Carvanal

Fim de carnaval e a vida comea a retomar a normalidade. A cidade pra. Falam de TAZ, de reversibilidade do quotidiano e todos tm um pouco de razo. Trata-se, evidentemente, de uma zona de autonomia temporria e de uma quebra nos papis rgidos quotidianos. Mas tambm h exageros, j que nem tudo muda realmente e uma nova ordem se instala no caos. Na realidade, aqui em Salvador s confirmamos a norma e a organicidade da sociedade (e isso no necessariamente nefasto…)

Primeiro h a ordem scio-policial que tenta administrar a baguna: fecha ruas, cria espaos alternativos, organiza a circulao de trios e blocos, monta centros mdicos… O sistema estabiliza na crescente entropia da festa.

Segundo, a ordem psicossocial, em sua maioria, no to drasticamente invertida. Na realidade acho que no h inverso nenhuma. Quem conhece e mora em Salvador sabe que as pessoas no so to diferentes assim no seu dia a dia. Aqui o cliche funciona: o carnaval uma forma de vida (e isso no necessariamente bom…).

Parece que o carnaval apenas deixa que elas estravasem, sem culpa e sem muita vergonha, o que elas so sempre, em maior ou menor grau. O excesso de espao (simblica e fisicamente falando), o excesso de alegria (com simpatia e tambm super-simpatia que vira melancolia), o excesso de f e misticismo (que deixa um ar zen e complacente, sem ser a to propalada preguia) so exemplos da vida em Salvador antes e depois do carnaval.

Assim o carnaval em Salvador (e s falo desse lugar), ao mesmo tempo deregramento mas tambm confirmao do que se , consagrao da norma e do institudo. Salvador to bizarra que ela escapa da viso hegemnica do carnaval. E escapa estranhamente, j que no inverso do dia a dia ou desordem, como muitos afirmam ser o carnaval, mas confirmao do dia a dia como carnavalizao. No catarse da dor do dia a dia j que parece no haver dor. No dor acumulada e espelida como vmito festivo, mas a prpria vida em sua celebrao plena.

Se no h dor, se no h tristeza… Assim, s cabe celebrar o que se (e no falo sem saber das mazelas da sociedade soteropolitana, mas de uma forma de ser, de um imaginrio social que constri a vida local e coletiva). No h inverso nem quebra da ordem se no h do que se desvencilhar. No h, tampouco, do que se entristecer ou deprimir, j que a alegria um dever ser aqui. A alegria, essa insuportvel alegria que nos joga na ineficiente e, s vezes, dura necessidade da simpatia incondicional.

A existncia carnavalizada de Salvador s veste sua prpria mscara no carnaval, capitalizada por polticos, marketeiros, lderes comunitrios, msicos e outros artistas, professores universitrios, vendedores de cerveja e de acaraj que reivindicam e gozam, todos, na tal baianidade (que no da Bahia mas de Salvador).

Parece que a existncia carnavalizada, tipica do quotidiano baiano, s , por assim dizer, tranformada em uma espcie de carnavalizao da existncia (e isso no bom, nem mau). Nesses dias de folia, Salvador o que sempre, s que parodizada, exagerada, purpurinada e vitaminada.

Mas a festa acabou. A carnavalizao da existncia se foi e a existncia carnavalizada apenas recomea, para o melhor ou o pior.