Boina

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A lembrança persiste na sua boina pendurada na arara junto com a minha capa de chuva que comprei para assistir o show do Radiohead em Montreal em 2008. Dormi hoje olhando para a composição (capa e boina na arara) e o que via era uma misto de você e eu. E eu estou a cada dia mais parecido com você. A boina veio também do Canadá, mas esta fora comprada na gélida Edmonton, como um presente de Natal. É a segunda boina que te ofereço de outras terras. Você adorava boinas e bonés. Eu gosto também, mas quando coloco me sinto tão parecido com você que evito, para não evocar a sua presensa a cada vez que passo por um espelho. A mais antiga veio de Londres, mas comprada em Paris, com memórias do Père-Lachaise. Boinas simples de terras distantes que não conhecestes, mas que guardava uma admiração idílica.

Nesse dia, como o de hoje, sempre almoçávamos juntos, você com uma das boinas, sentando comendo petiscos, bebendo um vinho barato ou tomando cerveja e olhando o mar da Vitória na varanda, deixando se perder a vista entre o céu e o mar até a colina do Bonfim. Ouvíamos todo tipo de música, algumas que eu detestava e não sabia explicar como um trompetista poderia gostar daquilo. Mas, você, sábio, me dizia que gostava de música, e pronto. Alegre, dançava sozinho, feliz com a família reunida, contava piadas, brincava com os filhos, os genros e nora e com os netos.

Hoje, o sentimento é de uma imensa saudade e a sensação de falta, sempre ela, de não ter aproveitado tudo que podia. Espero que possa viver com os meus filhos o que você viveu com os seus.

Saudades, obrigado, chefe!

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André Ferreira Lemos, in memoriam, 2

Voltando de Brasília, onde ele ia muito também, abro mais uma carta que encontrei nos seus papéis. É de 10.IV.73, quando morávamos no Rio. Ele viajava muito. Ele estava em Salvador. Uma carta com o papel já amarelado, mas com as letras bem legíveis escritas em tinta vermelha.

A carta começa com ele dizendo que ficou muito feliz com a minha carta. Pede que eu me dedique aos estudos e que faça um esforço agora pois tudo ficará mais fácil depois.

Transcrevo (algo próximo de uma psicografia), trechos da carta que termina assim:

“Se fosse por minha vontade exclusiva nunca sairia de junto de vocês, por isso, peço-lhe que, mesmo sentindo a minha ausência, conserve-se alegre e feliz porque seu pai está trabalhando para sua felicidade e de toda nossa família.

Breve estarei de volta para abraça-lo e fazermos os nossos passeios.

Meu abraço amigo e bençãos. Seu pai”