Smart Dublin Launch

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Smart City Dublin

No último dia  8 de março foi realizado o lançamento oficial do Smart Dublin no belo e histórico prédio do Dublin City Hall em Dame Street, Dublin 2. A apresentação teve como hosts Jamie Sudden (Smart City Program Manager) e Philomena Poole (Chief Executive of Dún Laoghaire-Rathdown County Council).  Os desafios apontados para o futuro próximo estão organizados em seis grandes áreas: smart mobility, environment, smart government, smart people, smart economy e smart living. Detalhes e mais informações podem ser acessadas no site indicado acima. O lançamento me parece ter sido um passo importante para destacar Dublin como uma das mais interessantes iniciativas de “cidades inteligentes” no mundo.

A primeira constatação em relação à importância do projeto vem da fala de abertura do evento de Rob Kitchin: “Dublin está passando do estágio de uma accidental city para uma coordinated city“. Essa frase me parece ser a síntese da atual fase do projeto, e o objetivo maior desse lançamento público. As autoridades locais estão buscando formas de organizar projetos, coordenando  esforços em uma iniciativa mais integrada de “smart city”. Não se trata de início de um projeto, já que muitas iniciativas já estão em andamento há alguns anos.  O projeto visa coordenar melhor as ações “acidentais” nas quatro  regiões que compõem o condato de Dublin (Dublin City, Fingal, South Dublin e Dún Laoghaire-Rathdown). Trabalho recente de Claudio Coletta e Liam Heaphy mostraram como Dublin é hoje uma “emergent smart city“.

Pretende-se agora apresentar uma narrativa forte e oficial sobre o que se entende por “smart city” em Dublin, buscando desenhar uma política governamental, atrair empresas e investidores, fomentar iniciativas inovadoras e empreendedoras, e engajar a sociedade civil. Há nitidamente um esforço de construção de uma narrativa e de uma identidade que precisa ser difundida, compreendida e fomentada. No entanto, vi pouca intervenção midiática no dia do evento e houve pouca repercussão posterior. Só encontrei uma matéria no The Irish Times sobre o evento.

A foto abaixo mostra a rede de atores envolvidos (empresas, universidades e autoridades locais), tendo o Dublin City Council como um articulador importante. O sucesso, está dito no slide, é construir essa colaboração e expandir o ecossistema.

Actors Network

O lançamento destacou alguns dos projetos já em andamento. Eles compõem um conjunto de iniciativas muito interessante, habilitando a cidade a passar a essa nova etapa, agora com mais maturidade. Nesse conjunto temos o Dublin Dashboard, portal que oferece informações em séries históricas e/ou em tempo real sobre diversos aspectos da cidade; o Diblinked, fruto de um esforço coordenado para tornar os dados públicos abertos e  operacionais para todos, com licenças em Creative Comuns (CC-BY);  o Dublin Flood Management, um sistema de monitoramento de enchentes em parceria com a Intel; o Dublin City Noise, para detectar e informar sobre o nível de ruído na cidade. Embora tenha poucos sensores no centro de Dublin, há dados desde 2013. Uma matéria do Irish Independent de 2014, informava que havia mais de mil sensores espalhados pela cidade (temperatura, umidade, CO2…). Hoje esse número deve ser bem maior  (estou investigando o estado da IoT na Irlanda e em breve apresento números mais precisos). Abaixo algumas imagens e vídeos desses projetos.

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Dublin Dashboard

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Intel Flood Monitoring System in Dublin

Dublin Flood Management

Mapa dos sensores do monitoramento de enchentes

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Mapa dos sensores do monitoramento do nível de ruído

Dublinlinked - Pauline Riordan

Dados gerados por sensores no Dublinked

Um outro projeto interessante, e que mereceu destaque no lançamento, é o coordenado pelo laboratório Connect (dirigido por Linda Doyle), o  Pervasive Nation. Ele pretende criar uma infraestrutura de rede capaz de abranger todo o país para viabilizar projetos de internet das coisas. O projeto já está com alguns nós operacionais, e Doyle é bastante otimista quanto ao futuro. Ela prevê a expansão da rede e a chegada de usuários os mais diversos para lhe dar densidade e uso efetivo.

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Connect ePervasive Nation – Linda Doyle

Ainda no que se refere à internet das coisas, merece destaque o living lab (ver artigo interessante sobre o tema aqui) em funcionamento no Croke Smart Stadium, sendo este um dos mais avançados estádios do mundo no uso de sensores e análise de dados. Há diversos captores e câmeras fazendo monitoramento de multidão, de atletas, do campo… A ideia é, segundo os organizadores, ser uma experiência viva, um laboratório social como uma “mini smart city”.

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Croke Smart Stadium

Futuro

O lançamento da última terça-feira oferece um novo élan para tornar Dublin uma cidade ainda mais convivial, alegre, segura e, de fato, mais inteligente. O objetivo é melhorar a vida das pessoas e esforços estão sendo feitos. A conjunção de vontade política, boa capacidade empresarial (9 das 10 maiores empresas do mundo estão aqui, como Intel, HP, Microsoft, Facebook, Google, EBAY, Paypal, Linkedin, Amazon, Twitter…), recursos humanos de qualidade (boas universidades e centros de pesquisa), relação estreita com a academia, além da retomada do crescimento econômico (a terceira melhor cidade do mundo para inovação, segundo informações apresentadas) parecem serem fatores muito positivos por aqui.

Dublin está se transformando em um verdadeiro laboratório social com o atual projeto integrado de Smart Cities e a correlata expansão de sistemas de Internet das Coisas e Big Data. Questões de segurança e criminalidade cibernética, centrais e sensíveis para o desenvolvimento de projetos desse tipo, começam a entrar na ordem do dia (o governo lançou em 2015 o National Cyber Security Strategy, para lidar com os desafios atuais da sociedade da informação), mas ainda precisam de ações mais coordenadas e exigências de padrões que possam dar mais segurança aos usuários e aos sistemas públicos. Se cada objeto é hoje um computador em rede, muito tem que ser feito para garantir a segurança no trânsito de dados e evitar a paralização de sistemas vitais (transporte público, energia, etc.) e o aumento dos custos. Recentes textos de Rob Kitchin e de Natalie Allen mostram como a questão é central para o desenvolvimento de projetos de cidades inteligentes.

Se compreendemos que uma “smart city” é resultado da conjunção de ação proativa governamental visando a melhoria das condição de vida urbana em um ambiente high-tech e de pulsante (big players, startups, cultura maker, hacktivismo…), de desenvolvimento de laboratórios de internet das coisas e de análise de dados,  de um bom ambiente universitário, e de uma economia em crescimento, podemos dizer que Dublin deu efetivamente um passo importante em direção a iniciativas mais planificadas. Os próximos passos são chamadas para projetos-piloto e colocar Dublin como uma “testbed”. Ver slide da apresentação de Jamie Sudden abaixo.

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Mas é preciso estar atento. Há muita fé nessa narrativa e muitos negócios envolvidos em meio a boas intenções. O que pude observar no lançamento do projeto foi que em nenhum momento foram apresentados dados ou experiências de sucesso de “smart cities” ao redor do mundo que pudessem dar base concreta a afirmações tão fortes, otimistas e entusiasmadas quanto ao futuro. Parece que a rota em direção ao sucesso é apenas uma questão de tecnologia, organização, tempo e paciência. Entretanto, não há ainda no mundo uma experiência de sucesso realizada que permita afirmar o destino dos projetos de “smart cities”. Tudo estar a ser construído. Muito da narrativa desse lançamento se legitima com base na fé, na crença e na esperança das benesses do desenvolvimento tecnológico e na busca por negócios lucrativos. Já vimos esse filme muitas vezes.

A fé na tecnologia e na racionalidade científica, aliada a grande expectativas de negócios, reedita utopias já conhecidas e que podem se transformar, sob o manto da neutralidade dos dados, em pesadelo (maior controle social, mais sistemas de vigilância, invasão de privacidade, burocratização e automatização dos modos de vida). Se assim for, o resultado será contrário a todo o discurso em torno da construção de uma cidade mais “inteligente”, ou seja, mais sustentável, segura, resiliente ou, como quer o slogan do projeto, “aberta, conectada e engajada”. Precisamos sempre qualificar essas palavras e não apenas traduzi-las em termos tecnológicos. Esse é o desafio atual em Dublin e em outros projetos ao redor do planeta.

A crença em uma gestão mais técnica e científica da vida social, agora transformadas em uma nova sensibilidade digital do espaço urbano, uma sensibilidade algorítmica  (falarei sobre isso em evento em Montpellier na próxima semana), é a crença em um mundo transparente pela “leitura de seus dados”  (entendidos portanto como neutros) e, consequentemente, passível de uma melhor administração. É preciso discutir essa crença e avaliar, com base em experiências concretas, essa governabilidade algorítmica . Tendo isso em mente, é possível, de forma mais consistente, mobilizar forças políticas que possam corrigir desvios. Como não há ainda experiências em larga escala que permitam afirmações definitivas sobre a eficácia do uso massivo desses dispositivos na vida urbana, é fundamental uma politização (discussão ampla) e crítica dessas narrativas.

Não se trata de negar potencialidades, mas de manter uma postura atenta à história da relação entre as sempre “novas” tecnologias e o espaço urbano. É preciso não esquecer as utopias do passado para politizar e criticar o presente. Não se pode deixar o futuro à mercê de uma nova euforia tecnológica, governamental e/ou empresarial.

Dublin deu um passo importante, mostrando inteligência política, agressividade na busca por experimentação e inovação, bem como preocupação com a coisa pública. Mas só o futuro dirá se o discurso atual e a articulação que se quer construir entre os diversos atores deram certo na transformação da capital irlandesa em uma cidade ainda mais inteligente.

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