20/06

Decido hoje descer nos champs elysees e andar pelo Jardin des Tulleries. Na praca da concorde, uma enorme roda gigante oferecendo uma vista do alto de Paris. Dou tres voltas vendo a torre, a igreja do sacre coeur, o beabourg, a igreja de saint germains de pres, os invalides, o arco do triunfo, o louvre, a ache de la defence, a piramide…adrenalina contida, retomo meu caminho para as Tulleries…compro um sanduba e vou comer no jardim…o verao chegou, muito sol e o mundo inteiro alegre na rua…as mulheres e homens tiram as camadas de roupas e usam mini-saias, shorts, camisetas. Pego o metro e vou a Sorbonne assisir a conferencia final…depois cocktail no Hotel de Ville, prefeitura central de Paris…fala senadora (ela foi apresentada como senateur mas afirmou ser uma senatrice), professores e a contida festa comeca… Champagne e petiscos depois, fui a uma exposicao de arte popular: interessante mistura de esculturas em barro brasileira, bonecas japonesa saidas dos mangas, pop africano, mosaicos, esculturas, mobiles…E paralelamente esta no beaubourg a exposicao Os Anos Pop: Paris no seculo XXI revivendo os 60’s e 70’s…

Casa.

09.06/10.06 – saio de Salvador em vôo direto para o Porto. De lá um carro deve me pegar para me levar à Aveiro onde vou trabalhar durante uma semana. Vôo TAP, direto Salvador Porto. de lá outro TAP para Aveiro. Em todos como sempre lugares apertados e desconfortáveis. Primeira mancada: esqueco o cabo que alimenta o laptop de energia e fico a mercê da bateria…como não posso fazer nada, leio Les Nouvelles Confessions de W. Boyd, tomo um remédio ainda no primeiro trecho pra dormir e acordo em Lisboa. De lá ao Porto. O carro estava me esperando e me leva diretamente para o Hotel Imperial, já em Aveiro, onde havia ficado no ano passado. O chofer, venezuelano, muito interessante, se mostra amável, inteligente conhecendo muito da situação do Brasil e do Portugal. Mesmo sem ter acesso a Internet, como me falou, está totalmente globalizado. Chego cansado ao Imperial, durmo. Fuso horário de 4 horas…acordo, dou um rolé pela cidade, reencontrando bares e restaurantes. A cidade é pequena mas muito agradável…janto, tomo umas cervejas e volto ao hotel. Assisto a vitória do grande Guga em Rolland Garros e depois a mais uma derrapagem do Barrichello na potente Ferrari…agora é preparar o dia seguinte…

11.06 – segunda feira é sempre chata mas quanto estamos viajando parece que ela se transforma, ou nos transformamos, o que dá no mesmo. Acordo, falo como meus colegas portuguese e vou a Universidade de Aveiro para os primeiros contatos. Leio mais romances, agora, além do Boyd, mergulho também n'”As Pessoas dos Livros” de Fernanda Young que fala sobre a difícil, solitária e maravilhosa arte de escrever…almoço e tenho a tarde livre. Flano pela cidade e tento resolver o problema do laptop. Encontro pessoas que me ajudam a resolver o problema, maior ainda sendo um Mac…não sei se os portugueses são simpáticos, mas o de Aveiro têm se mostrado muito solícitos. O tempo está ótimo nesse começo de verão de 15 graus…gosto do frio. Saio a noite, leio, leio, leio…bebo alguns drinks e volto ao Imperial para me preparar para outro dia de trabalho…

12.06. manhã de reuniões para acertar detalhes do nosso convênio na Faculdade de Comunicação e Arte. Almoço com os simpáticos colegas em uma marina, recebendo aula da grande tradição portuguesa da navegação da qual fomos objeto de descoberta há 500 anos…Volto a tarde ao hotel para preparar a minha conferência do dia seguinte sobre cidades digitais…Acabo lendo apenas os romances. Compro mais um e leio agora 3 ao mesmo tempo. Muito interessante “Os sonhos de Einstein” de Alan lightman sobre o tempo. Bom isso, ler sobre o tempo quando se tem tempo, quando o tempo não passa. O tempo é a passagem dos acontecimentos ououtra coisa? A noite saio com amigos para conversar e beber. falamos de amenidades e da necessidade de se estabelecer uma tabela de conversão do nosso português ao português deles. depois de alguns Jack Daniels e de algumas Guiness, volto ao Hotel entorpecido e pronto para o sono reparador. Ligo a tv e vejo um documentário sobr ficção científica muito legal com a participacao do grande W. Gibson. Durmo feliz!

13.06. Acordo tarde e apressado para acabar a preparação da conferência qu nem começei. Sinceramente gosto disso, de ficar maturando a coisa e só preparar na hora. Gostei do que fiz, sem saber se eles vão gostar do que vou falar. As vezes pouco importa, se me dá prazer falar o que quero falar. Me dão uma sala high-tech mas como sempre sou sempre low-tech. Gosto de apenas falar, exercitar a retórica e não preencher minhas falhas com pirotecnia power pointeriana…Acordo tarde e perco o café do Hotel. vou até o lugar de acesso público a Internet, me conecto e checo os emails. Volto ao hotel e acabo de preparar minha fala da tarde. Deixo o hotel, como algo rápido e depois enfrento a platéia sobre o assunto das cibercidades…Conferência as 15:30, chego as 15:28h…impecável! Tudo se passa bem, eu acho! A noite vou a um jantar muito agradável na casa de um colega, muito simpático, com sua simpática família. Ele mora em Ovar, uma cidade a uns 70 km de Aveiro. No caminho, o Portugal profundo, com garças nos fios de alta tensão, casas com suas terras cultivadas, igrejas do século XVIII e XIX, com os típicos azulejos portugueses. Como sempre, comemos muito bem, bebemos vinhos verdes e maduros branco, conversamos bastante. Volto a Avairo e não quero dormir. Saio só e peregrino pelos bares lotatos e animados dessa pequena cidade. bebo algumas Kalachinikofs (sic) (drink a base de vodka, absinto e laranja flambada). Passo por uns 3 ou 4 bares, vendo as pessoas se animarem em pequenos grupos. bebo mais algumas cervejas e durmo tranquilo. Amanha nada pra fazer, apenas lidar com o tempo de um feriado…

14.06. feriado. acordo tarde …leio o jornal e duas coisas interessantes me saltam os olhos: um site (www.lisboa-abandonada.net), criado por um português que mora nos EUA e se assusta a cada vez que vem a Lisboa com o abandono de algums prédios. Cria o site e começa um movimento para debate público e ocupação dessas ruínas urbanas modernas. muito legal e é para isso mesmo que serve a Internet. Liberar o pólo da emissão, criar solidariedades temáticas, agitar a morosidade política e pública…Leio depois um artigo de alguém que não lembro o nome falando de cidades. O autor vai afirmar que sua cidade ideal é uma cidade de cidades, pedaços caleidoscópicos de várias cidades do mundo. cidade mundo, cosmopolita. Acho que concordo, a minha cidade ideal também é uma cidade com pedaços de várias outras: Praga, Istambul, Paris, Rio de Janeiro, Salvador, Amsterdã, Florença, Visconde de Mauá, Londres, Aveiro, Porto Alegre, Honfleur, e outras que se não me vêm a memória agora é porque não são tão importantes assim…a cidade é mesmo um mundo…e saio para ver CDs (os novos Radiohead, Coldcut, Daft Punk e Air chamam a minha atenção) e livros (romances, só romances me interessam nesse momento…). termino o livro da Fernanda Young, achando legal mas non troppo…me debruço sobre Les Nouvelles Confessions e os Sonhos de Einstein…estou mais nesse último agora…como um falafel em um shopping, tomo algumas cervejas e volto ao hotel. Do quarto do hotel ouço uma procissão passando, mesmo com os fones de ouvido o som me desperta deste diário e vou a janela…procissão de corpus christi…penso no meu corpo e em todos os corpos, nas prisões e nas atrações…Corpus Dei…pessoas com togas vinho empunhando crucifixos, banda marcial em marcha fúnebre e velhos em traje de gala, velhas em preto e jovens portugueses seguindo o cortejo…. Além da aura mórbida o Sol brilha lá fora na temperatura amena de 15 graus…amanha Paris….

15/06.

Saio do Imperial e rumo ao Porto para pegar o avião para Paris. No caminho passo pela cidade das cortiças, Sta. Maria da Feira, onde são produzidas as rolhas que são usadas em todo o mundo nos vinhos e champagnes. Não há tempo para visitar o museu, mas segundo o motorista que me leva ao Porto, valeria a pena uma visita. O museu foi doado à cidade por um milionário local. Estou no aeroporto, escutando musicas em mp3 no laptop que ainda tem energia em sua bateria…vou ao limite dele. O aeroporto está uma bagunça, com obras de ampliação por todos os lados..tento consumir no free shop mas é menor ou igual ao de Salvador…como ja não tenho muito dinheiro mesmo, o melhor e ficar quieto, comer um sanduba, aqui eles falam “uma sande”, beber uma “super bock” (www.superbock.pt) e esperar a hora de partir para a cidade luz!…

Lendo “Os sonhos de Einstein”: “a maior parte das pessoas aprendeu a viver o momento que passa. A justificação que dão é que se o efeito do passado sobre o presente é incerto, então não vale a pena dar importância ao passado; e, se o presente pouco efeito tem sobre o futuro, então não é preciso medir as consequências do presente. Pelo contrário, cada acto é uma ilha no tempo, valendo por si próprio. (…) Este mundo é um mundo de impulsos. Um mundo de sinceridades” (p. 30). E mais adiante: “apesar de a vida ser uma nave de tristeza, há nobreza em vivê-la por inteiro, e sem tempo não existe vida. Há, porém, outros que discordam, que preferem a felicidade eterna, mesmo que essa eternidade esteja presa e imobilizada como uma borboleta numa caixa”…e eu aqui preso no tempo e no espaço de um lugar como qualquer outro no mundo…aeroportos…

Chego em Paris no aeroporto de Orly. Uma senhora fica atrás de mim na fila do táxi e me toca duas vezes com seu carrinho de malas, olho pra trás e ela se toca…fico na fila e quando vou entrar no táxi ela me fala que eu tinha furado a fila…explico que estava na frente dela e que ela já havia, justamente, me tocado duas vezes…ela faz buuffff! e me digo, yes!!! estou na França, mais ainda, em Paris. Pego o táxi e vou a casa de amigos (Francis e Celma, ele francês, ela brasileira) em Malakoff. Excelente recepção, um jantar com duas garrafas de vinho e horas de papo para colocar assuntos em dia. Durmos bem no quarto emprestado pela bela e petite Yasmine…

16/06

Hoje sábado não tenho atividade e aproveito para flanar pela cidade e rencontrar o lugar em que passei cinco anos da minha vida, metáde da década de noventa. Vou a République e ando até o Beaubourg. Revejo o metrô e a lei do silêncio e do individualismo que reina ali dentro. Ninguém se olha, se fala ou se toca. E acho bom, já que não estou mesmo afim de papo…como é confortante essa situação muitas vêzes desconfortável. Essa couraça isola mas evita o encontro desnecessário, ao menos em alguns momentos. Para mim é idela, pelo menos hoje. Entro na Fnac e me sinto mal com tantos livros, cds, revitas…ohlala!, é isso o excesso avant l’ere da Internet. Me sinto impotente diante de tanto informação e ainda mais quando não temos dinheiro pra comprar tudo. Os preços nao mudaram muito mas o $Real sim…uma cerveja copo, R$4, uma maço de cigarro R$7, um CD R$40 e assim vai… Mas vamos lá: compro o novos DaftPunk e Air, musica eletrônica francesa de primeira. Compro também dois livros sobre cidades digitais e redes para me lembrar que estou aqui a trabalho, eheheh! Almoço em um lugar que ia sempre, La dame tartine, perto do Centro Georges Pompidou que me trás recordações de uma vida que não vem mais, de pessoas que não estão mais entre nós ou que tomaram outro rumo na vida…sem nostalgia, com alegria…Ouço Air e a primeira letra diz:

“we are the synchronizers

send messages through time code

midi clock rings in my mind

machines gave me some freedom

they drop me trough 12 bit samplers

we are eletronic performers

we are eletronic

we need to use envelope filters

to say how we feel

riding on magnetic waves

we search new programs for your pleasure

I want to patch my soul on your brain

BPM controls your heartbeats

we are the synchronizers

we are electronic performers”

Volto pra casa com as pernas cansadas, desacostumadas pelo carro que mata o espaço e nos deixa privados de toda flânerie…

17/06

Começa o domingão e vamos lá gastar essa perna sem muito uso. Passo por uma feira e me delicio com as particularidades da vida francesa: pães, geléias, frutas, legumes, vinhos…uma enormidade de delícias tradicionais. Páro em uma barraca e como uma galete medieval deliciosa (sei lá, deve ser da Bretagne), uma espécie de crêpe com legumes deliciosa. A feira é perto de Montparnasse, lugar que na década de 30 era o lugar da boêmia e intelectualidade parisiense…depois passa a ser Saint Germain de Pres, imortalizada por pensadores e escritores como Sartre, Beauvoir, Cortázar, entre outros. Em Saint Sulpice encontro uma feira de antiguidades, objetos muito interessantes que agregam pessoas menos pela funcionalidade do que pela aura do tempo que parece colar a eles…E não saí com esse objetivo: ir a feiras. Encontrei ao acaso, o que é sempre melhor… Pausa para descansar e tomar um café na mesma praça. Leio a revista de descolados parisienses Nova Mag. Lá me informo que a França está passando uma lei contra as free raves. É isso a França, tão moderna e tão tradicional…

Termino sonhos de Einsitein, o livro. Saio e vou em direção à Bastille. Na belíssima Ile de Saint Loius um grupo de ingleses, ou escoceses, tocam blues na rua e reúnem uma massa de pessoas. Sento no chào para apreciar esse show, grátis, ao vivo e vivo! O grupo é formado por tromptet, violao, bateria e clarineta cantando “Georgia, oh! Georgia”. Muito bom. Revigorado chego a bastille onde há uma feira de livros policiais (policier et polar)…incrível a vitalidade editorial francesa…muitos, muitos livros, cada um mais belos que os outros… Antes tenho que sair da calçada para dar passagem a uma passeata de “rollers” que tomam a cidade no domingo, e também nos dias de semana…muitas pessoas andam de patinete, bicicleta ou patins…isso me faz lembrar de novo a praga que é o automóvel…

Encontro um amigo e vamos jantar um couscous marroquino no Chez Omar, um dos melhores de Paris. Com a barriga cheia tomamos um ultimo drink no Web Bar, espécie de cyber café, e volto pra casa para preparar a semana que vem pela frente. Estou fora de Paris, na Ville de Malakoff, mas como tem metrô parece que estou na mesma cidade. É, o metro extende a cidade…

18/06

Hoje, segunda, começa o colóquio “La Socialité Postmoderne”, da qual participo como presidente de uma mesa redonda e como expositor. Reencontro amigos e a velha e medieval Sorbonne. Passo o dia a ouvir as diversas pesquisas em curso. Prefiro a flânerie mas é interessante ver a diversidade de assuntos que vão desde o religioso, passando pelas novas tecnologias, até o mangue beat e coisas do gênero. Cansado volto pra casa. A academia me tomou todo o tempo e não tenho mais nada de interessante a dizer.

19/06.

Caí da cama hoje. Acordo as 6h e, como toda manhã, vou a boulangerie comprar croissants e baguettes como sempre e em qualquer lugar maravailhosos. Mato assim a saudade. Hoje devo coordenar a mesa redonda sobre Criação e Técnica e, ao mesmo tempo, apresentar me trabalho sobre as cibercidades. Entro no metro e reencontro o silêncio e a indiferença, mas pouco importa de novo, estou concetrado no que vou falar e o silêncio me é até conveniente. Tudo se sai como o planejado na mesa redonda. Almoço com amigos e volto para assistir mais comunicações. A noite vou ao cocktail do colóquio no Espace Ricard…Veremos…

Estou agora sentado na Place de la Sorbonne, com um dia lindíssimo, não muito quente, não muito frio. Pessoas alegres nas sacadas dos cafés tomando sol ou simplesmente conversando…a cidade já está mais alegre com a aproximação do verão e da festa da música que acontece todo ano no dia 21 de junho, data do verão oficial aqui na Europa…

De volta depois de alguns Pastis e de um confit de canard na Bastille…

volto a ler Les Nouvelles Confession para chamar o sono…

No além mar…estou em Aveiro, Portugal para ver a experiência do projeto Aveiro Digital. Estou agroa em uma praça perto da prefeitura com uma belissima igreja, acessando a rede de um centro publico de acesso. Ao meu redor 14 computadores com webcam disponíveis gratuitamente pra quem quiser…as vezes é pouco e temos que esperar um pouco para achar uma maquina disponível, mas existem outros pontos de acesso.

à suivre…

um bom livro sobre a vida de uma filosofa holandesa…As Leis de Connie Palmen, Ed. 34, 1997

truismos do dia:
“o que vale é a rosa e não o nome da rosa”
“resista a toda forma de corrupção”
“pensar é hesitar”

“I designed another message device, but never constructed more than a tiny prototype. I had the idea after spending the afternoon watching a spider build a new web. imagine such a web, fashioned from crystal, spread over a town, or a province, or an entire empire. Imagine light of different colours and intensities transmitted through theses filaments, moduleted in a such way as to carry meaning. How perfect! How beautiful! Yet my model web measured no more than an arm’s span. It functioned as I planned, when stimulated by my system of optic sources. Yet it was just a toy to amuse the king, who could never grasp its true use or significance” (Sunya, de Hari Kunzru, in Tank, #10, out-june 2000, Tank publication, London.)

“Ainsi, disait Bréhal, l’amour serais le temps devenu sensible. Pas du tout une affaire d’organes, ni même d’esprit en feu, mais un pacte de mots basculant en souvenirs perceptibles” (Julia Kristeva, Les Samourais).

Saiu e encontrou na rua a evidência que não esperava…parecia ter desaparecido para o resto do mundo. A chuva que não o molhara já anuciava o presságio de seu desaparecimento. Esbarrava em pessoas que nada sentiam, ou assim ao menos demonstravam, entrava em lugares e não era percebido, falava com pessoas que não respondiam ao seu apelo. Nesse momento pensou que estava morto, mas a dor da sua existência era tanta que comprovava exatamente o contrário. Estava vivo, sim, mas só para ele mesmo? e no fundo estamos vivos para outros que não nós mesmos? Até quando poderia suportar essa situação? Acendeu um cigarro e entrou no metrô mais próximo.

Ele não cessava de pensar naquele graffiti. Queria pular mas não sabia como. E o pior é que não era só a forma que o preocupava. No fundo, não sabia para onde ir. A inércia de sua vida sem graça o havia paralisado. Buscou então uma solução mais fácil, sair de relações viciadas e necrosadas. Isso já era, ao menos, uma forma concreta de ação, sem precisar buscar a solução ideal ou definitiva. Sabia que esta era impossível. Tomava consciência, naquela chuva que parecia não o tocar, que era resolvendo pequenos detalhes que poderia, de maneira mais madura, achar uma solução para sua penível vida. E assim o fez. Pensou, em primeiro lugar, em cortar relação com pessoas nefastas, pessoas que sugavam sua energia vital, embora nao acreditasse nem um pouco nesse papo de energia. Lembrou de uma música do americano Lou Reed, que ouvia sempre, independente de seu estado de espírito, “sword of democles”, onde o personagem dizia não acreditar nessas besteiras místicas. Ele era assim, concreto, quase um cientista que acredita tanto na razão que ela vira uma fé.

E assim, andando perdido por entre tumbas de gente famosa, naquela chuva fria e sem graça que o deixava indiferente, que começou a fazer uma lista de pessoas a evitar. Nao tinha mesmo mais nada a perder e então catologava nomes na sua cabeça, nomes que queria esquecer, todos os nomes a começar pelo seu. Nas alamedas molhadas do Père Lachaise, refletia sobre a importância de cada nome, sobre a incrível força desses nomes que criam monstros só em serem pronunciados. A palavra não mata a coisa, pensava, antes ela a cria de uma forma inexorável.

Mas ele estava no estado de não aceitar destinos. Nada mais naquele momento seria inexorável. Para tudo deveria haver uma saída…menos para a morte…pensou, olhando famosos fragmentos de corpos que, se é que ainda estavam lá, jaziam aos seu lado. Caminhou em direção à saída. Não queria mais compartilhar o silêncio dos mortos, queria a vitalidade da rua que pulsava para além dos muros do famoso cimitério. Precisava da vida em meio aos mortos, mesmo daquelas vidas banais, vidas virtuais que não tinham mais nenhum élan. Queria Belle Ville, queria o metrô Alexander Dumas, queria ver o Sena…queria dizer não a várias pessoas que circundavam sua vida como moscas um pote de mel. De agora em diante tudo iria começar a mudar lentamente, mas progressivamente, pensava em sua reflexão de cientista. Encontrou o sentido do pulo…esse não seria o pulo com ó maiúsculo, mas uma série de pequenos pulos quotidianos que iriam lhe dar força para superar a crise. Bom, era assim que pensava, pelo menos naquele instante. Cruzou a porta do Père Lachaise entendendo o sentido de sua visita.

Salut Francis et Celma, une bise chaleureuse si vous êtes là a me regarder…un coucou à la belle Yasmine.