestrutura central da cultura do século XXI, presentes em todas as áreas da sociedade. É fácil perceber as grandes transformações pelas quais passam as instituições contemporâneas com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação: bancos, universidades, laboratórios, empresas jornalísticas e de entretenimento, administrações públicas e privadas… É difícil encontrar, nas grandes metrópoles contemporâneas, organizações que não estejam sujeitas às influências das redes sociais digitais e da comunicação telemática.
Essa conjuntura demanda esforços acadêmicos consideráveis. As organizações têm, agora, instrumentos poderosos de visualização de dados (para monitoramento, controle, vigilância), de comunicação entre os diversos atores, de acesso aos usuários e consumidores de seus produtos (veja o uso do Twitter para esse fim), de memória institucional, de processamento de informações em tempo real, de comunicação multimidiática planetária (textos, sons, imagens fixas e animadas). Elas têm utilizado as redes e as mídias digitiais para reforçar laços, estabilizar fronteiras, abrir caixas-pretas e inovar.

Para as organizações contemporâneas, as novas mídias, as redes sociais e a comunicação global são um pharmaco, ao mesmo tempo veneno e remédio. Elas servem tanto para potencializar e estabilizar as redes e os fluxos comunicacionais, aumentado sua coerência interna e ampliando a eficácia de sua ação externa, como também para fomentar controvérsias, revelar inconsistências e visualizar problemas. Isso pode levar, por um lado, a um novo arranjo organizacional, com inovação e fortalecimento (criação de uma nova organização, diferente ou maior do que a anterior), ou, por outro, à desestabilização e morte (7). As redes, as mídias sociais e a ampliação dos processos comunicacionais não vão, necessariamente, garantir a estabilidade das organizações. Elas são ferramentas para a inovação, para a comunicação, mas também para abertura de caixas-pretas.

O livro Redes sociais, comunicação, organizações é uma contribuição valiosa nesse campo. Como afirmei no início, ele procura abrir caixas-pretas. Os organizadores oferecem ao leitor uma abordagem ampla e diversa sobre o assunto, fomentando controvérsias e debates interessantes. Os artigos, que compõem seus capítulos, foram escritos por pesquisadores de altíssimo nível. Eles versam sobre, entre outros temas, a dinâmica social das redes, a interação social, a economia e a globalização, o conhecimento, o espaço público, apontando para desafios atuais nesses domínios. A obra apresenta, também, interessantes análises de casos. O livro é, certamente, de interesse para gestores (de organizações públicas e privadas), professores, pesquisadores e estudantes na área das ciências sociais, bem como para o público em geral, interessado em compreender as novas organizações da sociedade em rede.

NOTAS

1. Professor associado da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom-UFBA), pesquisador “1 b” do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

2. Este não é um livro sobre a TAR ou a AT. Essa é a perspectiva adotada neste prefácio. Não terei tempo aqui para expor as duas teorias em profundidade, nem mesmo as suas diferenças. Ver Latour, Bruno. Reassembling the social: an introduction to actor-network theory. New York: Oxford University Press, 2005. e DeLanda, Manuel. A new philosophy of society: assemblage theory and social complexity. London; New York: Continuum, 2006.

3. Para a TAR, um actante é tudo aquilo (humano, não-humano) que produz ação, criando mediações e traduções.

4. Essa diferenciação não é sem problemas. Latour considera que mesmo os intermediários produzem ação. Assim, só há mediadores. Mas podemos entender o intermediário com um mediador harmonizado, sem conflitos e controvérsias. Já o mediador é um actante a plena força, mediando e traduzindo outros actantes, produzindo ações e diferenciações.

5. Rede, para a TAR, pode ser definida como a associação temporária e irredutível que se forma na ação dos actantes. Uma rede não é aquilo que oferece o caminho para as conexões (como rede de esgoto, de água ou de telecomunicações). Ela é o que se faz e se desfaz das associações.

6. Frequentemente, o termo “redes sociais” é utilizado para se referir, sem muita precisão, às redes formadas por pessoas, tendo como base tecnológica as novas mídias digitais (Twitter, Facebook, blogs e demais fóruns de discussão nas redes telemáticas). Mas só há social em rede e toda rede é social, mesmo associando não-humanos. Essa perspectiva é de Gabriel de Tarde, para quem “toda coisa é social”, diferentemente de Durkheim, para quem “o social é uma coisa”. Veja-se a polêmica protagonizada por Bruno Latour no interessante vídeo The Tarde/Durkheim debate – em.

7. Para uma análise mais completa sobre a formação desses conjuntos, ver DeLanda (2006).


Movimentos Sociais 2.0

Movimentos Sociais 2.0
Não há líderes, mas ideias circulando.

As redes sociais e a internet trazem um novo paradigma comunicacional. Diferentemente dos mass media (TV, rádio, jornais impressos, revistas) a comunicação flui de forma descentralizada, mais horizontal e sem um pólo de emissão que controla o fluxo das informações.

A cultura das mídias de massa se caracterizou pela centralização da informação por editores que devem selecionar o que é, ou não, de interesse público. Assim sendo, os meios massivos atuam de forma a agendar e a enquadrar o debate público. Por agendamento podemos compreender a pauta que os meios de massa propõem ao público para discussão. É aquilo que conversamos na segunda-feira após assistir ao Fantástico no domingo. Por enquadramento, entende-se a forma como a notícia é contada e veiculada. Ela baliza a maneira como a opinião pública a recebe e a distribui. É a posição (política, ideológica) que determinado veículo adota ao difundir uma informação.

Nesse sentido, podemos dizer que nas mídias de massa, como a TV aberta, os jornais e o rádio, o fluxo de informação flui de “um para todos”, de pólos de emissão centralizadores, para uma massa de leitores. Os meios de comunicação social formam uma audiência, um ou “o” público. Com esse poder, uma rádio local pode promover o pânico quando Orson Wells lê, em 1938, um texto de ficção científica (A Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells).

Com as novas formas midiáticas em jogo com a internet, outro modelo comunicacional entra em circulação, muito próximo e bastante parecido com o da conversação. Não há “um” pólo claro de emissão, nem a formação de “o” público receptor, constituído nos mesmos “moldes”. As informações nas redes circulam hoje de forma mais transversal e são potencializadas por cada receptor que torna-se, por sua vez, também um emissor. Ele não é mais apenas um “leitor – receptor”, como o público dos mass media. Ele é produtor e distribuidor de informações. Esse novo modelo, que chamo de pós-massivo, não tem um pólo centralizador da emissão, pulverizando as formas de agendamento e de enquadramento. Uma mensagem circula por diversos mediadores (diferente da informação massiva), ganhado características próprias.

O agendamento e o enquadramento não deixam de existir, mas tornam-se mais difusos. Ao modelo massivo “um – todos”, aparece com a Internet um modelo pós-massivo, “todos – todos”. A liberação da emissão (todos podem, em tese – e não mais apenas os centros anteriormente legitimados como as grandes empresas jornalísticas e de radiodifusão, ou as assessorias oficiais de governos e governantes – produzir e distribuir informação sem pedir autorização ou concessão do Estado) e a comunicação por múltiplas conexões, ampla e planetaria (circulando por diversos canais e sob diversas modalidades – imagens, sons, textos), reconfiguram a paisagem midiática contemporânea.

Não se trata de um modelo (pós-massivo) substituindo o outro (massivo), mas da convivência dos dois de forma às vezes tensa, às vezes complementar. Nesse sentido, a paisagem comunicacional contemporânea é mais próxima do princípio da “comunicação” (trocas bidirecionais) do que do princípio “informacional” (unidirecional e massivo). O poder massificador, de “agenda setting” ou de enquadramento não existem da mesma forma nos meios pós-massivos. Há “remediação” (ação de formas midiáticas umas sobre as outras), interferências mutuas, recursividades, mas não se pode dizer que o poder unilateral e massivo impere sem entraves hoje em dia.

Se isso é verdade no campo da circulação de informação por empresas jornalísticas ou pessoas comuns, o mesmo acontece com a dimensão política dos movimentos sociais que usam as ferramentas da internet. O conjunto de movimentos sociais é complexo e vasto. Há os movimentos sociais “clássicos”, que funcionam a partir das instituições da sociedade civil organizada como partidos políticos, organizações de classe etc. Nesses, pode-se identificar um comando e intenções precisas. Eles continuam a existir e são fortes. No entanto, gostaria de destacar aqui aqueles que surgiram nos últimos anos (muitos de forma espontânea, sem uma origem muito precisa), e que usam a internet de maneira descentralizada e sem líderes, para as mais diversas reivindicações. Muito autores chamam esses de “movimentos sociais 2.0”, fazendo referências as tecnologias digitais em rede. Não há líderes, não há partido político e, em muitos casos, os objetivos não estão muito claros.

Dada essa característica descentralizada da comunicação contemporânea, esses novos movimentos sociais passam a utilizar dispositivos (computadores, tablets e celulares) e redes e mídias sociais da internet (SMS, Facebook, Orkut, Twitter, YouTube, Blogs) para fazer valer suas vozes e protestar. Antes, tomar o poder significava ter em mãos as mídias de massa, já que assim as mensagens eram distribuídas de forma centralizada e os líderes natos (ou impostos), podiam fazer valer suas ideologias para um público receptor, leitor. A comunicação transversal era limitada, e o poder do líder tinha como canal o poder central da mídia.

Nossa época é uma época de crise das ideologias, da ausência de líderes e de canais de comunicação exclusivos ou centralizados. A pulverização é a característica da época. Agora todos são “leitores e escritores”. Saímos da cultura do “read only” para uma cultura do “read and write” (Lessig). Diversos movimentos sociais 2.0 têm ocorrido pelo mundo, usando a internet, sem que haja uma reivindicação de um líder, de um partido político ou de uma classe precisos. Quem é o líder do movimento “Occupy” que se espalhou pelos EUA e Europa no fim do ano passado? Quem são os líderes da revolução árabe (como as que ocorreram na Líbia, na Tunísia, no Marrocos, utilizando o Facebook, o Twitter, os blogs e o YouTube); ou do movimento dos “indignados” na Espanha que ocorreram em 2011? Quem foram os líderes dos movimentos conhecidos como “Smart Mobs” na Espanha, que mudaram os rumos das eleições após os atentados às estações do metrô em Madri, em 2004, ou nas Filipinas em 2001, quando uma enxurrada de SMS causou uma movimentação forte que derrubou o presidente Joseph Estrada? Quem são é quem é o líder dos Anonymous?

Não se trata de uma dificuldade de se identificar os líderes. Trata-se efetivamente de novas formas de organização que não comportam mais as centralizações pessoal ou partidária. É uma estratégia, é uma forma mais eficaz de agir. Lembremos que as redes de computadores são ferramentas de circulação e descentralização da informação. A internet surgiu para isso. Para descentralizar a informação em plena guerra fria. Os movimentos sociais 2.0 reconhecem nessas características uma força que pode ser usada em prol de uma causa. Não podemos identificar os líderes, pois eles simplesmente não existem. Instituir uma liderança nesses movimentos é apenas um mecanismo anacrônico de imputar a culpa a um “bode expiatório”.

Não há líderes, mas a constituição de multidões “inteligentes” (que usam as novas tecnologias) para fazer circular informações e ideias, como em uma ampla conversação. Nesse processo, novas vozes surgem e se agregam, fazendo circular novas informações, novas ideias, sentimentos, protestos e reivindicações. Não se sabe exatamente de onde ou como elas surgem. Mas elas circulam rapidamente, de forma viral. O poder emerge justamente daí. A força das redes sociais como Facebook, Orkut, Twitter está justamente nessa circulação descentralizada, sem líderes.

Não podemos mais falar em lideranças no sentido clássico do termo (um líder carismático, um partido político, um “messias”), mas em multidões e coletivos inteligentes que se articulam, sem centro, em prol de uma causa. Dificilmente movimentos que nascem nas redes sociais como o Facebook ou o Twitter têm uma liderança. Se tiver, eles se desfazem. Se um partido tentar tirar vantagem do movimento, ou um líder tentar tomar as rédeas dos movimentos, rapidamente os diversos atores envolvidos reagem e abandonam a causa. Esse tipo de articulação não tem eficiência nas novas redes sociais. Isso funcionava bem nos meios de massa. E ainda funcionam. Mas não nas redes sociais da internet. Imputar a liderança a alguém que participa dessa cadeia de circulação de idéia é como dar um tiro no escuro. Ao atingir alguém, diz-se: “É esse o líder”.

Para referências sobre os temas aqui tratados, ver:

África e a “Revolução 2.0”: Activismo em rede e militância no terreno., in http://passapalavra.info/?p=39994

A tinta vermelha: o discurso de Slavoj Zizek no Occupy Wall Street – http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/esp_1659/a+tinta+vermelha+o+discurso+de+slavoj+zizek+no+occupy+wall+street.shtml

Bolter, J. and Grusin, R., Remediations – Understanding new media., MIT Press, 2002.

Castells, sobre Internet e Rebelião – http://www.outraspalavras.net/2011/03/01/castells-sobre-internet-e-insurreicao-e-so-o-comeco/

Castells, M. No es crisis, es que ya no te quiero. http://eltallerdelaeam.com/manuel-castells-en-la-vanguardia-crisis-y-sistema/

Lawrence Lessig on read/write culture – http://lwn.net/Articles/199877/
Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multitude. War and Democracy in the Age of Empire., Peguin Press, 2004/

Rheingold, Howard (2002). Smart Mobs: The Next Social Revolution. Basic Books.

Revolução 2.0: da crise ao comum – http://www.quadradodosloucos.com.br/1939/revolucao-2-0-da-crise-ao-comum/


Entrevista Gazeta do Povo


Gazeta do Povo, Caderno G, 06/03/2012

Dou muitas entrevistas, mas é raro os jornalistas serem fiéis ao que digo. O jornalista Rafael Costa da Gazeta do Povo de Curitiba fez um excelente trabalho. Abaixo reproduzo a entrevista que faz parte de um número especial sobre “As novas formas de ver, escutar e pensar”. Vale conferir o caderno.

Quando as máquinas dizem o que importa
Publicado em 03/03/2012 | RAFAEL RODRIGUES COSTA

Você está trocando mensagens com amigos e, para sua surpresa, os anúncios publicitários que surgem no canto da tela têm a ver com a conversa. Entra em um site de livraria e recebe sugestões que estão relacionadas àquilo que andou lendo e pesquisando nos últimos tempos. Outro site diz que, se você gostou do último disco de Chico Buarque, talvez também vá gostar do novo do Lenine. Tudo automático. É a internet, que sabe cada vez mais sobre você, e quer mostrar a coisa certa na hora certa.

Essa personalização é possível graças aos agentes inteligentes – softwares que reconhecem os padrões de comportamento dos usuários e se adaptam ao feed-back que recebem da massa de internautas conectados. São os chamados sistemas de recomendação, que cruzam dados que não param de chegar e conseguem resultados cada vez mais sofisticados. Os portais de busca também se utilizam deles para ficarem mais eficientes, e assim facilitarem a navegação no dilúvio informativo da internet.

Mas a presença desses sistemas em um número crescente de serviços levanta questões importantes para pensadores da era digital. A máquina filtra informações e torna invisível o que, supostamente, não interessa aos usuários. Além de armazenar informações pessoais à revelia das pessoas – que podem prejudicá-las no futuro –, não seria isso muita responsabilidade para robozinhos incapazes de demonstrar bom senso?

Mediação que isola

“Essas recomendações são interessantes, mas acabam com uma possibilidade que é a grande riqueza das redes e do ciberespaço: o encontro de coisas que não se está procurando necessariamente”, diz o professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, André Lemos, que desde 2000 alerta para o fechamento da web por iniciativas como a dos portais, que “aprisionam” os usuários com sua diversidade de serviços, e os desencoraja a “flanar” pela rede.

“É a experiência da livraria e da biblioteca. Você vai procurar um livro específico. Mas o interessante é passear pelas prateleiras, ver algo que não estava procurando e se surpreender. A internet seria uma livraria gigantesca, onde você encontra coisas as mais diferentes possíveis. Mas chegamos a uma era em que essas indicações personalizadas podem minar, no futuro, essa possibilidade de encontrar coisas ao acaso”, diz Lemos.

Com softwares dizendo o que é relevante, a vantagem da web em relação ao modelo de mídia anterior – em que os responsáveis por fazer a curadoria da informação eram os meios de comunicação de massa – fica em xeque. “Não estou dizendo que a diversidade vai acabar, prevendo um mundo cinza e homogêneo”, diz Lemos. “A questão é o uso que se vai fazer disso. A potência transformadora está sempre aí.”

“Somos artificiais por natureza”

Há culto à tecnologia em toda parte. Seja pela sedução de produtos sempre mais mágicos que seus anteriores, seja pelas promessas da ciência, que chegam a falar em imortalidade. Mas basta lembrar de famosas distopias do cinema, como o clássico Metrópolis (1927), passar pelos robôs malucos de 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Blade Runner – O Caçador de Androides e chegar à febre da trilogia Matrix para atestar a relação de medo e fascínio que habita o imaginário coletivo e que, volta e meia, surge no cotidiano da vida nos anos 2010.

Gente que teve de subir e descer muita escada atrás de livros em bibliotecas anda preocupada com o comportamento aéreo de jovens que têm, na palma da mão, ferramentas poderosas como o Google. Cientistas divididos entre otimismo e pessimismo: o hipertexto instiga a inteligência ao permitir uma linguagem multilinear, como afirmam entusiastas na linha do filósofo francês Pierre Lévy? Ou enfraquece processos cognitivos e nos tornam mais superficiais, como sugere Nicholas Carr? Por via das dúvidas, há quem prefira temer a tecnologia.

“Isso existe desde a antiguidade”, diz o professor da Faculdade de Comunicação da UFBA e pesquisador do CNPq André Lemos. De acordo com o acadêmico, a relação conflituosa existe desde os tempos de Aristóteles e Platão. “Nos mitos, a técnica era sempre ensinada pelos deuses. Eles ensinavam a usar as tecnologias como a agricultura, o fogo. Mas sempre que alguém tentava brincar de deus, vinha uma punição”, explica. “Essa relação ambígua continua hoje. E os objetos continuam sendo mágicos. Usamos computadores, mas geralmente não temos ideia de como funcionam”, diz.

Embora a própria tecnologia da escrita possa ser considerada originária de alterações nas capacidades mentais, como o pensamento racional e analítico, o e-book já é visto com desconfiança em relação ao livro de papel, mesmo que as únicas mudanças digam respeito à mobilidade. “O medo e o fascínio são mesmo estruturantes da nossa relação”, diz Lemos.

Para alguns, a solução parece ser o afastamento. Mas, de acordo com Lemos, não faz sentido fugir da técnica. “Não há o homem sem essa dimensão”, diz o pesquisador. “O primeiro da nossa espécie foi o Homo habilis. A manipulação do artefato mudou o córtex cerebral. Transformamos a natureza para habitar. A dependência da técnica é constitutiva do homem. O que acontece é que estamos vivendo o ápice dessa transformação”, diz Lemos.

Risco

Por outro lado, o risco da dependência realmente existe. Há uma sobrecarga de novos dispositivos sendo lançados a todo momento, e eles estão cada vez mais presentes no cotidiano. O ritmo e a quantidade em que surgem novas informações nestes aparelhinhos têm contornos verdadeiramente neuróticos. E, embora seja interessante que a dependência hoje seja em relação a dispositivos de comunicação – o que remete a uma dimensão social, ao contrário da lógica produtiva dos produtos de tempos passados –, é preciso maneirar, de acordo com Lemos. “Não podemos ficar reféns dos artefatos”, diz.

“Nosso perigo não é a técnica. O que temos de fazer hoje é achar o ponto de recuo – nos desconectarmos, pensarmos criticamente. O que vai definir o sujeito não é o seu afastamento dos objetos para achar a pureza interior. Mas sim, como é que nos vinculamos às coisas” diz o pesquisador. “A forma como nos relacionamos com estas tecnologias é o que define a nossa dignidade.”


Carnet de Notes – 11 anos!

Onze anos do Carnet de Notes. Cada ano é sempre um prazer renovado. Cultivo esse Carnet como um jardim. Ele é minha casa.

Um blog, como todo site e como toda fundação de um lugar, exige esforço. Esforço de construção e de manutenção para fazer dele um lar. Construção e lugar são dois aspectos destacados pela filósofa Anne Cauquelin no seu “conjuração dos sites” (in Parrochia, D., Penser les Réseaux., Paris, Champ Vallon, 2001. pp. 114-127), para a análise dos sítios, incluindo aí os “sites“, os sítios no ciberespaço.

Vejamos.

Sobre o esforço construtivo:

“Tout d’abord, il (le site) marque une situation, c’est à dire une construction, dépendante d’une décision ou volonté de faire. Le site est issu d’un projet d’établissement. L’origine, guerrière, d’une vision panoramique, oriente cet établissement vers les cimes: il faut dominer l’ennemi, prévoir ses mouvements; la colline, le promontoire, le roc sont bons à investir, comme la courbe du fleuve et les falaises qui en suivent parfois le cours.” (p.116).

Sobre o lugar-casa (oikeion topos):

“Dans cette visée le site est d’abord une maison, un home, terme que l’on retrouve quand il s’agit de retourner à la page web (home page), on y est chez soi, dans ses meubles, pourrait on dire. Il faut une clef pour entrer, un guide pour trouver le chemin d’accès. La maison a une adresse. Et, comme une villa de banlieue, souvent un nom. Avec l’aspect maison du site, on est bien dans la problématique du lieu propre d’Aristote: chacun chez soi, dans son oikeion topos. Rassuré.” (123)

Estou no meu lugar próprio, que tem um nome. Esse Carnet é meu oikeion topos no ciberespaço!


Pensamento

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Pensamento (de quem?) do domingo sobre direito autoral e a ideia de autor. Para diminuir a nossa prepotência, deixo essas passagens do livro “O senhor Valéry e as Conferências”, do escritor português Gonçalo Tavares, a partir do verso:

“Tenho tantas coisas na minha cabeça, não pode ser para mim”, de Marin Sorescu.

“O que se apresenta é a tese de que os pensamentos de um homem não são sua propriedade, ou melhor, podem ser sua propriedade – eventualmente temporária -, mas não nascem dentro do seu organismo. Os pensamentos como que nasceriam no exterior, e de lá entrariam na cabeça. A criação ou a produção de pensamentos não seria uma produção privada, mas sim coletiva ou sem sujeito produtor. Os pensamentos seriam produzidos exteriormente (na atmosfera, por exemplo) e transferidos depois para cada pessoa. É esta a tese, ou uma possível tese.

(…)

Depois de perceber que vem dos macacos, depois de perceber que o mundo onde vive não é o centro do universo, ao homem ainda faltava uma humilhação: chegar à conclusão de que aquilo que pensa não é produzido por ele, mas sim por qualquer estrutura exterior. A Terra não é o centro e nem os teus pensamentos são teus. É duro, sem dúvida, ouvir isso, e daí a angústia com que se lê este inteligente verso de Sorescu”. (pp.46 – 47)


Internet Segura – Campus Party 2012

Minha fala de 15 minutos na mesa redonda “Conectando Gerações e Descobrindo o Mundo Digital Juntos… com Segurança”, na Campus Party, terça, dia 7 de fevereiro. Agradeço à Safernet e especialmente ao Rodrigo Nejm pela oportunidade.

“Le besoin de sécurité asphyxie l’âme” – Alexandre Jardin

No hotel onde estou hospedado o elevador exige o uso da chave do quarto para se locomover. Dentro do elevador, um monitor com news me faz olhar exatamente para onde está a câmera de vigilância. Essa hiper segurança me diz que estou em um lugar muito perigoso que justifique essas medidas? Ou tornou-se um comportamento padrão, exigido por seguradoras? De uma forma ou de outra, mais instrumentos de segurança aumentam a minha sensação de insegurança, seja pelos dados e imagens que são retirados de mim, seja pelo perigo real de atentado à minha integridade física.

E no monitor dentro do elevador leio a notícia: “Redes sociais são mais tentadoras do que álcool e cigarro”. Pesquisa da Universidade de Chicago, se não me engano. Ora, algo que é mais tentador do que duas das drogas que mais matam, incluindo as drogas ilícitas, só pode ser ruim e ser controlado.

Estou vindo de Salvador onde uma greve da polícia militar faz imperar o terror. Salvador é insegura, mesmo com todo o aparato policial. Mas agora as pessoas estão ainda mais assustadas. Blindados e homens armados trazendo mais segurança e sensação de mais insegurança. A segurança em Salvador, comparado com países europeus, Canadá, EUA, é inexistente. Mas vivemos nessa insegurança e nos acostumamos à ela. Vivi na Europa e no Canadá e os europeus e canadenses sentem também insegurança.

A noção de segurança é cultural e está diretamente vinculada à sensação de medo e insegurança. Mas ela é também temporal. O que é seguro hoje, pode não ser amanhã. Por exemplo, nunca usei protetor solar. Essa segurança não se colocava. Hoje é obrigatório. Não usava cinto de segurança no carro! Hoje é lei. Devemos assim pensar sempre em níveis de segurança. A segurança é sempre relativa e deve ser vista dentro de contextos culturais, sociais e temporais. Dispositivos de segurança devem ser vistos como phármacos, ao mesmo tempo veneno e remédio.

Vejamos a Internet. Se formos pensar em uma internet segura, ela seria também totalitária, controlada, sem liberdades individuais e de informação. Nesse sentido a internet chinesa deve ser super segura, mas não é um modelo a ser copiado por países livres e democráticos.

Podemos dizer que as formas de sociabilidade em rede, ou as redes sociais são: Formas de sociabilidade onde há sempre exposição de si, confiança, imitação, construção identitária, gerenciamento de impressões, negociação de níveis de privacidade e de anonimato. No tempo podemos usar três ideais-tipo dessas “redes sociais” que não são necessariamente excludentes.

Século XVIII/XIX – bares, cafés, praças. Espaços público e semi-público, exposição de si no corpo a corpo, gerenciamento de impressões em classes bem demarcadas; onde o que se faz não é armazenado como dados ou perfis. Começa uma biopolítica que passa a recrutar dados pessoais para controle, monitoramento e vigilância.

Século XX – shows, shoppings, praças, praias. Exposição de si no corpo a corpo, gerenciamento de impressão multicultural, fluida e pret-à-porter; onde o que se faz começa a ser armazenado como dados ou perfis. Expansão de registros imagéticos, sonoros, e de dados pessoais para controle, monitoramento e vigilância.

Século XXI – Internet. Exposição de si na construção de perfis em comunidades de interesse e de amigos. Fim do século XX as comunidades virtuais temáticas, anônimas e despersonalizadas. Hoje, início do século XXI, sites de redes sociais, em serviços como Google, Orkut, Facebook, Twitter. O que se faz é armazenado como dados gerando perfis como fonte de riqueza para controle, monitoramento e vigilância de empresas, governos, polícias, marketing e publicidade.

Mineração de dados é atentado à privacidade e ao anonimato. Sujeito gerador de perfis pró-ativos. Segurança é controle, monitoramento e vigilância. Insegurança é controle, monitoramento e vigilância. Muita segurança é um veneno que aniquila a vida, inibe relações, gera desconfiança, criando pânico e mais insegurança. Sempre que falamos de segurança pressupomos um sujeito inseguro, no passado, no presente e no futuro (exemplos: câmeras de vigilância, protetor solar, cinto de segurança ou proibição do acesso de jovens à internet). Por outro lado, a não existência de dispositivos de segurança pode gerar barbárie, vandalismo, criminalidade, desrespeito aos direitos humanos e a dignidade da pessoa.

A internet é uma rede de controle de protocolos e de vitalismo social. A segurança dos protocolos é o que garante o funcionamento da rede. A vitalidade social é o que dá sentido a esses protocolos e a expansão da rede.

Conectar gerações e descobrir o mundo juntos não pode ser apenas uma expressão que sirva para que as gerações que detém o controle e os protocolos exerçam um poder totalitário sobre as gerações mais jovens, impondo visões de mundo e formas comportamentais. Esses últimos criaram a rede e a mantêm como associação, ou seja, como o que podemos chamar de “rede social”.

Forma de contestar segurança são formas de impulsionar inovações, garantir liberdades, reforçar laços de colaboração e participação. Exemplos:

Hacking (Anonymous e Megaupload),
Redes P2P,
Discussão sobre copyright,
Ciberativismo por redes sociais contra regimes políticos (exemplos: primavera árabe, porta do sol na Espanha, movimento occupy),
Movimento contra acordos como o SOPA, PIPA, ACTA ou lei Azeredo.

Nesses casos, empresas e governos falam em nome da segurança. Mas de que segurança estamos falando? Essa relação não é a de conectar gerações e descobrir um mundo juntos, mas de imposição de uma estrutura que freia a inovação, as redes de sociabilidade, a liberdade e a cooperação em nome da “segurança” de um modelo em vias de transformação e falido.

O mesmo podemos dizer da relação dos pais (felizmente, alguns deles) com seus filhos onde os primeiros, em nome da segurança dos últimos, impõem visões de mundo, desconhecem a revolução digital e inibem a expansão da “inteligência” compartilhada e colaborativa, produtora de conteúdo que está em marcha (escrever, ler, fotos, vídeos, músicas), instituindo a repressão pelo controle e vigilância do suposto sujeito inseguro que não merece confiança. Deve-se estabelecer uma relação de confiança, de diálogo e de abertura e pensar numa educação para os meios e não apenas para a internet.

Deve-se reconhecer a questão da internet segura como um phármaco. A dose é a chave para, por um lado, garantir a criatividade, a colaboração, sociabilidade, a inovação e, por outro, inibir a violação do direito das minorias ou dos mais vulneráveis. Conectar gerações e construir juntos pode ser interessante se não for apenas uma frase de efeito, ideológica, totalitária que obrigue os mais jovens a obedecer a força dos mais velhos (geração, indústria, governos) que estão no comando.


Salvador é uma mentira?

Salvador é uma mentira?

Bom, isso depende do ponto de vista, e se esse ponto de vista for míope ou for muito preciso e focado, ou seja, muito verdadeiro, mais mentiroso é o próprio enunciado.

Mas essa mentira anunciada é uma mentira, isso sim. Sem ser sofístico, a verdade das nossas mazelas estão abertas e ninguém de boa fé acredita e vive as mentiras de Salvador como uma verdade. Sabemos das verdade e das mentiras. Todos temos consciência, só não temos as mesmas metas e cronogramas. Vivemos de fato a verdade de uma mentira que se quer impor. Mas essa mentira é múltipla e complexa.

Não podemos esquecer que tudo é história, essa luta de argumentos sobre o que é mentira e o que é verdade. A sociedade baiana (e soteropolitana) sempre se posicionou contra mentiras e verdades e sempre buscou sustentar outras tantas, mentiras e verdades para viver. Precisamos todos de verdades, mentiras, esquecimentos e arrependimentos para viver e seguir em frente. Isso reflete o nosso mal desenhado desejo de ser um (uma pessoa, um povo) e todos os desejos de ser um (uma pessoa ou um povo), ou quase todos, devem ser respeitados: desejo de ser feliz, de dançar e cantar, de ir mais devagar, de ser menos civilizado, de ser parcimonioso e ingênuo, de burlar as pequenas regras sem querer fazer mal a ninguém…Essa mentira é a nossa verdade. Essa verdade é sim e também a nossa mentira.

É nesse balanço que um povo se constrói, se identifica e se destrói.

Estamos em crise e isso é bom. A mentira e a verdade estão por todos os lados.

Ontem estava em São Paulo e o calor era do Rio, a riqueza da Suíça, a simpatia que sempre associei ao paulistano desaparecera e imperara o mal humor…Uma mentira essa cidade, pensava. Não há amor em SP, dizia Criolo no meu “baladeur”. Mas, mentira, as pessoas se amavam ali. E era também verdade, muita pose, muita pressa, muita busca pelo dinheiro…ninguém se ama realmente! A feia São Paulo estava até bonita com o sol e o céu azul com estrelas a noite. Mas isso é outra mentira, ou outro ponto de vista: a cidade nem é feia, nem estava mais bonita! SP não é nem verdade, nem mentira. Nenhuma cidade é mentira, nenhuma cidade é completamente uma verdade.

Uma cidade não é uma mentira ou uma verdade, uma cidade é uma potência.


SOPA BLACKOUT

#SOPAblackoutBR

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Hoje, dia 18/01/12, diversos sites, blogs e redes sociais irão aderir ao #SOPABlackoutBR e ficar indisponíveis como forma de protesto!

Motivo: mostrar às autoridades Brasileiras e as grandes corporações a posição da sociedade brasileira em relação ao “SOPA” nos EUA e demais práticas, normas, medidas judiciais e leis que ameaçam a liberdade na Internet no mundo e no Brasil.

http://meganao.wordpress.com/sopa-blackout-brasil/

PS. não consegui colocar esse Carnet indisponível por estar sem computador, mas considerem que ele está assim hoje.