Páginas no Kindle

Postei aqui, no começo do ano, uma discussão sobre como nós, acadêmicos, devemos enfrentar o problema de citar usando um Kindle, ou qualquer outro leitor eletrônico. Esse é um problema que reflete as novas características do digital.

O problema parece estar parcialmente resolvido: o Kindle agora oferece o número da página da versão impressa que dá “origem” ao livro eletrônico. A solução é conservadora: manter a amarração do texto com a sua versão impressa. Isso resolve o nosso problema, mas não ousa como solução já que tende a apagar as diferenças das publicações digitais em relação às impressas. O Kindle replica a versão impressa como se essa fosse a “original”.

No entanto, a questão é mais profunda, pois remete à indexação de obras eletrônicas, que devem, acho, aos poucos abandonar essa noção anacrônica de páginas dos impressos e se libertar da amarra de um suposto original mais valorizado do que a sua cópia eletrônica. Não será isso, no fundo, o que ainda está pairando na discussão sobre os livros em papel e os digitais e na resistência em relação a esses últimos? Não seria mesmo a nostalgia do papel que seria o original que fixa para sempre a informação em suas páginas? Não se vê aqui como todo original só existe nas reproduções e que mesmo o impresso já é uma reprodução, um ponto na trajetória de uma “originalidade”. É a noção mesmo de original que parece estranha nesse debate.

Aconselho a leitura do recente texto “The Migration of the Aura, or how to explore the original through its fac similes” de Bruno Latour e Adam Lowe, sobre essa questão. No artigo, o autor afirma que o que interessa é a trajetória da aura do original e não a discussão se o que se tem em mãos é um original ou uma cópia (vista como degradação da aura, como sustentado por Benjamin no seu famoso texto, por exemplo). Benjamin estava errado. Um texto de Latour e Hennion, publicado nos Cahiers de Médiologie já mostrava esse erro, afirmando que a aura aumenta com a reprodução técnica. No fundo pouco importa, se a cópia for de qualidade e possa continuar a trajetória de um original. Toda produção (não só da obra de arte) deve ser vista como “trajetória”, o original como a “origem” e a cópia, como aquilo que advém do que é “copioso”, farto. Essa discussão poderia também ser muito útil ao debate sobre direitos autorais no Brasil e iluminar o atual Ministério da Cultura.

Vejam o que diz Latour em algumas partes do seu texto (sem referência à localização das passagens já que o PDF que utilizei não oferece essa informação). Recomendo a leitura completa do artigo.

A work of art —no matter of which material it is made — has a trajectory or, to use another expression popularized by anthropologists, a career. What we want to do in this paper is to specify the trajectory or career of a work of art and to move from one question that we find moot (“Is it an original or merely a copy?”) to another one that we take to be decisive, especially at the time of digital reproduction: “Is it well or badly reproduced?” The reason why we find this second question so important is because the quality, conservation, continuation, sustenance and appropriation of the original depends entirely on the distinction between good and bad reproduction. We want to argue that a badly reproduced original risks disappearing while a well accounted for original may continue to enhance its originality and to trigger new copies.

Actually, this connection between the idea of copies and that of the original should come as no surprise, since for a work of art to be original means nothing but to be the origin of a long lineage. Something which has no progeny, no reproduction, and no inheritors is not called original but rather sterile or barren.

To the question: “Is this isolated piece an original or a facsimile?,” it might be more interesting to ask: “Is this segment in the trajectory of the work of art barren or fertile?”.

(…) if we stop rehearsing, if we stop reproducing, the very existence of the original is at stake. It might stop having abundant copies and slowly disappear.”

(…) since it has never been copiously copied, that is, constantly reinterpreted and recast. The work has lost its aura for good.

There is no better proof that the ability of the aura to be retrieved from the flow of copies (or remain stuck in one segment of the trajectory) crucially depends on the heterogeneity of the techniques used in the successive segments, than to consider what happens to THE ORIGINAL book now that we are all sitting inside that worldwide cut and paste scriptorium called the Web. Because there is no longer any huge difference between the techniques used for each successive reinstantiation of the originals of some segment of a hypertext, we accept quite easily that no great distinction can be made between one version, judged before as “the only original”, and later versions, which would be said to be “mere copies”.

In effect, Benjamin confused the notion of “mechanical reproduction” with the inequality in the techniques employed along a trajectory. No matter how mechanical a reproduction is, once there is no huge gap in the process of production between version n and version n+n, the clearcut distinction between the original and its reproduction becomes less crucial—and the aura begins to hesitate and is uncertain where it should land.

(…) painting has always to be reproduced, that is, it is always a re- production of itself even when it appears to stay exactly the same in the same place. Or, rather, no painting remains the same in the same place without some reproduction. For paintings, too, existence precedes essence.

For a work of art to survive, it requires an ecology just as complex as one needed to maintain the natural character of a natural park.4 If the necessity of reproduction is accepted, then we might be able to convince the reader that the really interesting question is not so much to differentiate the original from the facsimiles, but to be able to tell apart the good reproduction from the bad one.

What the curators did was to confuse the obvious general feature of all works of art —to survive they have to be somehow reproduced— with the narrow notion of reproduction provided by photographic posters while ignoring many other ways for a painting to be reproduced.

In other words, originality does not come to a work of art in bulk; it is rather made of different components, each of which can be inter-related to produce a complex whole. New processes of reproduction allow us to see these elements and their inter-relationship in new ways.

Once again, digital techniques allow us to distinguish features that are being regrouped much too quickly into the generic term “reproduction”. As we have seen, exactly the same intellectual oversimplifications and category mistakes happened when Benjamin wrote about “mechanical reproduction”. Surely the issue is about accuracy, understanding and respect – the absence of which results in “slavish” replication. The same digital techniques may be used either slavishly or originally.

As citações acima vêm de uma reprodução em PDF, que é na realidade o original (o que origina a trajetória desse texto já que esse está sendo publicado em um livro). O livro já está publicado. Vejam o seu rastro escrito abaixo do título do artigo em PDF:

“A chapter prepared by Bruno Latour & Adam Lowe for Thomas Bartscherer (editor) Switching Codes, University of Chicago Press (2010) . Final version –after editing by CUP”

Mas qual é o original que principiou essa reprodução? Provavelmente o texto escrito em um processador de texto pelo autor. Mas a partir daí ele não parou de se reproduzir. E isso é bom, pois significa que fará uma linhagem, que se manterá como “aura” original em novas reproduções, citações, referências. Muitos não se reproduzem e morrem nos HDs dos escritores (um texto não aprovado para publicação, por exemplo, é um original que não se reproduz e que morre enquanto original, como o que cria uma linhagem). Como citar esse texto? Em que reprodução que vai mantendo a trajetória do original? Em páginas, locations ou sem nenhuma localização como no PDF que origina aqui as minhas reproduções?

O que importa, efetivamente, não é tanto a discussão sobre a origem, mas saber sobre os tipos de reproduções e sobre as possibilidades de continuar a reproduzir o texto. E como localizar a citação? Bom, tudo vai depender da trajetória de suas reproduções. Não se trata tanto de voltar a uma página de uma reprodução impressa que congelaria o tempo e tomaria para si o lugar de ponto central e original de ancoragem principal das citações, como fez o Kindle para resolver o problema. Localizar a citação é sempre localizá-la em uma reprodução, em um ponto da trajetória de uma originalidade. Como mostra Latour no seu texto, o original passa sempre por reproduções, resolvidas provisoriamente na edição do impresso, no caso dos livros. Haverá sempre novas reproduções do original e novas localizações, seja das páginas dos impressos ou dos “locations” do Kindle. No caso do impresso, a localização pelo número da página (essa ilusão de fixação) é sempre provisória pois das duas uma: ou a obra continuará (e será reproduzida, desarrumando as informações, mudando as páginas), ou será esquecida, ficará sem linhagem e trajetória, e desaparecerá. Por isso que a solução da página também coloca em causa a migração da “aura” do original e é tão problemática quanto a “location” do Kindle.

Aprendemos a pensar na fixação da página impressa como “confiável” e “original”, de onde emana a “aura”, e a pensar na reprodução (qualquer uma, mas a digital mais recentemente) como inferior, como denegrindo a imagem do original, como a destruição dessa aura pela reprodutibilidade (a opção Benjamin). Em uma citação acadêmica temos sempre que informar o número da página (para que outros sirvam de testemunha da veracidade da minha reprodução, e para que possam ver o contexto de onde foi retirada), mas isso não basta. Como é sempre uma reprodução de uma trajetória de origem, temos que indexar essa cópia. Temos que informar também a edição, a cidade e o ano. Assim, o original (onde está ele mesmo?) só existe na reprodução que efetua a trajetória da migração, perpetuando a sua existência. E isso muda o tempo todo.

No fundo, acho que seria mais interessante falar de uma localização fluida e que depende do leitor (aquele que lê e o dispositivo utilizado) do que forçar os leitores a se fixarem na estrutura das páginas de uma edição impressa (também fluida de fato, mas com aparência de estática), como quer o Kindle, como se essa fosse original, verdadeira, perene. Tudo ficou mais fácil para nosso trabalho na academia com o Kindle indexando as páginas do impresso como um original, mas perdemos a oportunidade de avaliar mais seriamente, e com impactos mais concretos (o que teríamos que fazer para repensar essa prática de citações), sobre a mobilidade dos textos, dos originais e das cópias.

Things (and People) Are The Tools Of Revolution!

Esse post foi escrito em vários dias, muitos deles, sentado no quarto de um hospital. Publico hoje, com muita tristeza e pesar. Para meu pai, André Ferreira Lemos, in memoriam.

________

Muitos artigos têm discutido o papel das mídias sociais e telefones celulares nos atuais acontecimentos no norte de África e Oriente Médio: Tunísia, Egito, Barein, Líbia, Iêmen, Marrocos… Uma verdadeira avalanche revolucionária atinge países dominados por ditaduras ancestrais e/ou por fundamentalismos religiosos. O que estamos assistindo é uma revolução de jovens que pedem a saída de regimes autoritários em nome da liberdade e da melhoria das condições de vida, sem slogan anti-imperialista ou bandeiras religiosas. A formação de um novo Mundo Árabe, sem ditaduras militares apoiadas pelo Ocidente ou teocracias fundamentalistas (embora ainda seja cedo para saber o que vai acontecer) é, junto com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os maiores eventos do ainda debutante século XXI.

As “redes sociais”, principalmente Blogs, Twitter e Facebook, e os celulares, com fotos, vídeos e SMS, têm sido atores fundamentais nesses levantes. Vejam esse interessante mapa mostrando a penetração de telefones celulares, internet e Facebook nos países do Norte de África e Oriente Médio. Há debate sobre se essas novas ferramentas produziram ou não a revolução, o que alguns estão chamando de “Revolução 2.0”. A questão que tem sido colocada, a saber se as redes sociais e celulares são apenas ferramentas, instrumentos, meios ou atores, aponta para uma má compreensão do papel dos objetos na vida social. É comum afirmações de que objetos são “apenas” ferramentas. É essa a sua essência, seu modo de existência.

Para compreender o papel do Twitter, do Facebook, dos celulares e Blogs nos atuais levantes nos países árabes, e para afirmar no final que eles são agentes que produziram as atuais revoluções, vou sustentar aqui (um work in progress como um exercício baseado na metafísica de Bruno Latour e sua Teoria Ator-Rede – Actor-Network Theory – ANT) que:

1. Não há essência ou imanência;
2. Toda agência depende da associação em causa e;
3. Agentes não-humanos não são entidades passivas.

Um martelo, um computador, leis e normas, um telefone celular, um blog, o Twitter ou o Facebook não são ferramentas, meios, intermediários, por um lado, ou agentes, mediadores, tradutores, atores, por outro. A ANT sustenta que não há essência, e que os “objetos” citados podem exercer um ou outro papel a depender das associações criadas. Para evitar pensar os agentes apenas como humanos, a ANT prefere o termo “actante” que, vindo da semiótica greimasiana, remete a tudo aquilo que gera ação. Portanto, não há essência, e actantes humanos e não-humanos assumem determinados papéis a depender das associações que se constituem em determinada ação. Se não há ação, não há nada e eles não são “actantes”. Por exemplo, cartas e bilhetes foram actantes não-humanos importantes em eventos e guerras passadas (na Grécia, na Primeira Guerra Mundial, nas revoluções políticas do século XX, etc.). O mesmo podemos dizer do rádio e da TV. Em alguns momentos são meros intermediários (não modificam outros agentes e não produzem diferenças), em outros, são actantes, agentes produzindo diferenças, ações (pode ser um martelo, um computador, um artigo científico, uma lei…).

No caso em questão, podemos dizer que Blogs, Facebook, Twitter, celulares…, agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos, etc.) e fizeram com que as ditaduras da Tunísia e do Egito caíssem. Eles podem não ter função mediadora no futuro, já que não há essência ou potência velada, só associações que se fazem ou não no tempo. Como diz Latour: “essência é existência e existência é a ação”. No fundo, a discussão sobre se as mídias sociais e telefones celulares fizeram a revolução se perde na polarização entre sujeitos (que têm uma essência – ser o mediador e senhor da agência) e os objetos (que têm uma essência – serem apenas intermediários, “ferramentas”, “instrumentos”, “meios”). No caso das revoluções atuais, vários textos (ver mais abaixo) consideram que as ferramentas digitais foram o que são: apenas ferramentas, meros intermediários, “meios” de comunicação.

É comum pensar que uma revolução que se preze só pode acontecer, e ser assim nomeada, se for feita por “sujeitos” livres, independentes dos objetos (que não podem ter papel ativo na ação). Pessoas são independentes das ferramentas. Objetos são, no máximo, instrumentos, epifenômenos dos eventos. Levantes “legítimos” são feitos por “sujeitos” livres, por subjetividades que compõem essa nova “multidão” emancipadora. O sujeito não se mistura ao objeto e, para ser sujeito, deve mesmo ser o mais “independente possível” dos objetos, deve se livrar das amarras para achar o seu “núcleo” velado no interior. Esse é o ponto crucial do equívoco: a dicotomia que separa sujeito e objeto (como se isso fosse possível!). No entanto, se retiramos os objetos, não encontraremos mais sujeitos!

Vejam alguns exemplos desse debate no artigo de Manuel Castells; em matéria no Le Monde sobre juventude pós-islamistas, e também aqui perguntando se “Les Révolution Arabes sont-elles des ‘révolutions 2.0’?”; no texto de Charles Hirschkind sobre a importância do Facebook e do Twitter no Egito; no artigo de Devin Coldewey afirmando que “pessoas, e não coisas, são as ferramentas da revolução” (o título é bem interessante, daí a brincadeira com o título desse post); na discussão motivada pelo texto “A revolução não será tuitada”, de Malcolm Gladwell; e em diversas contribuições na lista “air-l@listserver.aoir.org” da Association of Internet Researchers.

As mídias sociais fizeram sim a revolução, mas em uma rede de atores. Não foi uma revolução das empresas Facebook ou Twitter. Essas “redes sociais” foram agentes produtores de mediações na alavancagem dos acontecimentos nos países árabes. Nesse sentido, Facebook, Twitter, Blogs, telefones celulares, entre outros actantes não-humanos, fizeram as revoluções ao entrarem em associação com outros “actantes” (pessoas, discursos, dados sociais – desemprego e baixos salários, informações sobre corrupção e violência policial, mídia internacional, panfletos, pedras, etc.). É difícil achar uma agência puramente humana nesses fenômenos de associações, traduções e mediações. É difícil achar ação puramente humana, tout court! Nas revoluções que reconfiguram agora o Mundo Árabe, podemos dizer que atores humanos e não-humanos entram em mediações e traduções que as produziram. Sustentar o contrário é, em primeiro lugar, negar os fatos e, em segundo, se apegar à uma separação essencial entre sujeito e objeto, natureza e cultura que apaga os actantes não-humanos. Como Latour, reivindica-se aqui uma “filosofia orientada ao objeto”, uma “metafísica empírica”. Descreva essa revolução (ou qualquer outra associação) até o seu esgotamento e verás todos os actantes que a produzem!

Para os que compreendem o mundo a partir da grande Bifurcação (segundo termo de Whitehead), uma “legítima”, “essencial” e “imanente” revolução só pode ser feita por sujeitos “puros”, desamarrados de quaisquer relações com “atores não-humanos” (que só viriam a contaminar a sua essência – muitos artigos denunciam essa mácula). Essas revoluções são “Sociais”, com S maiúsculo, como aquilo que é produzido por sujeitos humanos. A ANT se opõe a essa visão do Social. Para muitos analistas, as atuais revoluções estariam latentes, aguardando sua atualização como um devir, uma resolução de poderes, uma imanência da multidão, em potência. Essa “Sociologia do Social”, como afirma Latour, esconde os actantes sob o manto das grandes narrativas (Poder, Império, Multidão, Estrutura) e não nos permite ver a “sociologia das associações” (entre humano e não-humanos) que revelam verdadeiramente o “social”. Como afirma Latour, o social não é a explicação das associações, como aprendemos na escola. Ele é o resultado dessas associações. E podemos facilmente retraçar as associações: vejam os artigos citados, os logs dos SMS, os posts nos blogs, Facebook e Twitter etc., para uma cartografia dessa “controvérsia”.

Ora, uma revolução sem actantes não-humanos não aconteceu no Norte da África, não acontece agora no Oriente Médio e talvez não seja exagero afirmar que nunca tenha acontecido na história da humanidade. Toda luta política, todo levante, toda ação que possa ser chamada de social (criada por associações entre actantes que traduzem e mediam uns aos outros) só acontecem pelas conflituosas, difíceis e tensas relações entre humanos e não-humanos. Cabe analisar em que momento, a partir dos rastros das ações, determinados actantes não-humanos serviram como mediadores, como tradutores, e em que momentos eles se calaram (não produzindo ações). Como vimos acima, a essência não existe e a agência se dá (ou não) na associação. Como pensar que guerras e levantes seriam realizados sem discursos das mais diversas ordens, sem imagens (fotografia, cinema, TV), sem armas, sem propaganda, sem panfletos, sem imprensa, sem telefone, sem rádio… Onde encontraremos um sujeito desprovido de seu hibridismo com o objeto?

Sim, ferramentas podem ser “apenas” intermediários quando não produzem diferenças, quando não traduzem outros agentes, ou seja, quando não produzem ação! Mas não a priori. Nas revoluções que aconteceram no Egito e Tunísia (veremos o que acontecerá nas outras), os rastros deixados confirmam que celulares, mídias e redes sociais (assim como o telefone fixo, satélites, TV, megafones, apitos, armas improvisadas, pedras, etc.), agiram como mediadores e tradutores de outros agentes (humanos e não-humanos) e fizeram sim, as revoluções. E parece que estão fazendo também as que estão em curso na Líbia, Barein, Iêmem…

Vejam como, erroneamente, Dan Patterson da ABC News afirma que “Twitter is a tool, the web is a medium, and journalism is an action” (via @liaseixas). Essa frase é exemplar do que queremos mostrar nesse post. Para Patterson, o jornalismo é ação (não seria ele ação de relatar acontecimentos?) onde agentes humanos (mas e as máquinas, as instituições, as redes de distribuição, etc?) têm o contrôle da agência. Já os não humanos, Twitter e Web são ferramenta e meio, mídia, respectivamente (vejam como a ANT pode nos ajudar nos estudos das mídias, embora seja pouco conhecida na área de comunicação no Brasil!). Mais uma vez, credita-se uma suposta essência. Mas o Twitter usado pelo Jornalismo na Web seria o quê? E a Web? Ferramenta, ação ou mídia?

Aqui está de novo a grande Bifurcação. Aqui começa a confusão. Como dissemos, tudo depende da associação. Ferramentas podem ser intermediários, quando não produzem ação, ou “actantes”, quando, em conjunção com outros, realizam eventos. Pensar como Patterson significa eleger a separação entre atores humanos e não-humanos dando privilégio a um dos pólos, no caso o “Jornalismo” (bom, ele é jornalista!). O jornalismo efetivamente produz ação, ele está certo, mas não É ação. No entanto, como explicar essa ação? Como esse “sujeito” jornalismo a produz? Não seria a ação do “jornalismo” fruto de um conjunto de associações entre actantes humanos e não humanos, sem que haja a priori um que seja o sujeito da “ação”, outro a “ferramenta” e um outro o “meio”? Como agiria o “jornalismo” sem os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular, o fax e … a internet e suas expressoões como o Twitter e a Web? Não caberia investigar caso a caso? Como pode um jornalista pensar e agir sem outros jornais, jornalistas, empresas, indústrias, publicidade, computadores, telefones, satélites etc.? Quem faz a ação é um sujeito não-híbrido livre de relações não instrumentais? Podemos separar de um lado “o jornalismo” e do outro as “ferramentas e meios”?

Para Patterson, o jornalismo é um “sujeito”, uma “estrutura” que cala os actantes não-humano. Ele só vê essências: jornalismo – ação, Twitter – ferramenta, Web – meio. Dito dessa forma, jornalismo é apenas um nome que apaga os demais actantes em uma grande Narrativa. Dizer “jornalismo” é o mesmo que não dizer nada. Não descreve o que ele é nem esclarece sobre sua prática. Apenas qualifica: Ação! É como dizer Poder, Império, Multidão sem se ater às descrições. Retire do “jornalismo” a internet, as empresas jornalísticas, as universidades e professores de jornalismo, os jornaleiros, os distribuidores, os computadores, os celulares, os orgãos reguladores, o papel jornal, a web…e veja se você ainda o vê algum “sujeito” livre de amarras!

Falamos aqui do jornalismo, mas podemos dizer o mesmo da nossa atividade acadêmica: como produzir um texto acadêmico sem a universidade, a sala de aula, os alunos e os grupos de pesquisa, o computador, a internet, o financiamento à pesquisa, as revistas acadêmicas, os livros, os pares avaliadores, etc.? Como diz Bruno Latour, “um Boing não voa. O que voa são companhias aéras”. Podemos dizer o mesmo do jornalista ou de nós pesquisadores. Quem faz pesquisa e produz textos não é o gênio solitário, um sujeito (humano) puro, em sua essência genial, mas uma instituição que associa diversos actantes (humanos e não-humanos) – a Universidade! A genialidade de um pesquisador, ou jornalista, ou artista, ou médico, vem da forma como ele entra em associação com outros actantes humanos e não-humanos. A genialidade e originalidade de uma ação não vêm da independência de outros actantes, mas justamente do contrário: das boas associações estabelecidas.

Da mesmo forma, se as mídias sociais foram apenas “ferramentas”, tente então retirar dos fatos (rastros) produzidos nos eventos revolucionários árabes esses mesmos artefatos (Twitter, Facebook, celulares…) e veja se você ainda consegue ver o fenômeno. Retire as “ferramentas” das matérias escritas, dos programas de TV, das informações na Internet, das discussões no rádio, apague os logs de SMS, os post nos diversos Blogs, as páginas do Facebook, os relatos e informações no Twitter, os vídeos e fotos dos celulares… e veja se você ainda consegue ver as revoluções realizadas no Egito e na Tunísia.

Não preciso insistir, mas é bom lembrar, que isso não quer dizer que os agentes não-humanos agem sozinhos. Acho que essa questão nem mesmo deveria ser colocada, se me fiz compreender nos parágrafos anteriores. Mas é bom repetir:

Não é uma revolução do Twitter, não é uma revolução do Facebook. Não é uma revolução sem Twitter, não é uma revolução sem Facebook. É uma revolução na qual as mídias e redes sociais se constituíram como actantes importantes para a associação que a realizou.

Como vimos, a ação se dá pela associações de diversos mediadores (que não são em essência mediadores, mas que agem em determinado momento como tais) e não a partir de um sujeito ou de um objeto que teriam o monopólio da agência ou uma essência. Deve-se, então, abolir essa falsa separação para que possamos pensar os eventos em sua complexidade, para além da polarização “physis” – “techné”, “sujeito” – “objeto”, “natureza” – “cultura”. Os eventos atuais nos países árabes podem nos ajudar a reconhecer uma “política da composição” para avançar na constituição de uma filosofia dos objetos e de uma sociologia das associações que não coloquem apenas no sujeito humano a primazia da ação. Vejam o que afirma Latour sobre essa política no seu recente Manifesto Composicionista:

“Nature is not a thing, a domain, a realm, an ontological territory. It is (or rather, it was during the short modern parenthesis) a way of organizing the division (what Alfred North Whitehead has called the Bifurcation) between appearances and reality, subjectivity and objectivity, history and immutability. (…) But no doubt that it is a fabulously useful ploy, invented in the seventeenth century, to establish a political epistemology and to decide who will be allowed to talk about what, and which types of beings will remain silent. This was the time of the great political, religious, legal, and epistemological invention of matters of fact, embedded in a res extensa devoid of any meaning, except that of being the ultimate reality, made of fully silent entities that were yet able, through the mysterious intervention of Science (capital S) to “speak by themselves” (but without the mediation of science, small s, and scientists—also small s!).

(…) This is why rationalists never detect the contradiction between what they say about the continuity of causes and consequences and what they witness—namely the discontinuity, invention, supplementarity, creativity (“creativity is the ultimate” as Whitehead said) between associations of mediators. They simply transform this discrepancy (which would make their worldview untenable) into a radical divide between human subjects and nonhuman objects. (…) Compositionists, however, cannot rely on such a solution. The continuity of all agents in space and time is not given to them as it was to naturalists: they have to compose it, slowly and progressively. And, moreover, to compose it from discontinuous pieces. Not only because human destiny (microcosm) and nonhuman destiny (macrocosm) are now entangled for everyone to see (contrary to the strange dream of Bifurcation), but for a much deeper reason on which the capture of the creativity of all agencies depends: consequences overwhelm their causes, and this overflow has to be respected everywhere, in every domain, in every discipline, and for every type of entity. It is no longer possible to build the cage of nature—and indeed it has never been possible to live in this cage. This is, after all, what is meant by the eikos of ecology.”

Para finalizar, acabo de ver a matéria do NYT com o sugestivo título, “Cellphones Become the World’s Eyes and Ears on Protests”, onde podemos ler:

For some of the protesters facing Bahrain’s heavily armed security forces in and around Pearl Square in Manama, the most powerful weapon against shotguns and tear gas has been the tiny camera inside their cellphones.” “(…) A novelty less than a decade ago, the cellphone camera has become a vital tool to document the government response to the unrest that has spread through the Middle East and North Africa. (..) Recognizing the power of such documentation, human rights groups have published guides and provided training on how to use cellphone cameras effectively.”

Para maior aprofundamento:

Latour, B. Reassambling the social. An Introduction to Actor-Network Theory., Oxford, Oxford University Press, 2005.

Latour, B., An attempt at writing a “Compositionist Manifesto”., in http://www.bruno-latour.fr/articles/article/120-COMPO-MANIFESTO.pdf

Latour, B., Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: ed. 34., 1994.

Harman, G., The Prince of Networks. Bruno Latour and Metaphysics. 2009.

Whitehead, A., Process and Reality., NY, Free Press, 1978.