Revolution and Sense of Technology

Revoluo e Sentidos da Tecnologia

Nada encarna melhor o esprito da revoluo do que as proezas da tecnologia. Na modernidade, a cincia e a tcnica substituem a religio e Deus na construo do novo. A tecnologia aponta para o u-topos e o u-cronos alimentando sonhos. Com a revoluo da informtica, voltamos ao velho sonho de um mundo da comunicao livre, sem entraves, democrtico, global. As redes sempre produzem este imaginrio. Ecumnicas, elas fomentam a panacia do estar-junto. Foi assim com o telgrafo e a estrada de ferro, com o rdio, o telefone e as autoestradas; com a TV, os avies e a viagem lua. assim hoje com a internet.

A (revoluo da) cibercultura implica novos sentidos da tecnologia. O paradigma informacional instaura a passagem do modo industrial para o eletrnico. O Gestell (Heidegger) a essncia da tcnica moderna: dominao cientfica da natureza, onde esta torna-se fundo para a interveno tecnocientfica. O novo paradigma traduz o mundo em dados binrios, para posterior processamento em mquinas informacionais, os computadores. A dominao agora digital. O sentido (histrico) construdo pela traduo da natureza na linguagem dos algoritmos, inserindo o domnio tcnico na esfera do discurso e da comunicao. A revoluo algortmica transforma a sociedade industrial a parir de trs pilares fundamentais: a rede (informao), a sociabilidade (comunicao) e a globalizao (mundializao). Esse trip desenha a relao poltica da revoluo tcnica atual. Esta aponta para a expanso da informatizao do mundo, onde potncia comunicativa e processamento de dados aumentaro.

Mas,para alm do domnio tcnico, e atravs dele, haveria uma revoluo social em marcha. Hoje nada se compara fora transformadora da informatizao da sociedade nos seus trs princpios: a liberao da palavra (emisso), a conexo planetria e a reconfigurao sociocultural. A liberao da palavra traz conseqncias para a constituio da opinio e da esfera pblicas. Podemos afirmar que a conversao mundial se ampliou com sistemas de comunicao transversais como blogs, microblogs, wikis e outras redes sociais. A liberao da emisso (antes controlada pelos mass media) correlata abertura dos sentidos. A transformao da esfera miditica se d com o surgimento de funes conversacionais ps-massivas, permitindo, a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informao sem ter que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concesso a quem quer que seja (vejam o impacto do Twitter na atual tenso ps-eleies no Ir). A livre circulao da palavra se d pela conexo mundial em redes (internet e celulares). A constituio dessa esfera pblica mundial tem implicaes polticas profundas. Aparece aqui o que sentimos no dia a dia: reconfigurao social, cultural e poltica do sistema infocomunicacional global, com novas mediaes e agentes criando “revolues” no centro da polis.

A relao entre a comunicao (a potncia social) e a tcnica (a potncia da ao) est na base da discusso poltica, desde sempre. A tcnica – a esfera da ao sobre o mundo, e a comunicao – o discurso como forma de virtualizao dos sentidos, so dimenses essenciais do humano. Estas balizam as relaes sociais, dimensionando a sua coeso e futuro. Para pensarmos a revoluo da cibercultura necessrio partir do reconhecimento dos rumos da democracia (cada vez mais planetria) em uma sociedade construda, de agora em diante, sobre um outro modelo comunicacional: s funes massivas informacionais adicionam-se funes ps-massivas conversacionais. O impacto da nova convergncia comunicao-tecnologia gigantesco: liberao da emisso, crise das mediaes, conexo bidirecional global, software e cultura “livre”, redes sociais, mobilizao e mobilidade.

Mas resta perguntar para onde essa revoluo nos levar. Voltemos ao comeo. O sentido aqui outro; o de sua essncia. A tcnica moderna ainda dominao cientfica da natureza e do outro. Mas, diferente das tecnologias do modelo industrial/massivo, que tinha por modo de ser a extrao material e energtica da natureza para produo de bens e difuso de informaes centralizadas, parece que a essncia da tecnologia digital a traduo da natureza em bits para produo de formatos comunicativos e conversacionais globais. o seu modo de ser, o seu princpio. Por esse prisma, o sentido da revoluo tcnica est aberto, sendo produzido neste exato momento no jogo das subjetividades em rede. No a primeira vez, certamente, mas podemos agora produzir sentido coletivamente, cooperativamente, no jogo das subjetividades abertas ao outro, para alm das querelas identitrias, das fronteiras, das culturas, das religies e dos territrios. Mas h aqui ainda uma utopia. Se houver uma revoluo tecnolgica, ela se dar na produo aberta e coletiva dos sentidos.

Referncia

Heidegger, M., Essais et Confrences. Paris, Gallimard, 1958.

Andr Lemos professor Associado da Faculdade de Comunicao da UFBa, pesquisador 1 do CNPq. Esse artigo foi escrito para o jornal A Tarde, especial sobre “Revolues”. A ser publicado em breve.

2 Replies to “Revolution and Sense of Technology”

  1. Andr,

    Concordo com a maioria das coisas que escreve, porm acho que a liberao da emisso de mensagens com os sistemas de comunicaes tranversais muitas vezes s considerada vlida e pertinente pela sociedade, quando h uma aprovao e credibilizao dos meios de comunicao em massa. As denncias vindas do Ir via twitter, ao meu ver, s tomaram a projeo que tomaram, pela sua veiculao nos mass-midia. Estou errado ?

  2. Obrigado pelo comentrio. Veja que a interrelao dos dois sistemas que garante a novidade da nossa era. Escrevi no texto:

    "Para pensarmos a revoluo da cibercultura necessrio partir do reconhecimento dos rumos da democracia (cada vez mais planetria) em uma sociedade construda, de agora em diante, sobre um outro modelo comunicacional: s funes massivas informacionais adicionam-se funes ps-massivas conversacionais."

    Falo sempre em adicionar, reconfigurar, nunca em aniquilao, substituio…

    Obrigado,

    AL.

Os comentários estão fechados.