09.06/10.06 – saio de Salvador em vo direto para o Porto. De l um carro deve me pegar para me levar Aveiro onde vou trabalhar durante uma semana. Vo TAP, direto Salvador Porto. de l outro TAP para Aveiro. Em todos como sempre lugares apertados e desconfortveis. Primeira mancada: esqueco o cabo que alimenta o laptop de energia e fico a merc da bateria…como no posso fazer nada, leio Les Nouvelles Confessions de W. Boyd, tomo um remdio ainda no primeiro trecho pra dormir e acordo em Lisboa. De l ao Porto. O carro estava me esperando e me leva diretamente para o Hotel Imperial, j em Aveiro, onde havia ficado no ano passado. O chofer, venezuelano, muito interessante, se mostra amvel, inteligente conhecendo muito da situao do Brasil e do Portugal. Mesmo sem ter acesso a Internet, como me falou, est totalmente globalizado. Chego cansado ao Imperial, durmo. Fuso horrio de 4 horas…acordo, dou um rol pela cidade, reencontrando bares e restaurantes. A cidade pequena mas muito agradvel…janto, tomo umas cervejas e volto ao hotel. Assisto a vitria do grande Guga em Rolland Garros e depois a mais uma derrapagem do Barrichello na potente Ferrari…agora preparar o dia seguinte…

11.06 – segunda feira sempre chata mas quanto estamos viajando parece que ela se transforma, ou nos transformamos, o que d no mesmo. Acordo, falo como meus colegas portuguese e vou a Universidade de Aveiro para os primeiros contatos. Leio mais romances, agora, alm do Boyd, mergulho tambm n'”As Pessoas dos Livros” de Fernanda Young que fala sobre a difcil, solitria e maravilhosa arte de escrever…almoo e tenho a tarde livre. Flano pela cidade e tento resolver o problema do laptop. Encontro pessoas que me ajudam a resolver o problema, maior ainda sendo um Mac…no sei se os portugueses so simpticos, mas o de Aveiro tm se mostrado muito solcitos. O tempo est timo nesse comeo de vero de 15 graus…gosto do frio. Saio a noite, leio, leio, leio…bebo alguns drinks e volto ao Imperial para me preparar para outro dia de trabalho…

12.06. manh de reunies para acertar detalhes do nosso convnio na Faculdade de Comunicao e Arte. Almoo com os simpticos colegas em uma marina, recebendo aula da grande tradio portuguesa da navegao da qual fomos objeto de descoberta h 500 anos…Volto a tarde ao hotel para preparar a minha conferncia do dia seguinte sobre cidades digitais…Acabo lendo apenas os romances. Compro mais um e leio agora 3 ao mesmo tempo. Muito interessante “Os sonhos de Einstein” de Alan lightman sobre o tempo. Bom isso, ler sobre o tempo quando se tem tempo, quando o tempo no passa. O tempo a passagem dos acontecimentos ououtra coisa? A noite saio com amigos para conversar e beber. falamos de amenidades e da necessidade de se estabelecer uma tabela de converso do nosso portugus ao portugus deles. depois de alguns Jack Daniels e de algumas Guiness, volto ao Hotel entorpecido e pronto para o sono reparador. Ligo a tv e vejo um documentrio sobr fico cientfica muito legal com a participacao do grande W. Gibson. Durmo feliz!

13.06. Acordo tarde e apressado para acabar a preparao da conferncia qu nem comeei. Sinceramente gosto disso, de ficar maturando a coisa e s preparar na hora. Gostei do que fiz, sem saber se eles vo gostar do que vou falar. As vezes pouco importa, se me d prazer falar o que quero falar. Me do uma sala high-tech mas como sempre sou sempre low-tech. Gosto de apenas falar, exercitar a retrica e no preencher minhas falhas com pirotecnia power pointeriana…Acordo tarde e perco o caf do Hotel. vou at o lugar de acesso pblico a Internet, me conecto e checo os emails. Volto ao hotel e acabo de preparar minha fala da tarde. Deixo o hotel, como algo rpido e depois enfrento a platia sobre o assunto das cibercidades…Conferncia as 15:30, chego as 15:28h…impecvel! Tudo se passa bem, eu acho! A noite vou a um jantar muito agradvel na casa de um colega, muito simptico, com sua simptica famlia. Ele mora em Ovar, uma cidade a uns 70 km de Aveiro. No caminho, o Portugal profundo, com garas nos fios de alta tenso, casas com suas terras cultivadas, igrejas do sculo XVIII e XIX, com os tpicos azulejos portugueses. Como sempre, comemos muito bem, bebemos vinhos verdes e maduros branco, conversamos bastante. Volto a Avairo e no quero dormir. Saio s e peregrino pelos bares lotatos e animados dessa pequena cidade. bebo algumas Kalachinikofs (sic) (drink a base de vodka, absinto e laranja flambada). Passo por uns 3 ou 4 bares, vendo as pessoas se animarem em pequenos grupos. bebo mais algumas cervejas e durmo tranquilo. Amanha nada pra fazer, apenas lidar com o tempo de um feriado…

14.06. feriado. acordo tarde …leio o jornal e duas coisas interessantes me saltam os olhos: um site (www.lisboa-abandonada.net), criado por um portugus que mora nos EUA e se assusta a cada vez que vem a Lisboa com o abandono de algums prdios. Cria o site e comea um movimento para debate pblico e ocupao dessas runas urbanas modernas. muito legal e para isso mesmo que serve a Internet. Liberar o plo da emisso, criar solidariedades temticas, agitar a morosidade poltica e pblica…Leio depois um artigo de algum que no lembro o nome falando de cidades. O autor vai afirmar que sua cidade ideal uma cidade de cidades, pedaos caleidoscpicos de vrias cidades do mundo. cidade mundo, cosmopolita. Acho que concordo, a minha cidade ideal tambm uma cidade com pedaos de vrias outras: Praga, Istambul, Paris, Rio de Janeiro, Salvador, Amsterd, Florena, Visconde de Mau, Londres, Aveiro, Porto Alegre, Honfleur, e outras que se no me vm a memria agora porque no so to importantes assim…a cidade mesmo um mundo…e saio para ver CDs (os novos Radiohead, Coldcut, Daft Punk e Air chamam a minha ateno) e livros (romances, s romances me interessam nesse momento…). termino o livro da Fernanda Young, achando legal mas non troppo…me debruo sobre Les Nouvelles Confessions e os Sonhos de Einstein…estou mais nesse ltimo agora…como um falafel em um shopping, tomo algumas cervejas e volto ao hotel. Do quarto do hotel ouo uma procisso passando, mesmo com os fones de ouvido o som me desperta deste dirio e vou a janela…procisso de corpus christi…penso no meu corpo e em todos os corpos, nas prises e nas atraes…Corpus Dei…pessoas com togas vinho empunhando crucifixos, banda marcial em marcha fnebre e velhos em traje de gala, velhas em preto e jovens portugueses seguindo o cortejo…. Alm da aura mrbida o Sol brilha l fora na temperatura amena de 15 graus…amanha Paris….

15/06.

Saio do Imperial e rumo ao Porto para pegar o avio para Paris. No caminho passo pela cidade das cortias, Sta. Maria da Feira, onde so produzidas as rolhas que so usadas em todo o mundo nos vinhos e champagnes. No h tempo para visitar o museu, mas segundo o motorista que me leva ao Porto, valeria a pena uma visita. O museu foi doado cidade por um milionrio local. Estou no aeroporto, escutando musicas em mp3 no laptop que ainda tem energia em sua bateria…vou ao limite dele. O aeroporto est uma baguna, com obras de ampliao por todos os lados..tento consumir no free shop mas menor ou igual ao de Salvador…como ja no tenho muito dinheiro mesmo, o melhor e ficar quieto, comer um sanduba, aqui eles falam “uma sande”, beber uma “super bock” (www.superbock.pt) e esperar a hora de partir para a cidade luz!…

Lendo “Os sonhos de Einstein”: “a maior parte das pessoas aprendeu a viver o momento que passa. A justificao que do que se o efeito do passado sobre o presente incerto, ento no vale a pena dar importncia ao passado; e, se o presente pouco efeito tem sobre o futuro, ento no preciso medir as consequncias do presente. Pelo contrrio, cada acto uma ilha no tempo, valendo por si prprio. (…) Este mundo um mundo de impulsos. Um mundo de sinceridades” (p. 30). E mais adiante: “apesar de a vida ser uma nave de tristeza, h nobreza em viv-la por inteiro, e sem tempo no existe vida. H, porm, outros que discordam, que preferem a felicidade eterna, mesmo que essa eternidade esteja presa e imobilizada como uma borboleta numa caixa”…e eu aqui preso no tempo e no espao de um lugar como qualquer outro no mundo…aeroportos…

Chego em Paris no aeroporto de Orly. Uma senhora fica atrs de mim na fila do txi e me toca duas vezes com seu carrinho de malas, olho pra trs e ela se toca…fico na fila e quando vou entrar no txi ela me fala que eu tinha furado a fila…explico que estava na frente dela e que ela j havia, justamente, me tocado duas vezes…ela faz buuffff! e me digo, yes!!! estou na Frana, mais ainda, em Paris. Pego o txi e vou a casa de amigos (Francis e Celma, ele francs, ela brasileira) em Malakoff. Excelente recepo, um jantar com duas garrafas de vinho e horas de papo para colocar assuntos em dia. Durmos bem no quarto emprestado pela bela e petite Yasmine…

16/06

Hoje sbado no tenho atividade e aproveito para flanar pela cidade e rencontrar o lugar em que passei cinco anos da minha vida, metde da dcada de noventa. Vou a Rpublique e ando at o Beaubourg. Revejo o metr e a lei do silncio e do individualismo que reina ali dentro. Ningum se olha, se fala ou se toca. E acho bom, j que no estou mesmo afim de papo…como confortante essa situao muitas vzes desconfortvel. Essa couraa isola mas evita o encontro desnecessrio, ao menos em alguns momentos. Para mim idela, pelo menos hoje. Entro na Fnac e me sinto mal com tantos livros, cds, revitas…ohlala!, isso o excesso avant l’ere da Internet. Me sinto impotente diante de tanto informao e ainda mais quando no temos dinheiro pra comprar tudo. Os preos nao mudaram muito mas o $Real sim…uma cerveja copo, R$4, uma mao de cigarro R$7, um CD R$40 e assim vai… Mas vamos l: compro o novos DaftPunk e Air, musica eletrnica francesa de primeira. Compro tambm dois livros sobre cidades digitais e redes para me lembrar que estou aqui a trabalho, eheheh! Almoo em um lugar que ia sempre, La dame tartine, perto do Centro Georges Pompidou que me trs recordaes de uma vida que no vem mais, de pessoas que no esto mais entre ns ou que tomaram outro rumo na vida…sem nostalgia, com alegria…Ouo Air e a primeira letra diz:

“we are the synchronizers

send messages through time code

midi clock rings in my mind

machines gave me some freedom

they drop me trough 12 bit samplers

we are eletronic performers

we are eletronic

we need to use envelope filters

to say how we feel

riding on magnetic waves

we search new programs for your pleasure

I want to patch my soul on your brain

BPM controls your heartbeats

we are the synchronizers

we are electronic performers”

Volto pra casa com as pernas cansadas, desacostumadas pelo carro que mata o espao e nos deixa privados de toda flnerie…

17/06

Comea o domingo e vamos l gastar essa perna sem muito uso. Passo por uma feira e me delicio com as particularidades da vida francesa: pes, gelias, frutas, legumes, vinhos…uma enormidade de delcias tradicionais. Pro em uma barraca e como uma galete medieval deliciosa (sei l, deve ser da Bretagne), uma espcie de crpe com legumes deliciosa. A feira perto de Montparnasse, lugar que na dcada de 30 era o lugar da bomia e intelectualidade parisiense…depois passa a ser Saint Germain de Pres, imortalizada por pensadores e escritores como Sartre, Beauvoir, Cortzar, entre outros. Em Saint Sulpice encontro uma feira de antiguidades, objetos muito interessantes que agregam pessoas menos pela funcionalidade do que pela aura do tempo que parece colar a eles…E no sa com esse objetivo: ir a feiras. Encontrei ao acaso, o que sempre melhor… Pausa para descansar e tomar um caf na mesma praa. Leio a revista de descolados parisienses Nova Mag. L me informo que a Frana est passando uma lei contra as free raves. isso a Frana, to moderna e to tradicional…

Termino sonhos de Einsitein, o livro. Saio e vou em direo Bastille. Na belssima Ile de Saint Loius um grupo de ingleses, ou escoceses, tocam blues na rua e renem uma massa de pessoas. Sento no cho para apreciar esse show, grtis, ao vivo e vivo! O grupo formado por tromptet, violao, bateria e clarineta cantando “Georgia, oh! Georgia”. Muito bom. Revigorado chego a bastille onde h uma feira de livros policiais (policier et polar)…incrvel a vitalidade editorial francesa…muitos, muitos livros, cada um mais belos que os outros… Antes tenho que sair da calada para dar passagem a uma passeata de “rollers” que tomam a cidade no domingo, e tambm nos dias de semana…muitas pessoas andam de patinete, bicicleta ou patins…isso me faz lembrar de novo a praga que o automvel…

Encontro um amigo e vamos jantar um couscous marroquino no Chez Omar, um dos melhores de Paris. Com a barriga cheia tomamos um ultimo drink no Web Bar, espcie de cyber caf, e volto pra casa para preparar a semana que vem pela frente. Estou fora de Paris, na Ville de Malakoff, mas como tem metr parece que estou na mesma cidade. , o metro extende a cidade…

18/06

Hoje, segunda, comea o colquio “La Socialit Postmoderne”, da qual participo como presidente de uma mesa redonda e como expositor. Reencontro amigos e a velha e medieval Sorbonne. Passo o dia a ouvir as diversas pesquisas em curso. Prefiro a flnerie mas interessante ver a diversidade de assuntos que vo desde o religioso, passando pelas novas tecnologias, at o mangue beat e coisas do gnero. Cansado volto pra casa. A academia me tomou todo o tempo e no tenho mais nada de interessante a dizer.

19/06.

Ca da cama hoje. Acordo as 6h e, como toda manh, vou a boulangerie comprar croissants e baguettes como sempre e em qualquer lugar maravailhosos. Mato assim a saudade. Hoje devo coordenar a mesa redonda sobre Criao e Tcnica e, ao mesmo tempo, apresentar me trabalho sobre as cibercidades. Entro no metro e reencontro o silncio e a indiferena, mas pouco importa de novo, estou concetrado no que vou falar e o silncio me at conveniente. Tudo se sai como o planejado na mesa redonda. Almoo com amigos e volto para assistir mais comunicaes. A noite vou ao cocktail do colquio no Espace Ricard…Veremos…

Estou agora sentado na Place de la Sorbonne, com um dia lindssimo, no muito quente, no muito frio. Pessoas alegres nas sacadas dos cafs tomando sol ou simplesmente conversando…a cidade j est mais alegre com a aproximao do vero e da festa da msica que acontece todo ano no dia 21 de junho, data do vero oficial aqui na Europa…

De volta depois de alguns Pastis e de um confit de canard na Bastille…

volto a ler Les Nouvelles Confession para chamar o sono…