Bruno Latour – Reagregador do Social

Texto no Caderno de Sábado no jornal Correio do Povo de Porto Alegre.

 

 

 

 

 

 

 

BRUNO LATOUR, REAGREGADOR DO SOCIAL

André Lemos

O filósofo americano Graham Harman chamou Bruno Latour de “Príncipe das Redes”. De fato, se podemos resumir o pensamento complexo do sociólogo francês, esta parece ser uma boa expressão. Em toda a sua vasta obra, Latour busca descrever e analisar as redes entre elementos humanos e não humanos que vão constituir o social. Este é menos o contexto de onde domínios específicos (política, ciência, economia) emergem, do que o resultado particular de mediações em uma vasta rede. Portanto, menos interessado em grandes explicações, como estão aqueles que ele chama de “sociólogos do social”, Latour faz uma “sociologia das associações”, fiel à origem do termo social (“o que associa”, inspirado em Gabriel de Tarde), das mediações, das redes.

Rede não é apenas o que conecta elementos separados, uma infraestrutura, mas o que se origina das mediações, sendo ela mesma um elemento transformador. Um avião não é um objeto individual, mas um ator-rede que depende de outros para existir (regras de aviação, aeroportos etc.). O que voa são companhias aéreas e não aviões, diz Latour. Sua sociologia busca manter os olhos atentos aos rastros, descrever as redes no momento em que se formam, reconhecer objetos como agentes sociais, seguir os atores (humanos e não humanos) para “reagregar o social”. O pensamento latouriano é, certamente, um antídoto a abordagens que partem de enquadramentos teóricos generalistas (aplicadas a qualquer fenômeno) e que impedem uma visão oligóptica das associações.

Conhecido como um dos expoentes da Teoria Ator-Rede (TAR), o seu trabalho tem se desenvolvido em diversos campos do conhecimento (administração, antropologia, engenharia, design, arquitetura, comunicação, psicologia, educação, filosofia). Os sociólogos da TAR reconhecem que humanos e não humanos desempenham agências simétricas e que estas devem ser levadas em consideração na descrição das associações, sem que se dê qualquer privilégio analítico a um ou outro, a priori. Só a descrição das mediações poderá identificar a força de “actantes” (que “fazem fazer”) e de intermediários (que transportam ação sem mudança).

A sociologia das associações consiste em identificar boas controvérsias e segui-las antes de serem resolvidas (virarem “caixas-pretas”), exibindo as porosidades das “categorias do social”. A criação desses blocos analíticos reduz a realidade. Por exemplo, a controvérsia atual sobre “pós-verdade” revela que categoria de problema: jornalístico, político, algorítmico? O termo circula por um emaranhado de questões e seria simplório reduzi-lo a uma delas. Como analisá-lo, então, já que definir campos estanques prejudicaria o seu estudo em extensão? Para Latour, o trabalho consistiria em montar a rede, seguir os rastros dos diversos atores e evitar saltos generalizantes. Cabe ao analista não se perder em relativismos, mas apontar como, em determinado momento, uma associação se produz e se estabiliza. Certamente teremos redes diversas ao analisar essa questão no Brasil, no Brexit, ou no governo Trump.

No “Enquete sobre os Modos de Existência”, Latour dá um passo à frente em relação à TAR. Ele se pergunta sobre as condições de emergência da modernidade. Não se trata do que não fomos (“Jamais Fomos Modernos”, um dos seus livros mais conhecidos), mas no que nos transformamos, e como sair do impasse. A sua hipótese é que a modernidade se acomodou em doze modos de existência (seres do direito, da religião, da ficção, da metamorfose, da técnica etc.), que se confundem. Para enfrentar os desafios contemporâneos, Latour identifica erros de categoria e condições de felicidade particulares a cada um desses modos na tentativa de separá-los. Por exemplo, cobrar coerência discursiva em debates políticos é confundir o modo da ciência com o que é próprio da política, a circulação da palavra. O mesmo seria exigir uma eficiência algorítmica aos processos jurídicos, sendo que o modo do direito se caracteriza pela necessidade de ir e vir a documentos para encontrar suas condições de julgabilidade. Confundir modos leva, portanto, ao conflito, destruindo possibilidades de diálogo e saídas (reset) da crise.

Portanto, sua obra se concentra em descrever os valores e contrastes das instituições que constituem o modo de ser dos modernos, em apontar a irredutibilidade do social a categorias estanques e em chamar a atenção para a necessidade de encontrarmos as condições de felicidade dos modos de existência para podermos conversar e preparar o futuro. Latour assume uma tarefa religiosa e política, insistindo na necessidade de “reagregar o social” e de garantir a “circulação da palavra”. Consequentemente, seu trabalho hoje é de diplomacia, necessário para enfrentar o maior desafio da humanidade, o Antropoceno. Um país como o Brasil, cheio de “deuses”, como ele me disse certa vez, poderia ser um exemplo a ser seguido para ajudar Gaia a sobreviver. Mas estamos perdendo também essa oportunidade.

André Lemos é professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e pesquisador do CNPq. Autor de “A Comunicação das Coisas. Teoria Ator-Rede e Cibercultura” (Annablume, 2013).

 

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