FLICA 2011 – Livro e Mdia Digital

No fim de semana participei da Festa Literria do Recncavo em Cachoeira, Bahia. O evento foi bem interessante e acho que a escolha da cidade foi muito feliz. Fiz a curadoria da mesa “O Fetiche do livro em papel e o meio digital” que contou com as ilustres presenas de Bob Stein e Fbio Fernades. H um interessante resumo das discusses aqui.

Deixo abaixo, como registro, os meus pontos de destaque, que de forma nenhuma resumem a rica discusso que se travou na mesa, nem expressa concordncia dos meus colegas:

1. O livro um dispositivo sempre em transformao. O livro desde sempre uma mdia mvel. Ler e escrever o que importa no fundo. Dispositivo eletrnico BIBLIO (ver Derrida, Papel Mquina), um espao/lugar de armazenamento de informao, de livros e que tambm o prprio livro.

2. O leitor editor e distribuidor. Nova forma de leitura onde a ao de edio e compartilhamento pode ser feita pelo leitor. Cresce formas e instrumentos de uma cultura letrada que se faz por uma leitura sociabilizada. O leitor tambm tipgrafo (Desafios da Escrita de R. Chartier) que pode mexer nas fontes e alterar as localizaes das informaes. S h textos e leitores mveis.

3. A fixao da pgina no original. A literatura digital coloca em questo a noo de pgina (dos impressos) e pode se libertar da amarra de um suposto original fixo, mais valorizado do que seria a “cpia” eletrnica. No ser isso, no fundo, o que est pairando na discusso sobre os livros em papel e os digitais e na resistncia em relao a esses ltimos? No seria mesmo a nostalgia do papel que seria o original que fixa para sempre a informao em suas pginas? Toda produo (no s da obra de arte) deve ser vista como trajetria, o original como a origem e a cpia, como aquilo que advm do que copioso, farto (Latour). A edio em papel sempre uma cpia. Assim como o a edio eletrnica. No caso do impresso, a localizao pelo nmero da pgina (essa iluso de fixao) sempre provisria pois das duas uma: ou a obra continuar (e ser reproduzida, desarrumando as informaes, mudando as pginas), ou ser esquecida, ficar sem linhagem e trajetria, e desaparecer. Aprendemos a pensar na fixao da pgina impressa como confivel e original, de onde emana a aura, e a pensar na reproduo (qualquer uma, mas a digital mais recentemente) como inferior, como denegrindo a imagem do original, como a destruio dessa aura pela reprodutibilidade (a opo Benjamin). Seria mais interessante falar de uma localizao fluida e que depende do leitor (aquele que l e o dispositivo utilizado) do que forar os leitores a se fixarem na estrutura das pginas de uma edio impressa (tambm fluida de fato, mas com aparncia de esttica).

4. O Livro objeto sensual. Sempre que uma mdia desenvolve uma relao sensual (corporal), o abandono do dispositivo ser penvel e difcil. Vejam o cinema. O DVD no substitui o cinema pois a relao com o “espao” cinema sensual, impossvel de ser substituda pela sala da casa. O mesmo acontece com o livro. Nossa relao com o cdex sensual: manuseio das pginas, peso, cheiro do papel, exibio nas estantes…O mesmo no acontece com a msica. No temos a nostalgia da fita cassete e, tirando alguns puristas, ningum fica triste em substituir o vinil pelo CD. Ouvir msica uma experincia que pressupe um tempo e um lugar especficos, mas no uma relao sensual com a mdia. Acho que o livro em papel nunca ser substitudo justamente pelo carter sensual de sua materialidade. Acho que ele ser cada vez mais um objeto especial, feito em papel para momentos especiais.

5. As livrarias vo mudar e j esto mudando. Primeiro elas eram lugares de sociabilidade de leitura, de informao e de discusso com livreiros e vendedores que, ou eram editores, ou escritores ou, na sua maioria, leitores vorazes. Hoje estamos na era das megastores que sobrevivem pelo estilo supermercado-caf-da-moda. Acho que, no futuro, como os livros que so em papel apenas por ser o meio convencional de veicular uma histria esto em vias de se tornarem minoritrios (os livros para os quais o papel seria o suporte especial continuaram a serem produzidos – fotografia, arte etc.), essas livrarias sero cada vez mais lojas de eletrnicos e, talvez, as pequenas livrarias voltaro cena para acolher aqueles que querem as edies antigas em papel, encontrar leitores, editores e escritores etc. O futuro mais uma vez se aproximar do passado?

6. O sucesso do livro eletrnico est na materialidade do dispositivo e na emulao do passado. O novo o velho! As anlises sobre as novas mdias centraram-se nas diferenas, na morte dos antigos formatos e na superao da experincia analgica com o surgimento do digital e das redes telemticas. O que estamos vendo um retorno a experincias anteriores, com o aproveitamento das inovaes sociais e tecnolgicas do digital, principalmente no que se refere s possibilidades de produo de contedo, de compartilhamento de informao e de criao de redes sociais. Os e-readers emulam, com a e-ink, muito bem o papel e a tinta. Alguns no tem iluminao interna e tornam-se muito confortveis para a leitura. O que est em jogo aqui usar a tecnologia digital e as redes sem fio para proporcionar portabilidade da biblioteca e uma leitura prxima da do livro impresso (sem firulas, links desnecessrios, ou interatividade exagerada). O leitor nem sempre quer ser “interator”. Ele quer ler como se l um livro em papel. A relao material importante aqui: ler um produto acabado em uma postura corporal similar quela da leitura dos livros jornais e revistas impressas. No estou dizendo que os antigos formatos desaparecero (isso pode at acontecer), nem que seja a mesma coisa (no , j que posso criar redes sociais, compartilhar informaes de leitura nos ereaders e tablets pode-se twitar trechos do que se l, algo impossvel com a leitura do impresso etc.). Sustento que agora (a digitalizao da escrita e dos livros comea nos anos 1980-90) os e-books esto tendo um grande sucesso (a Amazon vende mais e-book que livros impresso, e a venda de e-readers e tablets muito grande hoje) por emularem as materialidades das mdias analgicas. Afinal, no por acaso sculos de sucesso desses formatos miditicos.

7. As principais mudanas so 3: dispositivo, leitura e escrita: Na materialidade do dispositivo livro, na forma de leitura, que sempre uma apropriao e inveno de sentidos, e nas novas possibilidades de escrita, nos novos formatos e estilos que surgem com os hipertextos, os blogs, o twitter etc. H novos escritores e leitores que ainda no so reconhecidos como tais. O fetiche do papel migra para o fetiche do dispositivo. Mas de uma forma ou de outra, o importante que se est ampliando as formas de leitura e de escrita. Agora, leitores e escritores tornam-se figuras maleveis, mais hbridas, que navegam pela experincia do impresso e por suas amplas possibilidades semnticas, que passam a escrever em meio digital e ler de outra maneira, podendo, de forma mais ampla e mundial, alterar a edio e criar redes de sociabilidade na leitura. As experincias parecem ir para o futuro, mas o que vemos , na realidade, rearranjos do passado no presente, inovaes do presente emulando o passado. O futuro est mesmo aberto.