Locative Control

Locative Control

Estamos finalizando a disciplina Mdia Locativa no PPGCCC, e a discusso desta semana ser sobre controle e vigilncia. Mdias de localizao e do movimento, como escrevia ontem, as mdias locativas so meios de controle, de monitoramento e tambm de vigilncia. sempre bom reler os textos e se tivesse tempo (um dia de 80 horas e uma vida de 500 anos) poderia e adoraria me dar o prazer da releitura. Fiz isso para discutir com alunos textos que j havia lido. Agora reli o “Post-scriptum sobre as sociedades de controle” de Gilles Deleuze (1990) e gostaria de destacar duas passagens que remetem diretamente para a questo das mdias locativas e dos territrios informacionais. No cardpio ainda discusso sobre RFID, mobile social networking, ambientes pervasivos…


Entrada de um condomnio em Salvador.

Sobre mdias locativas, vejam a relao direta entre localizao, dispositivos digitais e mobilidade:

“No h necessidade de fico cientfica para conceber um mecanismo de controle que fornea a cada instante a posio de um elemento em meio aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletrnica). Flix Guattari imaginava uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graas ao seu carto eletrnico, que removeria qualquer barreira; mas, do mesmo modo, o carto poderia ser rejeitado tal dia, ou entre tais horas; o que conta no a barreira, mas o computador que localiza a posio de cada um, lcita ou ilcita, e opera uma modulao universal”

Sobre territrios informacionais (controle informacional na interface das dimenses fsicas e informacionais dos lugares), vejam como a “cifra” (a senha, o cdigo de controle) evidencia os novos territrios, perfis construdos a partir de cruzamento de bancos de dados. O lugar torna-se uma fuso de dimenses fsicas e de bancos de dados. Vejam:

“Nas sociedades de controle, ao contrrio, o essencial no mais uma assinatura e nem um nmero, mas uma cifra: a cifra uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares so reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integrao quanto da resistncia). A linguagem numrica do controle feita de cifras, que marcam o acesso informao, ou a rejeio. No se est mais diante do par massa-indivduo. Os indivduos tornaram-se ‘dividuais’, divisveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou ‘bancos’.”

Passando dos “banco de dados” aos Bancos:


Equipamento de controle “modular” de senhas, o “Multisenha”.

Interessante ver como, passando da moldagem (sociedade disciplinar) modulao (sociedade do controle), os bancos esto no s criando senhas de acesso (para aferir maior controle sobre a assinatura e o nmero de identificao – estes para Deleuze, instrumentos da sociedade disciplinar), mas senhas de acesso modulveis (sociedade do controle), geradas por um pequeno dispositivo (“multisenha”) que deve ficar com o usurio, produzindo uma senha a cada momento. Cria-se uma hiper-modulao, uma hiper-mobilidade e tambm um melhor controle.

O Unibanco (veja aqui um vdeo demonstrativo) j adotou o equipamento e comeou a distribuir aos correntistas. Quem no quiser, vai poder movimentar apenas pequenssimas quantidades de dinheiro. Ou seja, praticamente compulsrio. Notem que essa estratgia aponta para um controle que cresce e se expande (“os anis da serpente so complicados”, dizia Deleuze) atravs de uma maior mobilidade do usurio (j que o dispositivo como um chaveiro) e de uma maior mobilidade informacional (j que a cada uso uma nova senha gerada). Mas, na realidade, essa modulao de senhas uma estratgia usada pelos bancos para retirar a sua responsabilidade sobre roubo de senhas ou outros problemas eletrnicos que o correntista venha a ter. Agora a responsabilidade s dele. A culpa ou ser do provedor de acesso, como quer a lei Azeredo, ou sua mesmo, j que o banco transferiu para o dispositivo todo o controle sobre o acesso conta eletrnica. Aparentemente voc controla melhor sua conta, j que as senhas so mltiplas e em mobilidade mas, na realidade, o sistema que te controla melhor, dando ao mesmo tempo a impresso de uma maior mobilidade e liberdade.

As mdias locativas, onde localizao e mobilidade significam possibilidades de produo de sentido no espao e nos lugares, so tambm instrumentos de controle, monitoramento e vigilncia dos lugares, dos espaos e dos indivduos, agora enredados nos bancos de dados modulveis, fludos, inteligentes e onipresentes. No esqueamos que essas tecnologias, principalmente o GPS, tm origem militar.

Como alerta Deleuze:

“diante das formas de controle incessante em meio aberto, possvel que os mais rgidos sistemas de clausura nos paream pertencer a um passado delicioso e agradvel”.

2 Replies to “Locative Control”

  1. Oi Andr

    Este post veio mesmo no dia. Ontem li no internet banking: "seu carto vence em 8/12/08, procure o novo carto na agncia…"

    Hoje eu ligo para a agncia, j que no carto consta validade at agosto de 2012…. Resposta: no h carto aqui para voc. Seu carto est valendo. Mesmo a agncia tendo trocado de nmero, s trocaremos o carto no vencimento.

    Mas, … esqueceram de avisar ao computador e ao supermercado :))
    "carto invlido"

    Estou sem carto porque trocaram o nmero da agncia e levar 10 dias para fazer outro.

    kafkiano isso…

  2. Pois Andr,

    "Spot on" esse seu post relacionando com o Deleuze. Como a Fernanda costuma dizer, a TICs (entre elas as mdias locativas) permitem a tal vigilncia dissipada, dispersa, e eu acrescentaria infiltrada, invisvel, invasiva, e isso tudo ampliando as percepes e apropriaes imediatas do espao.

    Sobre o multisenha, o Bradesco tem o mesmo (l chamado de chave de segurana) h pelo menos 4 anos: http://www.bradescoseguranca.com.br/default.asp.
    O cliente pode escolher entre o aparelho que gera a senha na hora ou o carto plstico.

    Abrao, Rodrigo.

Os comentários estão fechados.