Coisas

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Artigo publicado dia 26/03 no Caderno de Sábado do jornal gaúcho Correio do Povo.

Abaixo versão integral com notas e referências.

Coisas
André Lemos (1)

And things, what is the correct attitude to adopt toward things?
Samuel Beckett

As Coisas e Nós
Vivemos cercados por coisas, mas as compreendemos muito mal. A cultura digital nos colocou em meio a uma desmaterialização na qual livros viram Kindle; vinis, mp3; lojas, Amazon; bibliotecas, Google. Ao mesmo tempo, livros, vinis, lojas e bibliotecas persistem. Tudo está ancorado em suportes materiais. Nesse jogo de virtualização e desvelamento, as coisas podem perder sentido e, o que é mais grave, agir sobre outras coisas e sobre nós mesmos sem que tenhamos consciência. Qual a atitude correta a adotar perante as coisas, pergunta Beckett?

Uma primeira atitude é entendê-las como constitutivas do sujeito. Elas dão sentido ao homem no mundo. Em Ser e Tempo, Heidegger destaca que a nossa relação com elas pode ser entendida de duas formas: Zuhanden, coisas “à mão”, que usamos e sentimos; e Vorhanden, coisas “presentes à mão”, que lidamos de forma abstrata. Como afirma Christ (2015), é por Zuhandenheit e Vorhandenheit que Dasein está no mundo. Portanto, não dá para separar sujeito e objeto (2). Michel Serres (1980) prefere chamá-los de “quase-sujeitos” e “quase-objetos”.

Uma segunda atitude é compreender que uma coisa é sempre uma série de outras coisas. Elas são mônadas, ao mesmo tempo unidade e rede, estabilizadas em agenciamentos temporariamente estáveis. Se desmontarmos os objetos à nossa volta, vamos identificar invenções, leis físicas ou químicas realizadas ou descobertas há séculos; design, processos ou materiais de diferentes países; leis de regulamentação e diretrizes de uso específicas (e isso em uma caneta Bic, na roupa que estamos usando, ou no mais recente computador ou smartphone). Coisas existem em relação, são dispositivos conectando aspectos materiais, discursivos, jurídicos, institucionais, organizacionais, arquitetônicos… (FOUCAULT, 1994).

Uma terceira atitude é reconhecer a sua agência. Longe de serem passivas, as coisas nos colocam em meio a dilemas éticos e/ou morais. Na atual cultura de hiperprodução de objetos reais e virtuais, eles explodem em múltiplos formatos e performances, transformando-se, mais do que nunca, em potentes mediadores (KNOR-CETINA, 2001). As coisas, fora, da ou na internet, bem como a internet enquanto coisa, agem, fazem fazer, nos interpelam. Portanto, devemos enfrentar duas questões (BENNETT, 2010): Como levar a sério os objetos, longe da ideia de que eles são passivos, reagindo às ordens de um sujeito autônomo? Como as soluções políticas mudam, quando levamos a sério a vitalidade e a agência dos objetos?

Adotando essas três atitudes, podemos nos perguntar agora sobre as coisas da internet, na internet e a própria internet enquanto coisa.

Coisas da Internet
As coisas da internet são não-coisas, informação em forma de dados, processados por algoritmos, materializados em serviços e interfaces midiáticas. Elas começam a aparecer nos anos 1970, mas só ganham visibilidade mundial a partir dos anos 1990 com a web. Desde então, alteraram as formas de comunicação da cultura de massa, criando produtos e/ou serviços, como os chats (troca de mensagens escritas a distância como um diálogo em tempo real), ou reconfigurando os existentes, como o email e as antigas formas de correspondência escritas. Criamos, consumimos e distribuímos coisas digitais o tempo todo, pois nossa vida está a elas integrada nas mais simples tarefa diária, como usar o cartão de crédito ou o celular.

É praticamente impossível viver sem criar mais coisas digitais. Elas transformam a cultura, ampliam as formas de comunicação humana, liberando a emissão, a conexão e o consumo planetário de informação. Elas perturbam a estabilidade das mídias e da cultura de massa, alteram hábitos, comportamentos, regras de convívio e negócios dentro e fora da rede. A atual expansão das coisas da internet é planetária. É o que chamamos de cibercultura. Mesmo os que resistem, sofrem com a exigência da conexão. Todas as ações das coisas da internet afetam as coisas fora dela, produzindo uma rede híbrida global, com grandes consequências sociais, culturais, educacionais e econômicas.

Elas produzem (e são) valor, em uma economia cada vez mais dependente de dados e informações. O Big Data (extraindo das coisas da internet informação para vender serviços, monitorar comportamentos, vislumbrar negócios ou criar outras coisas na internet), e a Internet das Coisas (IoT) (mercado de trilhões de dólares voltado para conexão de coisas fora da internet às coisas da internet) são duas das mais importantes áreas de crescimento da economia digital. As empresas de maior valor (agora e nos próximos anos) serão as que produzirem coisas na internet, extraírem e processarem dados das coisas da e na internet, e oferecerem coisas para acessar ou produzir mais coisas da e na internet. Hoje, junto às coisas da internet temos mais e mais coisas na internet.

Coisas na Internet
As coisas na internet, ou a “internet das coisas” (IoT), é a expressão da moda para definir protocolos de comunicação que fazem com que objetos reais e virtuais se conectem globalmente através de redes digitais, traduzindo, mediando e delegando ação para outras coisas (incluindo os humanos). A entidade europeia CERP (2009, p.6) a define como “… protocolos padrão e interoperáveis de comunicação onde coisas físicas e virtuais têm identidades, atributos físicos e personalidades virtuais…”. Sabemos que não há uma internet das coisas ou das pessoas, já que ela é uma rede sociotécnica (híbrida). A expressão é apenas a forma de identificar uma nova ecologia de objetos com capacidades infocomunicacionais autônomas. Estamos em meio a uma revolução que vai produzir objetos mais performáticos, com grande capacidade de agência infocomunicacional. Alguns estudos projetam mais de 75 bilhões de objetos conectados à internet até 2020.

De forma integrada, as coisas na internet vão envolver-se no que Karimova e Shirkhanbeik (2015) chamam de “comunidade de coisas”, reunião de objetos “inteligentes” tomando decisões relacionadas ao contexto, sentindo e comunicando eventos de grande complexidade a outros objetos. Com um self, pois saberão diferenciar-se de outros, elas, em comunidade, vão gerar, estocar e distribuir informações com grande poder de agência em todas as áreas da vida social. Imaginem a comunidade de coisas inteligentes em sua casa, no seu trabalho, ou no seu carro, agindo em um fundo, sem que você tenha realmente a percepção clara dos processos. Isso, pelo menos, até que ações específicas atinjam você: a seguradora cria formas de bloqueio da casa automaticamente, multas chegam a partir da comunicação independente entre seu carro e o sistema de monitoramento de trânsito, ou você é demitido por perda de produtividade a partir de dados de conexão durante seu dia de trabalho. Torna-se, portanto, urgente adotar atitudes corretas (Beckett) e pensar politicamente (Bennett) sobre esses novos “seres dentro das redes de comunicação” (KARIMOVA, SHIRKHANBEIK, 2015, p. 2).

Nessa nova “comunicação das coisas” (LEMOS, 2013), objetos sabem o que são, sentem, falam e agem sobre outros em uma rede de alcance planetário. Uma xícara “inteligente”, por exemplo, não é mais apenas um recipiente para líquidos, embora suas qualidades sensíveis sejam as mesmas (parece uma xícara comum). Com novas capacidades infocomunicacionais, ela passa a ter uma outra “qualidade real” (HARMAN, 2011), tornando-se uma mídia, uma entidade que comunica e tem consciência do seu estado e ambiente. Ela pode colher dados sobre os seus hábitos de consumo, “falar” com a sua chaleira (colocando-a para esquentar mais água), e enviar informações ao seu médico (ou sua seguradora), informando o seu consumo de cafeína. Associada ao seu relógio, tênis ou chave “inteligentes”, essa comunidade de coisas pode passar um quadro informacional completo dos seus hábitos de consumo, deslocamento ou sono. Esse é o promissor, e já em expansão, mercado dos wearables e dos smart objetos (3)(casa, carro, geladeira, fechadura, pulseira, relógio, tênis, cinto, balança, termostato, lâmpada…).

Reconhecendo essa agência informacional das coisas na internet, podemos pensar e agir politicamente em relação a questões urgentes como: coleta pessoal de dados, invasão de privacidade, sistemas de segurança e criptografia nas transações eletrônicas, garantia de liberdades e autonomia do sujeito, vigilância, monitoramento e controle… O perigo é não reconhecermos ou valorizarmos essa agência, como não reconhecemos ou valorizamos a agência dos objetos não informacionais no nosso dia-a-dia. Ainda mais agora, com essas coisas fofoqueiras falando sobre nós, colhendo informações sem que saibamos, ameaçando nossa privacidade e dirigindo nossa ação sobre o mundo. Com a IoT, a internet cresce enquanto coisa.

A Coisa Internet
A internet é uma rede de redes. Uma definição simples seria dizer que ela é uma rede digital que coloca máquinas em conexão a partir de protocolos específicos. Essas máquinas podem ser coisas digitais como um website, objetos, como telefones celulares, ou coisas comuns, agora, como uma xícara ou um relógio. Vimos que não há mais domínios sem sua influência. As coisas fora da rede, da rede e na rede estão cada vez mais interligadas. Ela é uma megamáquina de conexão, multidimensional, sem fim, sem limite. Há objetos conectados à internet no espaço sideral.

Como coisa, a internet nos interpela. Ela redefine constantemente a cultura e talvez seja hoje a mais importante rede sociotécnica do planeta. E como rede, ela é apenas potência, já que virtualmente coloca tudo em relação a tudo. Consequentemente, temos que interrogá-la a partir do olhar sobre as associações produzidas, por uma visão míope, nos detalhes. É por isso que críticas ou elogios panópticos não funcionam. A internet como coisa não faz sentido enquanto totalidade, já que se define por affordances ampliadas e abertas. Como coisa, a internet é uma entidade real, material e ao mesmo tempo, abstrata e utópica. Ela é assim como um Deus que tudo pode interligar e reunir.

A coisa internet requisita do mundo que ele se realize por suas performances, suas formas de comunicação, suas maneiras de criar e de mediar as relações entre entes que se definem pelas suas conexões. Ela se constrói a cada instante, em processo, pelo jogo das associações. Por exemplo, manter a sua “neutralidade” (isonomia no tráfego de dados pelas suas coisas) é uma forma específica de pensar suas associações. Garanti-la é um jogo político. É assim importante valorizar as conexões e colocá-las como parte integrante dos nossos dilemas, inclusive sobre a sustentabilidade do planeta. Essa valorização não passa por vínculos de substâncias, ou essências, mas por associações concretas e temporárias que devem ser feitas e refeitas a todo momento.

Nós e as Coisas

A partir das três atitudes propostas aqui para lidar com as coisas (reconhecimento de sua agência e não passividade; sua qualidade enquanto dispositivo, ao mesmo tempo unidade e rede; e de sua constituição híbrida com o sujeito), podemos nos colocar em causa e pensá-las como problema. Adotar essas atitudes é importante, pois estamos em meio a um rápido e extenso movimento de ação das coisas fora, da e na internet.

Aceitando a primeira, entendemos que as coisas nos fazem fazer coisas e nos jogam em questões éticas e morais. Adotando a segunda, compreendemos que as coisas não se definem por substâncias imutáveis, mais por associações. Cada coisa é um conjunto de outras coisas estabilizado. E com a terceira atitude, aceitamos que coisas, objetos, mídias e tecnologias não são extensão do homem. Elas nos constituem. Kittler (1999) estava correto e McLuhan (1964) errado. Somos Homo Fabricatus e não Homo Faber (LATOUR, 2012).

Com essas três atitudes em relação às coisas fora, da e na internet podemos agir politicamente, não de forma crítica a apontar essências, mas com olhos presos às associações. As soluções não se dão a priori, mas no reconhecimento de que é nas associações que elas se apresentarão. A definição de que seriam “boas associações” é sempre controversa e a única garantia de êxito é politizá-las. Dado que tudo está interligado, resta ainda achar a ação política que garanta formas de associação (a sociedade, portanto) sustentáveis. E se é questão de política, é questão de circulação da palavra, de abertura para o dissenso na busca por consensos e estabilizações. Não podemos então, não falar sobre as coisas. A questão maior hoje é como achar, politicamente, boas associações entre todas as coisas que garantam a nossa existência e a das coisas que não são nossas e que, por isso, não temos o direito de exterminá-las.

Notas

1. Professor Titular da Faculdade de Comunicação da UFBA.
2. Não diferencio, como Harman (2011), coisa e objeto.
3. Para exemplos, ver http://seniorgadgetsandgizmos.com/the-internet-of-things-for-2016

Referências

BECKETT, S (1994). Three Novels Molloy, Malone Dies, The Unnamable. New York: Grove Press.
BENNETT, J (2010). The Vibrant Matter. A Political ecology of Things. Durham, London: Duke University Press
CERP (2009). IoT – Internet of Things European Research Cluster. Internet of Things: Strategic Research Roadmap. http://www.internet-of-things-research.eu/pdf/IoT_Cluster_Strategic_Research_Agenda_2009.pdf
CHRIST, O (2015). Martin Heidegger‘s Notions of World and Technology in the Internet of Things age. Asian Journal of Computer and Information Systems (ISSN: 2321 – 5658). Volume 03, Issue 02, April.
FOUCAULT. M (1994). Dits et Écrits, Paris: Gallimard.
HARMAN, G (2011). The Quadruple Object. Winchester, UK, Washington, USA: Zero Books.
KARIMOVA & SHIRKHANBEIK (2015). Society of things: An alternative vision of Internet of things. Cogent Social Sciences, 1: 1115654. http://dx.doi.org/10.1080/23311886.2015.1115654
KITTLER, F (1999). Gramophone, Film, Typewriter. Stanford: Stanford University Press.
KNORR-CETINA, K (2001). Postsocial Relations: Theorizing Sociality in a Postsocial Environment. In Ritzer, G., Smart, B., Handbook of Social Theory. London: Sage.
LATOUR, B (2012). Enquete sur les Modes d’existence. Paris: La Découverte.
LEMOS, A (2013). A Comunicação das Coisas. Teoria Ator-Rede e Cibercultura. São Paulo: Annablume.
McLUHAN, H. M (1964). Understanding Media: The Extensions of Man. New York: The New American Library.
SERRES, M (1980). Le Parasite. Paris: Editions Grasset & Fasquelle.

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