Mariana, uma política dos objetos

Hoje à tarde fui ver o trabalho do fotógrafo Christian Cravo, Mariana, no Centro Cultural da Caixa em Salvador. Uma bela exposição, tendo como centro objetos encontrados depois da tragédia ambiental naquela cidade mineira. A mostra não é grande, com duas dezenas de fotos com suporte de textos em braile e descrição sonora. Esta deveria ser solicitada por todos, pois não é apenas uma descrição formal das fotos, mas uma escrita poética sobre cada uma delas. Pedi para usar, pois ninguém me ofereceu, nem vi outros visitantes usando. Uma pena. Fiz todo o percurso da exposição primeiro sem a descrição sonora e depois com os fones. A experiência é ampliada pelo texto recitado. Há problemas, pois o som não está sincronizado com o local onde você se encontra e há divergências entre alguns poucos títulos das fotos, mas ouvir a descrição ajuda a entrar no clima e no ambiente da destruição, além de revelar coisas que passariam desapercebidas nas fotos.



 

Mariana é uma exposição sobre objetos privados que sobreviveram de alguma forma ao desastre. Em face a uma tragédia de dimensões nacionais, senão planetária, pois é uma agressão à natureza e esta não pertence a um país, a exposição ressalta a vida e a memória das pessoas que ali viveram através daqueles objetos no espaço da casa. O olhar do artista revela, pelos objetos, uma dimensão política do evento. Sem as fotos, esses objetos soterrados e deixados ao tempo seriam extirpados para sempre da vida social. Cravo cria assim uma política dos objetos ao destaca-los em fotos belíssimas que parecem pinturas. Em determinados momentos me aproximei para ver se não havia ali pigmentos sobre as fotos. Continue reading “Mariana, uma política dos objetos”

VAR is Bullshit

“VAR is bullshit”!

A verdade sobre um evento nunca é um output indiscutível. O que é gerado em um dispositivo (arranjo performativo de um conjunto de elementos em determinada situação) é sempre construção e deve, portanto, ser sujeito de discussão. Muitas vezes delegamos a objetos técnicos a produção da verdade, obscurecendo a rede (conjunto complexo de agentes em ação) que os constitui. Algo similar aconteceu com o uso do VAR na recente Copa do Mundo da Rússia.

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Entrevista Edufba

 

Entrevista sobre o meu livro “Isso (não) é muito Black Mirror: passado, presente e futuro das tecnologias de informação e comunicação”, lançado recentemente pela EDUFBA.

“Nossa sociedade do presente ‘não é muito Black Mirror’, não porque essa realidade ainda vai chegar, mas justamente por ela já ter ido além. Os desafios e problemas que as TIC nos apresentam hoje são bem maiores dos que os que a série consegue vislumbrar.”

Para a ler entrevita na íntegra, clique aqui.

Livro do mês

A EDUFBA escolheu o meu livro, “Isso (não) é muito Black Mirror: passado, presente e futuro das tecnologias de informação e comunicação”, para ser o livro do mês de julho.

Segundo chamada de editora: “Agora você poderá adquirir o seu exemplar dessa obra com 20% de desconto em qualquer uma de nossas livrarias. Não deixe a oportunidade passar!”

Lançamento dos Livros

O FANTASMA DE BECKETT (romance) – EDITORA SULINA, PORTO ALEGRE. 

Bella, uma jovem de trinta anos, sai de Paris e vai passar um tempo em Dublin para resolver sequelas do seu passado. Sem saber, como que sendo manipulada pelo destino, ela refaz os passos do Prêmio Nobel de Literatura Samuel Beckett, escritor do desaparecimento, da imobilidade e da impossibilidade de comunicação. Pessoas, lugares e objetos serão determinantes para o desfecho da história.

Haverá leitura de trechos do livro em performances com os atores Celso Jr., Cristina Leifer e Enjolras Oliveira. 

ISSO (NÃO) É MUITO BLACK MIRROR – EDUFBA, SALVADOR 

A série Black Mirror, de grande repercussão no Brasil e no mundo, coloca em questão temas caros à sociedade contemporânea. O argumento central desse livro, contrário ao que se tem defendido em muitos artigos e debates sobre o tema, é que a série não fala do futuro e aponta com deficiência problemas do presente. Através de uma linguagem ensaística, o livro é acessível ao público não especialista. Este é o primeiro livro publicado no Brasil sobre a série.

Numérisation Généralisée de la Société

Na próxima semana participo do Colóquio “Numérisation Généralisé de la Société”, na UQAM, Université du Québec à Montréal, em Montreal. Volto à cidade depois de 10 anos quando morei em 2008.  Bom para ouvir sobre o estado da arte da pesquisa e rever os meus lugares favoritos, se ainda existirem… Apresento um artigo, escrito com Daniel Marques, sobre Sensibilidade Performativa, Internet das Coisas e Privacidade.

Resumo:

L’Internet des Objets (IdO) est un réseau dans lequel les objets physiques sont instrumentalisés avec des capteurs et acquièrent des capacités de communication. A partir d’une agence algorithmiques indépendant de l’action humaine directe, ces objets prennent des décisions liées au contexte, échangent des informations, reconnaissent les identités et déclenchent des actions sur un réseau étendu. Cette agence j’appelle de “Sensibilité Performative” (SP). La SP est un acteur-réseau qui ne renvoie pas seulement à la qualité des capteurs intégrés aux objets, mais à la performance du dispositif dans un réseau plus large (discours technocratiques, les stratégies de markéting, les pratiquesdes usages, la publicité, les modèles d’affaires). Nous montrerons comment les menaces à la vie privée dans l’IdO circulent à partir de la SP des nouveaux objets de l’IdO.