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ANO 9, VOL 1, N. 72, Julho/2009

ISSN 1676-2916
Publicação do Ciberpesquisa - Centro Internacional de Estudos e Pesquisas em Cibercultura

Editor: André Lemos
Editor Assistente: Cláudio Manoel


52 fragmentos sobre o Twitter
Fábio Fernandes


1. A origem do Twitter, ou seja, o momento de sua inserção técnica no mundo dos objetos, tem um grau zero que não se pode discutir: é 2006, em San Francisco, California, USA. Seus criadores foram Jack Dorsey (http://twitter.com/jack) e Biz Stone (http://twitter.com/biz), apoiados por Evan Williams, criador do Blogger e atual sócio dos dois.

2. Entretanto, o Twitter como idéia sempre existiu, no mundo daemonico de Platão. O twitter como conceito sempre esteve lá.

3. Logo, é infrutífero (embora interessante do ponto de vista histórico) tentar descobrir o twitter-antes-do-twitter, porque ele certamente existe. E existe no plural: pesquisar isso é como desenterrar uma genealogia web-bíblica.

4. Assim como, no Gênesis, Henoc gerou Irad, que gerou Maviael, que gerou Matusael, que gerou Lamec (e esta é somente a descendência de Caim), também à idéia do Twitter foi gerada por uma idéia anterior; se esta idéia foi o Blogger, o Orkut, o MySpace ou o Facebook não é importante neste momento.

5. O importante é que o Twitter vale tanto com relação ao seu caráter de rede social quanto justamente por uma função de subversão da linguagem.

6. Ao contrário do que muita gente pensa, o Twitter não existe necessariamente para você SE comunicar com o outro, mas para você COMUNICAR algo de SI MESMO com quem quiser ler você.

7. O Twitter é um monólogo interno, só que do lado de fora (como o pára-brisa daquela velha piada).

8. Na verdade, não dialogamos, mas monologamos o tempo todo.

9. Diálogos são invenções do romance, do folhetim do século dezoito. As tragédias gregas, as peças dos clássicos, são quase todas em monólogos que se entrecruzam, o que não é o mesmo que um diálogo.

10. Contudo, por menos que as pessoas queiram responder umas às outras, por menos que elas queiram dialogar, elas certamente estão ali para pertencer (e é justamente por isso que o monólogo interno se apresenta do lado de fora, à vista de todos).

11. Então o sentimento de "pertença", como diz Janina Bauman, está na base do sucesso do Twitter.

12. Mas a pertença é a quê, especificamente? A que grupos ou tribos queremos nos unir quando mergulhamos nesse riocorrente, caudaloso riverrun joyceano que é o Twitter?

13. Uma das funções das redes sociais é fazer com que pessoas se exibam e vejam outras se exibindo.

14. Esse ver-e-ser-visto é um comportamento humano. Não é uma característica do mundo digital. Qualquer rave, qualquer vernissage, qualquer Fashion Week é a mesma coisa. Isso somos nós.

15. Gostamos de viver na multidão, mas fazemos questão de ser sozinhos nessa multidão. Somos espumas flutuantes, para citar Castro Alves numa recombinação com o pensamento filosófico de Peter Sloterdijk.

16. Não existe página em branco no Twitter.

17. Por outra: não existe perfil ativo no Twitter com página em branco, sem sua própria configuração de perfis que segue.

18. Como o rio de Heráclito, não só uma pessoa não se banha duas vezes no mesmo fluxo de rio, mas nenhuma pessoa se banha no mesmo rio.

19. Não existe uma página de Twitter igual a outra. Um perfil de Twitter não acompanha as mesmas pessoas, logo não está sujeito às mesmas mensagens e ao mesmo fluxo.

20. Logo, podemos concluir: não existe apenas um twitter. Existem twitters, no plural. Seguimos em paralelo, como estações de rádio num dial, para usar uma metáfora mais antiga, ou URLs na Web, se quisermos acompanhar os novos tempos e as novas mídias.

21. Mesmo quando nos vemos, nem sempre nos falamos. Optamos por não nos.

22. Retomando a metáfora de “modernidade espumante” de Sloterdijk: vivemos em bolhas transparentes de espaço-tempo onde é confortável saber que não estamos sós – mas que não nos peçam para participar de nada.

23. O Twitter é para pseudogregários.

24. Pseudogregários são aqueles que se sentem confortáveis sozinhos no meio da multidão.

25. Este não é um fenômeno moderno; apenas ocorre que o Twitter é a sua mais nova tradução.

26. Por que o Twitter? Parafraseando George Mallory, alpinista inglês que tentou escalar o Monte Everest em 1924, because it´s there. Porque está lá.

27. (Nunca é demais lembrar que George Mallory desapareceu no meio do caminho para o pico nevado do Everest. Perdeu-se no meio de um snow crash, de um excesso informacional, no caso composto de fractais de flocos de neve contendo mensagens indecifráveis e talvez irrelevantes para nós, humanos.)

28. Se o Twitter não existisse, teria de ser inventado.

29. O Twitter foi inventado.

30. O Twitter seria inventado de qualquer maneira.

31. Vários outros Twitters já estão sendo inventados.

32. A natureza abomina o vácuo: quando o Twitter perder sua utilidade (ou quando deixar de ser interessante, ou de ser moda), ele será substituído por outra ferramenta mais moderna, mais acessível, mais prática.

33. Isto já está acontecendo.

34. A permanência dos usuários no Twitter é algo mais complexo de analisar, e tem mais a ver efetivamente com a quantidade e a qualidade do conteúdo.

35. Um dos motivos prováveis da permanência dos usuários no Twitter é sua, poderíamos dizer, “an-MSNidade”, e nele só permanece quem tem algo a dizer além de "e aí blz?"

36. Mas o que se tem a dizer no Twitter?

37. Pode-se dizer o que se quiser no Twitter, sem restrição de tema. Pode-se até mesmo optar por nada dizer.

38. As hashtags do Twitter, assim como as coisas que são ditas antes delas, podem ser subvertidas para não significarem nada #beijonaomeliga

39. Por outro lado, o Twitter também pode ser usado como uma versão do MSN.

40. O Twitter também pode ser usado apenas para seu propósito original, ou seja, dizer a quem segue você o que você está fazendo naquele determinado momento.

41. Na verdade, o Twitter pode ser usado para quase tudo o que se queira em termos de funções da comunicação (Roman Jakobson).

42. O Twitter é uma ferramenta muito mais adequada a dispositivos móveis do que a desktops, pois pode-se fazer muito mais coisas em movimento do que parado (ainda que você possa fazer um número grande de coisas em um desktop).

43. Some-se a isso a dificuldade que muita gente tem hoje em dia de atualizar seus blogs com freqüência, seja por preguiça ou por falta de tempo.

44. O Twitter oferece uma “terceira margem do rio” (Rosa, que no entanto não deixa Heráclito de lado) que é quase o ideal de comunicação: drops, pílulas de informação, que podem ser atualizadas quantas vezes se queira (não há limite para quantos "twits" você dá por dia).

45. O Twitter não requer que seu usuário tenha conhecimento empírico de código algum, ou seja, não precisa entrar em publicadores como Blogspot, Wordpress ou Movable Type.

46. Retomando o Rio de Heráclito (que no entanto não deixa Sloterdijk de lado, pois fluxos de rios fazem bolhas e espumas), tudo nos conduz de volta aos pré-socráticos: o twitter é heraclítico pela própria natureza.

47. Twitter é fragmento.

48. O Twitter é fractal. É o Aleph borgiano.

49. Para entender o Twitter, basta entender um fragmento do Twitter.

50. Para entender o Twitter, basta entender um daqueles que Twittam.

51. Conhece-ti a ti mesmo; twitta-te a ti mesmo.

52. O Twitter é oracular.