Category: Quebec

Trem Wi-Fi

By André, 07/05/2008 9:21 pm

Mobilidade Total

A conexão wi-fi no trem Via Rail de Québec para Montreal, que estou usando agora, é um exemplo concreto da complexificação da mobilidade em direção à uma “mobilidade total”. Aqui temos todas as mobilidades: a fisica (corpo/transporte), a informacional (acesso a informação com possibilidades de emissão e produção de conteúdo, como esse post) e imaginária (os devaneios da minha mente em meio ao espetáculo que desfila pela minha janela…). Aqui vemos essa nova heterotopia informacional de um “lugar” que se desloca (o trem, como o navio para Foucault). Esse lugar (trem) ganha uma nova função (heterotopia), um novo sentido, ao permitir o acesso e a produção de informação, como estou fazendo agora. Há várias implicações positivas e negativas (que não vou desenvolver agora) mas apenas indicar: várias pessoas estão, como eu, conectadas, trabalhando, ao invés de estarem curtindo a viagem; não há muita conversa, a não ser duas senhoras que estão atrás de mim e não páram de falar ;-)), etc. Temos assim um trem como qualquer outro, só que com novas funções, que tenho chamado de heterotopia do controle informacional. Vejam a análise que fiz do avião em outro post que remete à essa mesma discussão.

As novas heterotopias são uma das questões mais importantes da nossa época. Michel Serres, em “Les Messages à distance” (Editions Fides, Montreal, 1995) que estou lendo agora nesse trem (sim, deixo a conexão de lado e leio, vejo a paisagem, ouço música…), começa o livro mostrando as mudanças na dimensão humana do trabalho e os regimes históricos que ele associa à primeiramente a Hercules, a força, o artesão, depois a Prometeu, o fogo, a máquina industrial, e agora a Hermes, a comunicação, a mensagem. Estamos agora, segundo Serres, no regime dos “Angelos”, os mensageiros. Na passagem abaixo vemos bem o trabalho em meio a essa “mobilidade total”.

Ele afirma:

“Considérez, le matin, lorsque vous partez au travail, la foule qui s’écoule par les rues: combien peu de Prométhées, encore moins d’Hercules et d’Atlas, pour tant et tant d’Archanges, partant en voyage, porteurs de messages? Nous vivons désormais dans une immense messagerie, où nous travaillons, pour une majorité, comme des messagers: partons moins de masses, allumons moins de feux, mais transportons des messages, qui, parfois, commendent aux moteurs. Messagers, messages et messageries, voilà, en tout, le programme du travail. Aux plans de l’architecte, aux dessins industriels succèdent réseaux et puces.” (p. 12).

Territoires

By André, 06/05/2008 11:46 pm

Territoires

Ainda no Musée de la Civilisation du Québec, visitei também a exposição Territoires , sobre a história da ocupação do Québec e das primeiras nações. Me deparei com defnições de território que me parecem interessantes e muito próximas das que apresento quando da discussão sobre o que venho chamando de “território informacional” (vejam meus artigos e posts sobre o tema efetuando uma busca nesse Carnet – link ao lado):

No texto de Henri Dorion (“Un Territoire ou des Territoires?”) no catálogo da exposição (“Territoires – Le Québec”, dirigido por Dekoninck, Marie-Charlotte, Musée de la Civilisation, Edition MultiMondes, QC, 2007), podemos destacar uma citação de Christine Chivellon e uma passagem de Dorion, respectivamente:

“Il s’agit de considérer le territoire comme le résultat d’une appropriation d’un espace offert comme champ de possible et (de) compreendre à travers ce travail opérer sur l’espace, la mise en place d’un système sémique médiateur de la relation à l’Autre” (p. 9)

“Le território est l’espace vécu…on n’en est pas à la fin des territoires, mais plutôt à leur virtualisation partielle, et surtout à leur complexification…” (p.12).

A primeira citação apresenta bem o que entendo como território informacional, esse espaço de controle informacional digital, uma apropriação das camadas eletrônicas e físicas de um espaço, criando um “lugar”, no qual o que está en jogo são trocas comunicacionais, ou seja, o embate com o “Outro”. A segunda citação remete a pregnância do lugar e dos territórios frente a globalização e as tecnologias do ciberespaço. Como estamos tentando mostrar, essas tecnologias, mais que nunca, não decretam o fim dos territórios, dos lugares, mas suas virtulizações e complexificações.

Urbanopolis,

By André, 06/05/2008 11:19 pm

Urbanopolis

Hoje visitei exposição Urbanopolis no Musée de la Civilisation du Québec. Belíssima exposição sintomaticamente esquecendo as mídias, os processos comunicacionais e o impacto das telecomunicações na transformação do espaço urbano. A exposição destaca demografia, a poluição, os projetos futuristas, o passado das cidades, as mudanças climáticas mas não há nada sobre o papel das midias.

Como já mostrei em outros post e em artigos, urbanistas e arquitetos parecem ainda não absorverem a importância dos meios de comunicação na formação das cidades: a escrita, a imprensa, o telégrafo, o rádio, o telefone, a TV e hoje as mídias digitais, incluíndo as novas tecnologias da mobilidade, foram e são hoje elementos fundamentais da construção social do espaço. Estou pesquisando esse tema tendo como exemplo as atuais mídias locativas, como os que acompanham esse Carnet sabem.


Exposição Ubanopolis, Québec

Para não dizer que não havia nenhuma referência, há um projeto de estudantes da Université Laval para a cidade do Québec de 2108 (!). Uma maquete futurista onde pode-se ler: “système de realité augmentée enveloppe les batiments (…) québec tisse des liens riche et complexes entre monde réel et l’univers virtuel (…) des lieux de reencontre se forment de façon aléatoire et spontanée à l’angle d’une rue…”.

2108???

Flânerie e GPS

By André, 06/05/2008 12:43 am

Flânerie e GPS

Depois do evento acadêmico no Palais de Congrès pela manhã, passei o dia todo andando, conhecendo a bela cidade do Québec, com certeza a mais européia das cidades canadenses. Aqui nasceu o Canadá, sendo descoberto em 1535 pelo francês Jacques Cartier. Capital da província do Québec, 94% da população são de origem francesa. A Universidade de Laval foi fundada em 1663 pelo padre Montmorency-Laval quando só haviam 600 haitantes por aqui! Bom, para mais infos sobre a cidade vejam a wikipedia ou guias de viagem! Andei muito e marquei meus percursos com o “GPS Tracker”. Coloco os mapas e as impressões imagéticas depois no “ciberflânerie”.


Percurso caótico de hoje a tarde

O interessante d GPS Tracker é que ele não é um localizador com mapas (como os equipamentos de GPS tradicionais, ou os GPS embarcados em telefones celulares), ou seja, não sei por onde estou andando, nem o que encontrarei pela frente, nem mesmo o que tem ao meu redor (a não ser o que meus olhos alcançam). Descubro as coisas andando ao acaso, ou com guias e mapas que não uso muito normalmente ;-)). Vejos coisas de interesse “turístico” também mas gosto de andar e ver pessoas, mercados, ruelas sem dar muito sentido ao percuso. O GPS não é para mim um guia, um indicador de percurso, ou mesmo um instrumento de localização. Até esqueço dele (ele é do tamanho de uma caixa de fósforos)… O dispositivo é mais um instrumento para o futuro me mostrar o passado do que um validador do presente: um instrumento mnemônico e locativo que só uso a posteriori. Praticamente, só vejo o meu percurso quando exporto os dados como arquivo “klm” e abro no Google Earth.

O tracker, e não o mapa com voz me dizendo “vire aqui ou ali”, é assim uma ferramenta ideal para flâneurs (embora totalmente dispensável ;-) ) , para aqueles que não buscam a produção de um percurso eficiente ou a rentabilização ao máximo dos custos da viagem ;-)). Para turistas objetivos buscando rentabilidade, o “GPS Traker” não serve para nada (bom serve se for acoplado à um celular ou laptop).

Só vejo o traçado (a imagem acima) quando lanço os dados no Google Earth e ele, magicamente, aparece (com erros, veja, que não andei no rio, dentro d’água!). Depois vou colocando as impressões que guardei em forma de fotos, vídeos ou posts no meu ciberflanerie…Me interesso particularmente por essa deambulação urbana, por essa “l’art de l’égarement”, como dizia Benjamin sobre Paris, e busco ver como as mídias locativas podem servir mais para a desorientação, para o encontro inusitado e casual, para a surpresa, do que para a localização, monitoramento, o controle ou vigilância do meu espaço. Com o GPS Tracker refaço o passado no futuro e curto o presente.

Estou lendo agora dois livros sobre o tema do nomadismo e da flânerie: um, como já falei aqui, do Atalli sobre a história universal do nomadismo, “L’Homme Nomade”, e um outro, mais ensaístico e ficcional, “Éloge de la Mache”, número da revista Moebius, 116.

Citações de três textos da revista Moebius:

“Ces marches sont orientées quand l’intérêt de la promenade tient tout entier dans l’intervalle. La promenade n’inspire pourtant pas le respect qu’on accorde à la rigueur du parcours semé d’observations exhaustives et méthodiques entre deux points. Le parcours trace une ligne; la promenade, un cercle où le promeneur perd don chemin” (Jean-Claude Brochu)

“…nous accueillons cette démarche (la flânerie, la promenade) comme une expérience où l’être humain cherche à établir un équilibre entre corps et esprit (…) Appelons donc cet état: rêvasserie” (Louise Cotnoir)

“Voici venu le temps où la marche s’arrête
immobile au milieu des souffles suspendus,
le goût de pleurer fendant seul la carcasse.
Ma carcasse. Ma car.
Rien, c’est tout.
C’est assez. Phénom
énalem…
…out.”
(André Brochu)

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