Páginas no Kindle

Postei aqui, no começo do ano, uma discussão sobre como nós, acadêmicos, devemos enfrentar o problema de citar usando um Kindle, ou qualquer outro leitor eletrônico. Esse é um problema que reflete as novas características do digital.

O problema parece estar parcialmente resolvido: o Kindle agora oferece o número da página da versão impressa que dá “origem” ao livro eletrônico. A solução é conservadora: manter a amarração do texto com a sua versão impressa. Isso resolve o nosso problema, mas não ousa como solução já que tende a apagar as diferenças das publicações digitais em relação às impressas. O Kindle replica a versão impressa como se essa fosse a “original”.

No entanto, a questão é mais profunda, pois remete à indexação de obras eletrônicas, que devem, acho, aos poucos abandonar essa noção anacrônica de páginas dos impressos e se libertar da amarra de um suposto original mais valorizado do que a sua cópia eletrônica. Não será isso, no fundo, o que ainda está pairando na discussão sobre os livros em papel e os digitais e na resistência em relação a esses últimos? Não seria mesmo a nostalgia do papel que seria o original que fixa para sempre a informação em suas páginas? Não se vê aqui como todo original só existe nas reproduções e que mesmo o impresso já é uma reprodução, um ponto na trajetória de uma “originalidade”. É a noção mesmo de original que parece estranha nesse debate.

Aconselho a leitura do recente texto “The Migration of the Aura, or how to explore the original through its fac similes” de Bruno Latour e Adam Lowe, sobre essa questão. No artigo, o autor afirma que o que interessa é a trajetória da aura do original e não a discussão se o que se tem em mãos é um original ou uma cópia (vista como degradação da aura, como sustentado por Benjamin no seu famoso texto, por exemplo). Benjamin estava errado. Um texto de Latour e Hennion, publicado nos Cahiers de Médiologie já mostrava esse erro, afirmando que a aura aumenta com a reprodução técnica. No fundo pouco importa, se a cópia for de qualidade e possa continuar a trajetória de um original. Toda produção (não só da obra de arte) deve ser vista como “trajetória”, o original como a “origem” e a cópia, como aquilo que advém do que é “copioso”, farto. Essa discussão poderia também ser muito útil ao debate sobre direitos autorais no Brasil e iluminar o atual Ministério da Cultura.

Vejam o que diz Latour em algumas partes do seu texto (sem referência à localização das passagens já que o PDF que utilizei não oferece essa informação). Recomendo a leitura completa do artigo.

A work of art —no matter of which material it is made — has a trajectory or, to use another expression popularized by anthropologists, a career. What we want to do in this paper is to specify the trajectory or career of a work of art and to move from one question that we find moot (“Is it an original or merely a copy?”) to another one that we take to be decisive, especially at the time of digital reproduction: “Is it well or badly reproduced?” The reason why we find this second question so important is because the quality, conservation, continuation, sustenance and appropriation of the original depends entirely on the distinction between good and bad reproduction. We want to argue that a badly reproduced original risks disappearing while a well accounted for original may continue to enhance its originality and to trigger new copies.

Actually, this connection between the idea of copies and that of the original should come as no surprise, since for a work of art to be original means nothing but to be the origin of a long lineage. Something which has no progeny, no reproduction, and no inheritors is not called original but rather sterile or barren.

To the question: “Is this isolated piece an original or a facsimile?,” it might be more interesting to ask: “Is this segment in the trajectory of the work of art barren or fertile?”.

(…) if we stop rehearsing, if we stop reproducing, the very existence of the original is at stake. It might stop having abundant copies and slowly disappear.”

(…) since it has never been copiously copied, that is, constantly reinterpreted and recast. The work has lost its aura for good.

There is no better proof that the ability of the aura to be retrieved from the flow of copies (or remain stuck in one segment of the trajectory) crucially depends on the heterogeneity of the techniques used in the successive segments, than to consider what happens to THE ORIGINAL book now that we are all sitting inside that worldwide cut and paste scriptorium called the Web. Because there is no longer any huge difference between the techniques used for each successive reinstantiation of the originals of some segment of a hypertext, we accept quite easily that no great distinction can be made between one version, judged before as “the only original”, and later versions, which would be said to be “mere copies”.

In effect, Benjamin confused the notion of “mechanical reproduction” with the inequality in the techniques employed along a trajectory. No matter how mechanical a reproduction is, once there is no huge gap in the process of production between version n and version n+n, the clearcut distinction between the original and its reproduction becomes less crucial—and the aura begins to hesitate and is uncertain where it should land.

(…) painting has always to be reproduced, that is, it is always a re- production of itself even when it appears to stay exactly the same in the same place. Or, rather, no painting remains the same in the same place without some reproduction. For paintings, too, existence precedes essence.

For a work of art to survive, it requires an ecology just as complex as one needed to maintain the natural character of a natural park.4 If the necessity of reproduction is accepted, then we might be able to convince the reader that the really interesting question is not so much to differentiate the original from the facsimiles, but to be able to tell apart the good reproduction from the bad one.

What the curators did was to confuse the obvious general feature of all works of art —to survive they have to be somehow reproduced— with the narrow notion of reproduction provided by photographic posters while ignoring many other ways for a painting to be reproduced.

In other words, originality does not come to a work of art in bulk; it is rather made of different components, each of which can be inter-related to produce a complex whole. New processes of reproduction allow us to see these elements and their inter-relationship in new ways.

Once again, digital techniques allow us to distinguish features that are being regrouped much too quickly into the generic term “reproduction”. As we have seen, exactly the same intellectual oversimplifications and category mistakes happened when Benjamin wrote about “mechanical reproduction”. Surely the issue is about accuracy, understanding and respect – the absence of which results in “slavish” replication. The same digital techniques may be used either slavishly or originally.

As citações acima vêm de uma reprodução em PDF, que é na realidade o original (o que origina a trajetória desse texto já que esse está sendo publicado em um livro). O livro já está publicado. Vejam o seu rastro escrito abaixo do título do artigo em PDF:

“A chapter prepared by Bruno Latour & Adam Lowe for Thomas Bartscherer (editor) Switching Codes, University of Chicago Press (2010) . Final version –after editing by CUP”

Mas qual é o original que principiou essa reprodução? Provavelmente o texto escrito em um processador de texto pelo autor. Mas a partir daí ele não parou de se reproduzir. E isso é bom, pois significa que fará uma linhagem, que se manterá como “aura” original em novas reproduções, citações, referências. Muitos não se reproduzem e morrem nos HDs dos escritores (um texto não aprovado para publicação, por exemplo, é um original que não se reproduz e que morre enquanto original, como o que cria uma linhagem). Como citar esse texto? Em que reprodução que vai mantendo a trajetória do original? Em páginas, locations ou sem nenhuma localização como no PDF que origina aqui as minhas reproduções?

O que importa, efetivamente, não é tanto a discussão sobre a origem, mas saber sobre os tipos de reproduções e sobre as possibilidades de continuar a reproduzir o texto. E como localizar a citação? Bom, tudo vai depender da trajetória de suas reproduções. Não se trata tanto de voltar a uma página de uma reprodução impressa que congelaria o tempo e tomaria para si o lugar de ponto central e original de ancoragem principal das citações, como fez o Kindle para resolver o problema. Localizar a citação é sempre localizá-la em uma reprodução, em um ponto da trajetória de uma originalidade. Como mostra Latour no seu texto, o original passa sempre por reproduções, resolvidas provisoriamente na edição do impresso, no caso dos livros. Haverá sempre novas reproduções do original e novas localizações, seja das páginas dos impressos ou dos “locations” do Kindle. No caso do impresso, a localização pelo número da página (essa ilusão de fixação) é sempre provisória pois das duas uma: ou a obra continuará (e será reproduzida, desarrumando as informações, mudando as páginas), ou será esquecida, ficará sem linhagem e trajetória, e desaparecerá. Por isso que a solução da página também coloca em causa a migração da “aura” do original e é tão problemática quanto a “location” do Kindle.

Aprendemos a pensar na fixação da página impressa como “confiável” e “original”, de onde emana a “aura”, e a pensar na reprodução (qualquer uma, mas a digital mais recentemente) como inferior, como denegrindo a imagem do original, como a destruição dessa aura pela reprodutibilidade (a opção Benjamin). Em uma citação acadêmica temos sempre que informar o número da página (para que outros sirvam de testemunha da veracidade da minha reprodução, e para que possam ver o contexto de onde foi retirada), mas isso não basta. Como é sempre uma reprodução de uma trajetória de origem, temos que indexar essa cópia. Temos que informar também a edição, a cidade e o ano. Assim, o original (onde está ele mesmo?) só existe na reprodução que efetua a trajetória da migração, perpetuando a sua existência. E isso muda o tempo todo.

No fundo, acho que seria mais interessante falar de uma localização fluida e que depende do leitor (aquele que lê e o dispositivo utilizado) do que forçar os leitores a se fixarem na estrutura das páginas de uma edição impressa (também fluida de fato, mas com aparência de estática), como quer o Kindle, como se essa fosse original, verdadeira, perene. Tudo ficou mais fácil para nosso trabalho na academia com o Kindle indexando as páginas do impresso como um original, mas perdemos a oportunidade de avaliar mais seriamente, e com impactos mais concretos (o que teríamos que fazer para repensar essa prática de citações), sobre a mobilidade dos textos, dos originais e das cópias.

Como citar usando um Kindle?

Como me tornei um usuário do Kindle (não, não quero um iPad, thanks!), comecei a comprar e a baixar livros eletrônicos em diversos formatos para alimentar o dispositivo. Tenho achado muitos livros acadêmicos e de ficção (free e pagos) nas línguas que leio e isso só tem aumentado a minha quantidade de leitura diária. Vejam post anterior sobre o assunto.

No que se refere aos livros acadêmicos, como citar as referências de um livro no Kindle se o mesmo não tem páginas, mas “locations”? Para a citação uma obra eletrônica (PDF, ou texto em sites), em geral, o que fazemos é colocar a referências como está no impresso, no site ou indicar o DOI. Por exemplo: “Lemos, André., Post—Mass Media Functions, Locative Media, and Informational Territories: New Ways of Thinking About Territory, Place, and Mobility in Contemporary Society., in Space and Culture, November 2010 13: 403-420, doi:10.1177/1206331210374144“. Nessa citação, há a referência à revista em papel e ao documento eletrônico, mantendo a paginação da revista impressa. Nesse outro caso: “Tuters, M., Varnelis, K. (2006). Beyond locative media, in http://networkedpublics.org/locative_media/beyond_locative_ media”, não há páginas e o texto é apenas eletrônico, indicando a URL. Caso citemos algum trecho, esse fica simplesmente sem páginas.

Acima, na foto do trecho do livro Solar, de Ian McEwan, que estou lendo no Kindle, a citação dessa parte sublinhada seria assim? McEwan, Ian., Solar. São Paulo, Cia das Letras, 2010, Kindle Edition, Location 3732-40.

No caso do Kindle, o que se aconselha é que façamos a citação da obra no seu suporte livro ou revista e indiquemos que é uma versão do Kindle, como no exemplo acima. Quanto a citação de passagens retiradas, não há consenso, mas alguns falam de colocar a localização (como acima), ou o número do parágrafo (em alguns leitores que não o Kindle). Entretanto, no caso do Kindle, se eu aumentar a fonte no leitor, a localização muda. Assim sendo, só é possível manter a localização como referência se o leitor não alterar o tamanho da fonte padrão do “livro”. Outros sustentam a necessidade de uma nova classificação para os novos suportes e outros simplesmente defendem que o pesquisador busque a referência nos livros impressos na sua biblioteca, livrarias ou no Google Books (quando houver). Acho que, infelizmente, ainda, para os livros acadêmicos que tenham versão impressa, teremos que sair de casa e ir buscar na livraria ou biblioteca o livro, fuçar as páginas e localizar exatamente a passagem escolhida.

O problema é ainda maior já que há, cada vez mais, obras apenas eletrônicas, feitas em formatos específicos para específicos dispositivos. Como citar a obra e passagens da mesma quando ela não tiver uma versão impressa? Meus livros ‘Reviravolta” e “Caderno de Viagem” são e-books, sem versão impressa. Como leio os dois no Kindle, devo fazer a citação usando a localização e dizer que é no formato mobi para Kindle? E se for em formato e-pub, em um iPad, mantenho uma outra forma de indexação da passagem e digo que é no iPad? Cito assim para a referência completa:

Lemos, André. @re_vira_volta. Uma experiência em Twitteratura., e-book, Ed. Simplissimo, Porto Alegre., 2010. Disponível em http://www.simplissimo.com.br/store/atre-vira-volta.html. ISBN – 978-85-6365-422-9.

Lemos, André. Caderno de Viagem. Comunicação, Lugares e Tecnologias., Porto Alegre, Editora Plus, ISBN 978-85-62069-33-8., 2010. e-book

Para uma citação de uma passagem de um dos livros como faria? Assim?

Lemos, André. Caderno de Viagem. Comunicação, Lugares e Tecnologias., Porto Alegre, Editora Plus, ISBN 978-85-62069-33-8., 2010. Kindle Version, location 210-17.

Acho que seria agora o mais sensato. No entanto o problema deve ser solucionado de uma forma mais universal que desobrigue o leitor a procurar referências em um leitor eletrônico específico. Não é nada prático indexar uma citação à um dispositivo já que o leitor pode usar diferentes tipos de aparelhos e fontes. Uma discussão interessante foi travada recentemente na lista “air-l@listserver.aoir.org” da Association of Internet Researchers (http://www.aoir.org/), iniciada pelo Rich Ling. Vejam o que dizem alguns pesquisadores sobre o assunto:

Steve Hyzny : I just attended a Capella University colloquim and this was a topic that was raises. When referenceing and e-book since page numbers can adjust with font size and other issues is to use the Chapter/section title and paragraph number instead of page number.

Stacy Blasiola : Here’s what Purdue has to say about it: http://owl.english.purdue.edu/owl/resource/717/04/ . Electronic books are cited exactly as their print counterparts with the addition of a media marker at the end of the citation: Kindle edition, PDF e-book, Microsoft Reader e-book, Palm e-book, CD-ROM, etc. Books consulted online are also cited exactly as their print counterparts with the addition of a DOI (or URL) at the end of the citation. See also Books . Note: Stable page numbers are not always available in electronic formats; therefore, you may, instead, include the number of chapter, section, or other easily recognizable locator.

“Edward M. Corrado” : Obviously this, to some degree, depends on the citation style. For the 16’th editions. Chicago added some guidelines. Basically: “Note that electronic formats do not always carry stable page numbers (e.g., pagination may depend on text size), a factor that potentially limits their suitability as sources. In lieu of a page number, include an indication of chapter or section or other locator.” (rule 14.166) and: “Electronic sources do not always include page numbers (and some that do include them repaginate according to user-defined text size). For such unpaginated works, it may be appropriate in a note to include a chapter or paragraph number (if available), a section heading, or a descriptive phrase that follows the organizational divisions of the work. In citations of shorter electronic works presented as a single, searchable document, such locators may be unnecessary.” (rule 14.17)

jeremy hunsinger : direct quotes are less of a worry than providing reference, I’d think. One can search for a direct quote and usually find it. However, if someone is referencing an idea, we really do need the exact page or location of the item in question. My solution is simple, go to the library and find the page number. (…) granted, that in some scholarly topics there are unique citation traditions, such as in plato, aristotle, kant, etc. and one should stick with the tradition which is most commonly used centrally to the tradition, i’d guess.

Alex Halavais : Actually, I think the solution jeremy dismisses is the obvious one: you should cite to a URI. It’s a shame that copyright laws make that… difficult. In some ways, I suspect a resource that was *like* Google Books, and provided a fragment with context, would be useful. So if I talk about reasons to cite sources I could drop a link (http://bit.ly/reasonstocite), and fulfill at least the findability function of the citation. But, of course, this raises its own problems. Not all books are in Preview or Full on Google Books (whether that is a good or a bad thing is, of course, an issue of hot debate), the traditional library system is nicely redundant and distributed, providing some reliability (though one could imagine a distributed alternative to Google Books without too much difficulty). Not to mention the issues of URI ugliness, shortener (like the bit.ly link above) longevity and obscurity, and the like. I disagree with the idea, however, that we should maintain page numbers as a form of due diligence. There comes a time when we have to get past horseless-carriage thinking, and recognize that when certain communities are reading more off the page than on, it’s time for a new standard.

“Gilbert B. Rodman” : Digital source or not, I think some sort of locator is still necessary/desirable for direct quotes. I’m not sure why those should be an exception to Jeremy’s love of page numbers (which I share, though I can imagine functional equivalents being used for paper-less sources). If I’m actually trying to find a quoted passage — because I’m curious, because I want to see the broader context from which the passage was pulled, because I want to cite the original source myself, because I’m shocked that such a passage exists in the work in question, etc. — I don’t want to have to hunt down the words in question in the middle of the full text. To be sure, there are instances where this isn’t a completely onerous burden: a 100-word passage from a 20-page journal article may be easy enough to find. Still, the goal of a good citation is to help your reader find the precise source for the cited words/ideas, not just the general location where your reader can go hunting for them.

Peter Timusk : You actually have to count the paragraphs, I believe. BTW this is hard work. I agree with Jeremy’s sentiment. I found after taking a full course on legal citation style for Canadian legal scholarship that the last and hardest job is citation in a paper. Often I had to drop sentences because I could not find the citation to the idea. I now try to blog everything I read so I don’t loose these things so much. Also there are still professors out there I am sure and thus reviewers who may prefer a citation to hard copy rather than electronic. That’s my understanding of the preference order.

Novos dispositivos, novas memórias, novos regimes de escrita e leitura.

Como vimos há um debate interessante a ser feito. Esse é um problema que devemos enfrentar rapidamente para normatizar as citações de obras que serão cada vez mais em formatos e-book (pdf, e-pub, mobi, etc.). Vemos aqui como uma mudança de dispositivo (os e-readers e tablets) mobiliza uma rede de problemas (memória, confiabilidade, referências, discussão, indexação) na produção e difusão de textos, alterando as formas de produção, difusão e estoque de informação. Há uma mudança, a longo prazo, nas formas de produzir, distribuir e armazenar o conhecimento.

O que é mesmo um página senão a materialidade do papel? O papel formou e conformou o nosso pensamento ao moldar formas de escrita e leitura. É justamente essa materialidade que está em questão sendo substituída, pouco a pouco, pela materialidade eletrônica do dispositivo. Aqui o papel de um códex, de uma obra final e acabada na edição, se transforma em realidade abstrata, em uma superfície profunda de onde emergem signos textuais de todos os livros que podem então ser indexados por links ou compartilhados em redes sociais (posso compartilhar trechos dos livros que leio no Kindle no Twitter ou ver o que outros leitores marcaram no livro que estou lendo).

Há aqui edição da obra pelo leitor e a formação de uma incipiente comunidade de leitores, de uma nova “República das Letras”. O Kindle é nesse sentido um “BIBLIO” (ver Derrida, “Papel Máquina”), um espaço/lugar de armazenamento de informação, de livros (que depois virou o próprio livro). Ele faz com que o editor (o “tipógrafo”) seja o próprio leitor (ver a esse respeito o livro “Desafios da Escrita” de R. Chartier) que pode mexer nas fontes e alterar as localizações das informações. Assim, não há mais páginas fixas. Ao contrário, só há textos e leitores móveis.

O que será que a nossa ABNT tem a dizer sobre o assunto, quando as referências tornam-se móveis, saem do suporte papel, desvinculam-se dos livros e prendem-se a dispositivos eletrônicos específicos?

Dispositivos de Leitura Eletrônicos


Medieval Helpdesk – ou como ler um livro impresso!

Comprei um Kindle (mas há outros como o Nook, Sony Reader, Alfa da Positivo) e estou lendo mais do que nunca. Voltei inclusive a ler jornal (e não cliclar em links nos online), assinando alguns periódicos (coisa que não fazia há tempos). A tinta eletrônica é incrível e a tela parece papel, não sendo iluminada (o que dá um grande conforto). Esse conjunto de características faz da leitura uma experiência muito similar à leitura de um livro em papel ou de um jornal ou revista impressos. E não há pirotecnias (o que sempre me incomodou em CD Rom, DVD ou livros interativos). Há assim as vantagens (dicionário de acesso imediato ao posicionar o curso próximo a uma palavra, marcação e notas que podem ser estocadas e compartilhadas – no Twitter ou Youtube-, compra e acesso imediato de livros, revistas ou jornais, sem espera ou pagamento de fretes, portabilidade e acesso a uma biblioteca de ate 3 mil livros em um único dispositivo de 300g…) e as desvantagens (bateria – embora a do Kindle dure quase um mês sem o wi-fi ligado, não há o cheiro ou o manuseio das páginas, o objeto – o codex – e a sua coleção – a biblio – fetiches desaparecem, não dá pra riscar do lado com um bom lápis…). Não se trata de um contra o outro (continuo a lendo livros em papel, a clicar em links nos jornais online), mas de aproveitar as oportunidades dessa nova forma de leitura.

Como vimos no vídeo acima, é preciso adaptação. Sempre que o suporte material está muito próximo do corpo e cria assim práticas específicas de uso, o seu abandono é mais difícil. Por isso não abandonamos o cinema e não nos importamos muito com a mudança do suporte musical, já que a experiência é ouvir a música (embora haja a nostalgia do Vinil). Na leitura (jornal ou livro), mesmo que o conteúdo a ser lido seja o mais importante, a prática está condicionada pelo suporte. Daí termos mais dificuldade em mudar para leitores eletrônicos. Talvez a “era do impresso” (a Galáxia Gutenberg) tenha sido apenas um parêntese (o Parêntese Gutenberg) na história da leitura e da escrita e esteja sendo superada pela “era do digital”. Enquanto isso, vamos lendo, em um ou outro formato!

Abaixo um reflexão sobre a materialidade dos dispositivos, tendo com objeto empírico o jornal, mas que pode ser aplicado também ao livro. Esse texto faz parte de um artigo ainda no prelo e em edição que deverá ser publicado em Portugal. Logo após, ofereço um conjunto de links para e-books de graça.

Jornal em papel, no Kindle ou no iPad

O jornal impresso tem o papel como suporte, onde os caracteres estão previamente fixados. Ele é um produto acabado, como uma temporalidade própria (quotidiano em sua maioria) que indica (affordance – BLOOMFIELD, et. al., 2010) uma determinada postura corporal (sentado, folheando as páginas) e um momento especial de leitura, mais focado, já que o produto é oferecido de forma finalizada ao leitor. Ele é barato, portátil e descartável. Já o jornal na web é mais utilitário (não se compra um produto fechado), com conexão entre links que oferecem possibilidades de leitura mais rápida e eficiente. Os caracteres (agora eletrônicos) fixam-se por demanda, a cada clique, aparecendo em uma tela iluminada, desaparecendo a cada navegação. Não há um fechamento temporal, já que no jornal na web as atualizações das matérias são constantes e, diferentemente do impresso, há formatos multimidiáticos e interativos. Esse produto jornalístico oferece ainda a possibilidade de acesso à arquivos em bancos de dados (memória). A postura corporal é bem diferente daquela do leitor do jornal impresso. O corpo curva-se sobre uma máquina, convocando uma posição parecida com aquela de quem trabalha com computadores.

Um jornal em um e-reader, como o “Kindle” por exemplo, retoma a idéia de um produto fechado, como o jornal impresso, com uma temporalidade também delimitada (a edição do dia). Ao clicar para “baixar” o jornal (comprando um exemplar ou fazendo uma assinatura), o usuário tem a versão do dia, similar à versão impressa. Os caracteres digitais fixam-se como tinta eletrônica em uma tela sem luz que emula (bem) o papel. Há menos fotos que o impresso e, na sua maioria, não há o uso de links, como no jornal na web. Por suas características de “leitor eletrônico”, esse dispositivo procura trazer de volta a experiência de ler um livro ou um jornal em papel. Mas ele não é um suporte em papel. Embora o e-reader seja portátil, como o impresso, ele amplia as possibilidade de acesso já que o usuário pode, em um clique, receber um exemplar em qualquer lugar do mundo, em segundos (por redes sem fio – Wi-Fi ou 3G). Pode-se ainda acumular os exemplares sem que com isso tenha que carregar os cadernos impressos (ou os livros). E isso em um único aparelho de menos de 300g (a capacidade é de mais de 3 mil livros nos atuais e-readers). Com um conteúdo fechado (como um livro em papel ou o jornal impresso), a leitura é mais focada, diferente do “surf” na web. A postura corporal também é diferente, seja daquela do jornal na web, seja da leitura do jornal impresso: não se abre os cadernos em movimentos amplos dos braços, e não se está sentado com o corpo curvado em direção a um computador. A leitura é mais próxima da de um livro (duas ou uma mão diante dos olhos).

Já a leitura de um jornal ou livro em um tablet, como o iPad por exemplo, não é nem como a leitura de um jornal impresso, nem como um jornal na web, nem como a leitura em um e-reader. O tablet utiliza aplicativos adaptados ao dispositivo. A informação é fixada em uma tela iluminada (bem diferente do conforto da tinta eletrônica dos e-readers) oferecendo a possibilidade de uma postura próxima daquela de quem lê um livro (diferente assim daquela da web). Mas o conteúdo é outro, aberto, com links, interativo, multimidiático, adaptado à tela touch-screen e aos movimentos de rotação do equipamento. Por exemplo, ao usar o acelerômetro (rodá-lo e colocá-lo na horizontal ou vertical) uma imagem pode se transformar em um vídeo, um artigo em um gráfico, etc. A tela tátil permite uma interação mais complexa e intuitiva do que aquela com o teclado para a Web, ou as teclas para passar as páginas de um e-reader. A ação corporal é diferente daquela do impresso ou da web e bem mais próxima dos e-readers, embora a interatividade crie novas exigências de apoio do dispositivo, ou de movimentos, que o diferenciam.

Nesse rápido exemplo, vemos como uma análise da materialidade revela diversos agentes (dispositivos, produtores de textos, designers de software, de imagens e de sons, novas práticas e hábitos corporais, redefinição de lugares constituídos , de distribuidores, de leitores, de escritores, etc.). Todos esses atores humanos e não-humanos (LATOUR, 2005) têm um papel fundamental na comunicação. E isso não é uma novidade já que ocorre o mesmo desde o surgimento da escrita, na passagem às tabuas, pergaminhos e depois ao códex. Não podemos reduzir o processo comunicacional à simplicidade do esquema “emissor-mensagem-canal-receptor”, ou apenas à hermenêutica da mensagem.

(…)

Links para e-books

Na minha busca por e-books, encontrei alguns links interessantes que compartilho aqui. O Kindle usa o arquivo “mobi” (mas funciona com outros como PDF ou DOC) e os outros leitores, inclusive o iPad (que não é apenas um leitor), o arquivo “e-pub”, mas não há problemas de conversão usando programas para isso. Um desses programas é o Calibre que ajuda na conversão de diversos formato (http://calibre-ebook.com/):

http://www.feedbooks.com
http://www.gutenberg.org/wiki/Main_Page
http://www.free-download-ebooks.com/
http://ebooksgo.org/index.html
http://www.archive.org/details/texts
http://www.retroread.com/
http://gallica.bnf.fr/ebooks
http://www.munseys.com/joomla/
http://www.mobileread.com/
http://librivox.org/
http://www.ebouquin.fr/2010/02/27/ou-trouver-des-livres-electroniques/
http://www.ebooksgratuits.com/ebooks.php
http://www.fnac.com/telecharger-ebook.asp?NID=%2D73&RNID=%2D73
http://www.ebookcult.com.br/
http://purl.pt/index/geral/PT/index.html
http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/?idioma=Portugu%EAs
http://www.pdfebook.net/
http://www.fonerbooks.com/free.htm
http://openlibrary.org/
http://librairie.immateriel.fr/
http://www.ebookslib.com/
http://mozambook.free.fr/