“Ainsi, disait Bréhal, l’amour serais le temps devenu sensible. Pas du tout une affaire d’organes, ni même d’esprit en feu, mais un pacte de mots basculant en souvenirs perceptibles” (Julia Kristeva, Les Samourais).

Saiu e encontrou na rua a evidência que não esperava…parecia ter desaparecido para o resto do mundo. A chuva que não o molhara já anuciava o presságio de seu desaparecimento. Esbarrava em pessoas que nada sentiam, ou assim ao menos demonstravam, entrava em lugares e não era percebido, falava com pessoas que não respondiam ao seu apelo. Nesse momento pensou que estava morto, mas a dor da sua existência era tanta que comprovava exatamente o contrário. Estava vivo, sim, mas só para ele mesmo? e no fundo estamos vivos para outros que não nós mesmos? Até quando poderia suportar essa situação? Acendeu um cigarro e entrou no metrô mais próximo.

Ele não cessava de pensar naquele graffiti. Queria pular mas não sabia como. E o pior é que não era só a forma que o preocupava. No fundo, não sabia para onde ir. A inércia de sua vida sem graça o havia paralisado. Buscou então uma solução mais fácil, sair de relações viciadas e necrosadas. Isso já era, ao menos, uma forma concreta de ação, sem precisar buscar a solução ideal ou definitiva. Sabia que esta era impossível. Tomava consciência, naquela chuva que parecia não o tocar, que era resolvendo pequenos detalhes que poderia, de maneira mais madura, achar uma solução para sua penível vida. E assim o fez. Pensou, em primeiro lugar, em cortar relação com pessoas nefastas, pessoas que sugavam sua energia vital, embora nao acreditasse nem um pouco nesse papo de energia. Lembrou de uma música do americano Lou Reed, que ouvia sempre, independente de seu estado de espírito, “sword of democles”, onde o personagem dizia não acreditar nessas besteiras místicas. Ele era assim, concreto, quase um cientista que acredita tanto na razão que ela vira uma fé.

E assim, andando perdido por entre tumbas de gente famosa, naquela chuva fria e sem graça que o deixava indiferente, que começou a fazer uma lista de pessoas a evitar. Nao tinha mesmo mais nada a perder e então catologava nomes na sua cabeça, nomes que queria esquecer, todos os nomes a começar pelo seu. Nas alamedas molhadas do Père Lachaise, refletia sobre a importância de cada nome, sobre a incrível força desses nomes que criam monstros só em serem pronunciados. A palavra não mata a coisa, pensava, antes ela a cria de uma forma inexorável.

Mas ele estava no estado de não aceitar destinos. Nada mais naquele momento seria inexorável. Para tudo deveria haver uma saída…menos para a morte…pensou, olhando famosos fragmentos de corpos que, se é que ainda estavam lá, jaziam aos seu lado. Caminhou em direção à saída. Não queria mais compartilhar o silêncio dos mortos, queria a vitalidade da rua que pulsava para além dos muros do famoso cimitério. Precisava da vida em meio aos mortos, mesmo daquelas vidas banais, vidas virtuais que não tinham mais nenhum élan. Queria Belle Ville, queria o metrô Alexander Dumas, queria ver o Sena…queria dizer não a várias pessoas que circundavam sua vida como moscas um pote de mel. De agora em diante tudo iria começar a mudar lentamente, mas progressivamente, pensava em sua reflexão de cientista. Encontrou o sentido do pulo…esse não seria o pulo com ó maiúsculo, mas uma série de pequenos pulos quotidianos que iriam lhe dar força para superar a crise. Bom, era assim que pensava, pelo menos naquele instante. Cruzou a porta do Père Lachaise entendendo o sentido de sua visita.

Salut Francis et Celma, une bise chaleureuse si vous êtes là a me regarder…un coucou à la belle Yasmine.

Hoje vai essa…

“La mouche qui s’empiffre dans un pot de confiture n’epouvre pas le besoin de changer de décor” (W. Boyd, Les Nouvelles Confessions).

Oppps, alguns dias longe daqui…férias é isso aí…descompromisso. Mas não se desesperem pois a atualização constante vai continuar…Ah, já ia esquecendo…agora abandonei nosso bom e velho Rwindo$s para aderir a boa e sempre boa maça mordida…yes bye bye uncle Bill…

Cabe aqui depois, não agora, estou de férias, uma reflexão sobre a diferença cognitiva da utilização do mac em relação ao pc…mas fica pra próxima…

Para quem gosta de música eletrônica, o lançamento mundial da dupla francesa Daft Punk está chagando ao Brasil. Segundo a assessoria da gravadora EMI/Virgin no Brasil, “o lançamento nacional de ‘Discovery’ ainda não tem data definida devido a um atraso na chegada dos cartões que acompanham o CD”. Cada cópia do disco traz um cartão com identificação que dá acesso a áreas restritas do site oficial da banda (www.daftpunk.com), onde os fãs podem encontrar faixas inéditas.

” Mais vale esperar o acaso de um encontro, sobretudo sem ter o ar de esperar também. Pois é assim, dizem, que nascem as grandes invenções…” (Jean Echenoz, “Vou embora”, p. 45).

Passou um bom tempo do seu dia pensando no graffiti. Achava que deveria realmente entrar em um outro momento. Sua vida não era mais sua e disso ele não gostava nem um pouco. Durante toda a sua tranquila existência teve, ao menos é essa a impressão, o controle total, vivendo com um panopticum interior que monitorova todas as suas ações e pensamentos. Os pequenos deslizes, logo que fossem percebidos enquanto tais, eram corrigidos com severidade por ele mesmo. Não era questão de criação, de pais repressores ou coisa parecida. Ele era assim mesmo, controlador de seus impulsos, senhor do seu destino, mestre do seu dia a dia.
Mas agora tudo era diferente…sua vida nao era mais sua, tinha perdido o fio da meada e buscava agora soluções diferenciadas. Mas achar soluções diferenciadas nao era o seu forte…nunca exercera isso e nao era agora, de uma hora pra outra, que ele iria conseguir pular.

A chuva continua fina e o frio aumenta gradativamente ao passar das horas. Ele não consegue se mover diante do graffiti, e mesmo chovendo, continua se sentindo totalmente seco, inabalável e agora imóvel. Pensa na possibilidade metafórica do pulo e começa, pouco a pouco, a acha-la interessante..”não pare, pule!”…simples, prático e radical. O seu problema agora é: como parar e pular?; e para onde? Paralizado escuta vozes internas que lhe dizem aforismos incompreensíveis, misturadas com burburinhos de alguns passantes na chuva…