Livro “Teoria Ator-rede e estudos de comunicação”

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Teoria ator-rede e estudos de comunicação, organizado por André Lemos,

O livro busca, principalmente, apresentar a Teoria Ator-Rede (TAR): uma corrente teórica ainda pouco explorada e conhecida na área de comunicação no Brasil, que leva em consideração processos de associação em rede através de mediações entre atores humanos e não humanos. Além disso, a obra é resultado de um experimento acadêmico envolvendo a aplicação da TAR aos estudos de comunicação, o que gerou a produção de textos que tratam de diversos aspectos da cultura e da comunicação contemporânea, tais como a fotografia, o cinema, as séries televisivas, os jornais, os movimentos políticos e as redes sociais.

Lançamento dia 27/10 às 17h na Reitoria da UFBA

Imaterialismo

 

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Finalizaremos amanhã no Lab404  a discussão do “Immaterialism” de Graham Harman (Polity, 2016). Nesse livro, o filósofo aponta, através de uma análise “imaterialista” (OOO aplicada, se podemos dizer isso) da Dutch East India Company (oferencendo um interessante modelo de análise para qualquer objeto), as suas diferenças em relação à teoria ator-rede. Harman vai negar pilares fundamentais da Teoria Ator-Rede (TAR), afirmando, por exemplo, que objetos são mais interessante em suas substâncias do que em suas ações, que a essência de um objeto não é nem o que ele faz nem do que ele é composto (mostrando a insuficiência da análise dos objetos pelos seus efeitos ou pelo materialismo científico) e, principalmente, negando-se a ver na controvérsia o momento central para entender a vida dos objetos. 

Opondo-se a isso, o “immaterialism” de Harman quer, ao contrário, ressaltar o que eles são quando não fazem nada, quando estão calados, isolados, desconectados, para usar um jargão atual. O objeto não é para o imaterialismo o que surge da ação, mas o que a permite. Antes de apontar efeitos e controvérsias, o que importa é mostrar as suas simbioses (na minha opinião, o conceito-chave e o mais interessante do livro), visão bem diferente da ideia do “ser-enquanto-um-outro”, de Latour no Enquete. Harman mantém a admiração pela TAR e pela obra de Latour, mas aponta o que para ele são limitações de sua ontologia dos objetos, já que situa-se em uma forma de entendimento que ele chama de “overmining”. Vale a pena a leitura, mesmo que os detalhes históricos sejam por vezes enfadonhos. O livro pode ajudar a aprofundar o debate sobre a TAR e suas críticas.

Future City Glasgow

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Artigo Future City Glasgow: Action programs, tensions and contra- dictions in a Smart City project, escrito com meu colega André Holanda, acaba de ser publicado na Revista Comunicação e Inovação.  O dossiê com artigos sobre cultura urbana está bem interessante.

Abaixo o resumo do nosso artigo:

“O artigo aborda fatores econômicos ligados ao aparato de vigilância do espaço público no projeto Future City Glasgow, modelo para a adoção de padrões oficiais para projetos de smart cities  no Reino Unido. Este estudo foi realizado no âmbito de uma rede internacional de pesquisadores em torno do projeto “Augmented urbanity and smart technologies: how ‘smart’ are our cities becoming?”, financiado pelo Newton Fund. Utiliza-se a Teoria Ator-rede e um modelo brasileiro de classificação de projetos de smart cities, além da metodologia Infralab, da rede de pesquisas citada.”

 

 

Técnica, Lúdico e Teoria Ator-rede

Dois artigos recém-publicados sobre os temas da técnica e dos games a partir da teoria ator-rede.

Critique of the essentialist critique of cyberculture – Revista Matrizes

The aim of this article is to analyse the critique of cyberculture through a discussion of the essence of technology. The article revisits the classic treatment of this theme and its actualization in the viewpoints of the new critics of digital culture. The central argument is that the traditional critical perspective (fundamentalist or pessimistic) fails to address the phenomena of digital culture due to this essentialist bias. The article proposes an analysis of cyberculture based on Actor-Network Theory (ANT), arguing that a focused view, sticking closely to the constituent networks of technical phenomena and the associations that form the social, may offer a solution to the empirical failure of critique.

Por um modo de existência do lúdico – Revista Contracampo

O objetivo deste artigo é discutir a teoria ator-rede a partir dos “modos de existência”, sugerindo a inclusão de mais um modo para pensar a modernidade. Discute-se uma questão que a leitura do último livro do sociólogo francês Bruno Latour, Enquête sur les modes d’Existence (2012), deixa em aberto: a ausência de um “modo de existência” do lúdico. Parece faltar esta que é uma das importantes dimensões da produção da subjetividade moderna. O artigo apresenta os modos de existência, propõe mais um modo (lúdico), apontando para a existência de “seres do jogo”, e estabelece correlações deste com outros modos, como o da técnica, o da metamorfose e o da ficção. O objetivo é contribuir para a discussão sobre a teoria ator- rede, os estudos sobre os games e ao campo da comunicação como um todo.

Caixa Preta Soteropolitana

Estamos em crise com a cidade da Bahia!

Converso com as pessoas e todas estão espantadas com o atual estado da cidade. Um simulacro de cidade, parecendo ser governada, parecendo ser habitada, mas que no fundo é uma agregação de coisas e pessoas que só se mantêm e sobrevivem do improviso, do individualismo e do esquecimento (“ah, deixa prá lá!”).

Não se vai mais à praia, já que não temos mais barracas (sim, precisavam ser padronizadas, limpas, controladas, mas devem existir e fazem parte da praia no nordeste. Mas até agora, nada ainda foi feito), os pontos turísticos estão entregues ao tempo e ao abandono. O Pelourinho está nesse estado há anos (pedintes, crack, ladrões…). O que as pessoas com quem eu conversei fazem agora é ficar em casa, visitar amigos, ou ir pateticamente, ao shopping. Levo meu filho nas praças públicas, mas elas são, com algumas exceções, um lixo, literalmente. Triste cidade da Bahia.

É unanime: a cidade está abandonada, sem inteligência política ou mesmo cultural. Uma lástima por todos os lados: transito caótico, instituições falidas, violência bandida e cidadã, deselegância e falta de educação básica, caos na saúde, na limpeza, no transporte público…enfim, tudo o que uma metrópole tem de ruim, sem ter o que elas (as metrópoles) têm de bom: civilidade, equipamentos de qualidade, bons programas culturais, inteligensia, bons e agradáveis lugares para se visitar, baratos e para todos. Nada disso encontramos em Salvador.

Tenho trabalhado com a Teoria Ator-Rede e um dos conceitos fundamentais é o de caixa-preta. Caixa-preta é um “conjunto” tão estável e bem resolvido que nos relacionamos com ele e não prestamos muita atenção. Ele desaparece em um fundo quando tudo está bem. Por exemplo, se o seu computador está ok agora, você nem pensa nele e pode continuar e ler o meu post. Mas se começar a travar, a desligar ou incomodar de alguma outra forma a sua leitura, você começa a pensar nele, a buscar saber de onde vem o defeito, quais seriam as causas. Você vai prestar atenção (ele sai do fundo) e tentar, aos poucos, resolver o problema. A caixa-preta se abre e revela os seus segredos: os problemas técnicos, de projeto, de design, de interface, de regulação, de política, de mão de obra etc.

O objetivo da teoria ator-rede é abrir as caixas-pretas do social por meio de controvérsias. Só assim o social pode aparecer, enquanto rastro das diversas associações entre humanos e não-humanos. Ao cientista social cabe fomentar controvérsias e abrir caixas-pretas. Elas não são apenas “coisas”. Um conceito estabilizado, por exemplo, é uma caixa-preta. Um estereótipo é uma caixa-preta.

Quando não conseguimos abrir a caixa preta, ela é tida como a realidade. A realidade é um enunciado difícil de derrubar, vai dizer Bruno Latour. Precisamos abrir caixas-pretas para ampliar a nossa noção de realidade, a nossa vivência nela, ou simplesmente questionar o que pensamos sobre ela. Assim, se digo que o brasileiro é um “homem cordial” ou que Salvador é uma “cidade da alegria”, para muitos isso tem um efeito de realidade. É inquestionável. Mas, para os chatos e implicantes, deve-se sempre abrir essas caixas-pretas e revelar o que está por trás (ideologicamente, politicamente, socialmente, culturalmente, tecnicamente…). Só assim poderemos, por exemplo, conhecer melhor o que se entende por Brasil ou por Bahia.

Devemos fazer isso em Salvador para compreender melhor os seus problemas. Mas o nosso problema aqui (em Salvador, mas seria também no Brasil?) é que não há mais caixas-pretas. Tudo está aberto, escancarado, revelando de forma tão visível, límpida e até mesmo pornográfica, as entranhas complexas (sociais, econômicas, políticas, técnicas, culturais…) dos seus problemas.

A violência no dia a dia abre a caixa-preta dos que vivem achando que aqui todo mundo é de Oxum, de paz e de alegria, ou dos que vivem em seus carrões blindados e/ou em condomínios de luxo fechados, achando que tudo só acontece lá na periferia. A caixa-preta abriu, revelando que todos estão vulneráveis, que a polícia é incompetente e a política pública de segurança ineficaz. A chuva que cai agora em Salvador, como todas as outras, abre o asfalto, entope os esgotos, desliza as casas nas encostas, apaga os semáforos…As caixas-pretas estão todas abertinhas, e só não vê quem não quer: péssimas condições das obras viárias, da habitação e de sua política, do transporte público, dos equipamentos e da infraestrutura de energia elétrica…

A cada chuva os semáforos se apagam e a caixinha abre: problemas técnicos, de licitação dos equipamentos, de infraestrutura urbana, de suporte e manutenção elétrica, de ineficácia dos orgãos responsáveis, de descaso e desorganização…O metrô é a piada pronta de sempre (lento, lento, como tudo na Bahia, dizem!). Os seus intermináveis 6 km (ah!) não ficam prontos, mas não há segredo. Todos já vimos essa caixa-preta aberta: corrupção, incompetência, descaso com a coisa pública e mais corrupção e rios de dinheiro. As estradas, como a BR 324 agora no trecho SSA-Feira de Santana, por exemplo, foram privatizadas e o pedágio cobra com uma eficiência robótica, mas os buracos e as péssimas condições continuam. Precisa abrir a caixa-preta? O Ferry Boat, desde a sua privatização, insiste em fazer os usuários de bobo e as mazelas são todas conhecidas (incompetência, impunidade, descaso político…).

Precisamos abrir as caixas-pretas? Claro que não. Elas estão escancaradas. Todos sabemos o que ocorre: péssimas licitações, falta de seriedade e de respeito, ganância, descontrole e falta de fiscalização do Estado…Aqui tudo é muito óbvio. As caixas-pretas vão se abrindo sozinhas. Nem precisamos nos esforçar muito para ver as coisas. Está tudo aí, visível: a precariedade da infraestrutura da cidade, a inapetência e incompetência dos gestores, o descaso burro e míope das elites, a ignorância e mal educação das pessoas na rua, o descaso com o outro e com a coisa pública no dia a dia (que é um sintoma do “dane-se, vou cuidar do meu”). Ninguém pode dizer que as caixas-pretas estão fechadas. Sabemos de tudo e conseguimos ver tudo a cada pequeno problema (as caixinhas se abrem todas, facilmente, a cada nova chuva, a cada novo jogo em Pituaçu, a cada festa de largo, ou na casa do vizinho, a cada ida ao Pelourinho para mostrar à tia que chegou de São Paulo…).

E isso é o que mais me assusta. Se abrir caixas-pretas é condição fundamental para alterar a realidade, para questionar os enunciados estabilizados, o que estamos esperando então? Se nada acontece por aqui, quando todas as caixas pretas estão abertas e não temos a desculpa de dizer que não estamos vendo, como poderemos ter esperança em alguma mudança? Um salvador ou um herói aparecerá na próxima eleição? Ora, já abrimos essa caixa-preta também!

Não há mais caixa-preta, ninguém acredita em mais nada, a realidade está em aberto, mas ninguém sabe o que fazer. Tudo está sendo questionado, tudo está escancarado, mas ninguém tem a menor ideia em como construir o presente. A barbárie está batendo nas nossas portas.

Que a esperança, sempre pendurada na caixa de Pandora, nos salve!

PS. Como sempre, falo de onde estou, mas tenho certeza que isso se aplica também a quase todas (se não todas) as capitais do Brasil. Olhe ao redor e tente abrir as suas caixas-pretas, se é que elas já não estão também escancaradas em suas cidades!